As redes sociais nos apresentam um mundo imensural de oportunidades, entre elas a criação de novas amizades. E foi pelo facebook que Márcio Miguel Pasquali, 22, conhecido como Marcinho Palmeirense, me propôs um desafio: mostrar que São Carlos não está adaptado para cadeirantes e portadores de deficiências. Marcinho é cadeirante há 12 anos e portador de Amiotrofia Espinhal Progressiva (AME), uma doença genética que afeta as células nervosas motoras da medula espinhal.
Era aproximadamente 9h15 quando Marcinho chegou ao Jornal Primeira Página, trajando claro, o uniforme do Verdão. Sempre com um grande sorriso no rosto, logo foi me dizendo: “Senta, ai esta sua cadeira de rodas, vai tomar mesmo o desafio?”. Sem pensar duas vezes respondi: “O desafio está aceito”. Como jornalista já fiz matérias sobre acessibilidade, mas não tinha a dimensão do problema. Marcio em sua cadeira de rodas motorizada e eu em uma cadeira manual, me tornei cadeirante por algumas horas. O primeiro desafio foi descer a calçada da avenida São Carlos cruzamento com rua Conde do Pinhal. A calçada é irregular e a rampa, se isso for rampa precisa mudar o conceito no dicionário Aurélio, inexiste. Com esforço conseguimos descer. Claro Marcinho com mais habilidade, apanhei muito. Mas este foi o primeiro desafio. O segundo estava no do outro lado. Na calçada da Catedral a rampa de acesso para cadeirantes tem um degrau enorme, assim não é possível ir pela calçada.
“Esta vendo, se tentar subir na rampa da calçada da catedral vamos cair. Não dá. Este é um problema em toda a avenida São Carlos, você vai ver”, disse o palmeirense que não perdia a oportunidade de tirar sarro do jornalista são-paulino.
Descemos então a avenida São Carlos disputando espaço com carros. Para controlar a velocidade da cadeira fui obrigado a fazer muita força. Não é fácil.
Chegamos à região do mercado municipal. Movimento de pessoas e carros. Todos olhavam estranhamente para dois cadeirantes. Mas mesmo com dificuldades, ninguém se colocou a disposição para ajudar. Motoristas não respeitaram em nenhum momento a nossa travessia pelas ruas que cortam a avenida. Todo cuidado é pouco.
Chegamos na praça do Mercado Municipal. Primeira rampa de acesso. Nada, não dá. Um degrau enorme impede que possamos ter acesso à praça. Vamos tentar a segunda rampa. Nada, ou melhor, nem degrau existe. Muitas pessoas chegam ao nosso redor, algumas curiosas, outras querendo entender o que estava acontecendo e pelo menos duas perguntaram se poderiam ajudar.
Mais uma tentativa, encontramos uma terceira rampa. Deu certo. Marcinho subiu tranquilamente com sua cadeira de rodas elétrica. Eu, jornalista e fora de forma, apanhei um pouco, mas consegui. “Jéferson, é isso que passo todos os dias. Nós cadeirantes não temos nada que possa nos ajudar. As rampas que existem não funcionam. Estão fora de qualquer padrão. Para ir na biblioteca municipal não há como, não tem rampa na calçada”, disse Marcinho.
De fato,em São Carloshá grandes problemas para os deficientes e como jornalista senti na pele estas dificuldades. Sair do discurso e gerar condições necessárias de acessibilidade é função de todo agente público. Que esta experiência possa ser de exemplo e traga mudanças.
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