Fórum Brasil/Portugal – São Carlos – SP

Defender os brasileiros em Portugal não deveria exigir coragem

(*) Rui Sintra

Quando reconhecer o trabalho, o investimento e a contribuição de uma comunidade imigrante provoca ameaças, há algo profundamente errado no debate público

Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a significar consentimento. Este é um deles.

Li com atenção — e também com indignação — o artigo intitulado “Quando falar bem de brasileiros em Portugal se torna um perigo”, do jornalista Vicente Nunes, publicado no jornal Público, em 8 de agosto. O texto relata um episódio que deveria preocupar portugueses e brasileiros: uma cidadã portuguesa teria sido ameaçada simplesmente porque elogiou publicamente os brasileiros que vivem em Portugal e reconheceu o comprometimento deles com o trabalho. Um familiar dessa mulher, segundo o relato, chegou a ser agredido verbalmente na rua, sendo necessária a intervenção de terceiros para evitar que a situação evoluísse para violência física.

É preciso dizer claramente: quando elogiar brasileiros se transforma em motivo para ameaças, o problema já não são os brasileiros. O problema é a intolerância. E contra a intolerância não podemos responder com silêncio. Concordo com a essência do alerta feito por Vicente Nunes. Mais do que isso: considero necessário reforçá-lo. Podemos — e devemos — discutir imigração.

Portugal tem o direito soberano de estabelecer regras migratórias, controlar suas fronteiras, exigir documentação, fiscalizar o cumprimento das leis e planejar a capacidade de seus serviços públicos. Nenhum país responsável pode abrir mão disso. Mas existe uma enorme distância entre debater imigração e hostilizar imigrantes. Misturar deliberadamente as duas coisas é intelectualmente desonesto e socialmente perigoso.

Quando o debate abandona os preconceitos e chega aos números apresentados no artigo de Vicente Nunes, uma realidade bastante diferente aparece. Os brasileiros constituem a maior comunidade estrangeira residente em Portugal. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) citados pelo jornalista, são quase 600 mil cidadãos brasileiros estabelecidos no país. Mais: os brasileiros correspondem a quase 10% dos trabalhadores que contribuem mensalmente para a Segurança Social portuguesa. Somente em 2025, segundo os números apresentados no artigo, essa contribuição alcançou 1,47 bilhão de euros.

É dinheiro que entra no sistema português. É trabalho realizado em Portugal. É riqueza produzida em Portugal. Portanto, antes de apontar o dedo para o imigrante brasileiro, é preciso reconhecer aquilo que ele efetivamente representa para a economia e para a sociedade que o recebeu.

Os brasileiros estão presentes em praticamente todos os setores da economia portuguesa e, conforme destaca Vicente Nunes, possuem papel particularmente importante nos restaurantes e na hotelaria — justamente atividades fundamentais para um país que tem no turismo uma de suas grandes forças econômicas.

Quem atende nos restaurantes? Quem trabalha nos hotéis? Quem está nos serviços? Quem trabalha à noite, nos fins de semana e nos feriados? Muitas vezes, são imigrantes. E muitos deles são brasileiros. Essa realidade precisa fazer parte de qualquer discussão séria sobre imigração em Portugal. Brasileiros não levam apenas malas. Levam capital, empresas e empregos.

Existe ainda outro lado dessa história que frequentemente desaparece do discurso anti-imigração. O brasileiro que chega a Portugal não é apenas trabalhador. Também é consumidor, contribuinte, empreendedor e investidor. Vicente Nunes destaca que os brasileiros ampliaram significativamente seus investimentos no país. O jornalista menciona o setor imobiliário e cita empreendimentos em Cascais que deverão movimentar pelo menos 300 milhões de euros. E estamos longe de falar somente de pequenos negócios. Há capital brasileiro estratégico instalado em Portugal.

A Embraer, controladora da Indústria Aeronáutica de Portugal  (OGMA), aparece no artigo como exemplo da presença industrial brasileira no país, inclusive com novos investimentos relacionados à fabricação aeronáutica. O jornalista também menciona a brasileira WEG, em Santo Tirso, como importante agente da economia local. Isso tem nome: investimento. Tem consequência: emprego. E tem resultado: desenvolvimento econômico. Mas, talvez ainda mais significativo seja aquilo que acontece longe das grandes corporações.

Segundo os dados do Observatório das Migrações citados por Vicente Nunes, existem aproximadamente 10 mil empreendedores brasileiros espalhados por Portugal, e cerca de 80% são mulheres. O artigo afirma ainda que, entre os imigrantes, os empreendedores brasileiros são os que mais empregam. São restaurantes, lojas, empresas de serviços, salões, escritórios, negócios tecnológicos e tantas outras atividades que ajudam a movimentar diariamente a economia portuguesa.

Não são estatísticas abstratas. São pessoas trabalhando. São empresas pagando salários. São famílias consumindo. São impostos sendo recolhidos. São empregos sendo criados.

Brasileiros não podem servir de bode expiatório

Portugal enfrenta problemas reais. Habitação cara, salários baixos, dificuldades nos serviços públicos, transportes, infraestrutura e desafios demográficos são questões que merecem respostas sérias. Mas há uma pergunta que precisa ser feita: quantos desses problemas começaram com a chegada dos brasileiros? Transformar o estrangeiro em explicação conveniente para dificuldades estruturais pode produzir dividendos políticos, mas não produz soluções. O imigrante não pode servir de bode expiatório para décadas de decisões equivocadas, falta de planejamento ou incapacidade de execução de políticas públicas.

Vicente Nunes é particularmente duro ao abordar esse ponto. Seu artigo menciona a longa espera pelo novo aeroporto de Lisboa, as dificuldades de ligação entre Lisboa e a Margem Sul e as limitações da infraestrutura ferroviária portuguesa em comparação com a espanhola.

Podemos discutir o tom utilizado pelo jornalista. Mas não podemos fugir da pergunta central. Expulsar brasileiros construiria um aeroporto? Hostilizar imigrantes resolveria a crise habitacional?

Atacar estrangeiros aumentaria os salários portugueses? Espalhar xenofobia faria aparecer novas pontes, ferrovias, hospitais ou escolas? Evidentemente que não.

Problemas estruturais exigem soluções estruturais — não inimigos imaginários. Há ainda algo que, para mim, torna essa discussão particularmente dolorosa. Portugal conhece a emigração. Milhões de portugueses deixaram sua terra ao longo das gerações procurando oportunidades em outros países. Foram para França, Luxemburgo, Suíça, Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Venezuela, África do Sul e, evidentemente, Brasil. O Brasil recebeu portugueses durante séculos. Eles trabalharam, abriram estabelecimentos comerciais, criaram empresas, constituíram famílias e participaram profundamente da construção econômica, social e cultural brasileira. Quantas famílias brasileiras não possuem um avô, um bisavô ou um antepassado português?

Por isso, quando vejo brasileiros sendo tratados como se fossem uma ameaça coletiva a Portugal, não consigo deixar de perceber uma dolorosa contradição histórica. Ontem, portugueses atravessavam fronteiras em busca de futuro. Hoje, brasileiros fazem o mesmo caminho em direção a Portugal. Mudaram os passageiros. A esperança é a mesma. Não quero privilégios. Quero respeito. É importante deixar isso absolutamente claro. Não defendo que brasileiros tenham privilégios em Portugal. Não defendo imigração sem regras. Não defendo que qualquer pessoa esteja acima da legislação portuguesa.

Quem escolhe Portugal para viver deve respeitar Portugal, suas leis, suas instituições e sua sociedade. Mas quem trabalha honestamente, paga impostos, contribui para a Segurança Social, abre empresas, cria empregos, investe, estuda e constitui família também merece algo elementar: respeito. Um brasileiro que pratica um crime deve responder pelo crime que praticou. Um português que pratica um crime também. O que considero inadmissível é transformar a conduta individual de alguém numa condenação coletiva de centenas de milhares de pessoas.

Presença estrangeira tem importância para a própria dinâmica econômica do país

Passaporte não define caráter. Nacionalidade não determina honestidade. Sotaque não mede dignidade. Portugal precisa escolher qual país deseja ser. O artigo de Vicente Nunes afirma, citando dados do INE, que sem os imigrantes a população portuguesa teria diminuído e sustenta que a presença estrangeira tem importância para a própria dinâmica econômica do país. Isso coloca Portugal diante de uma escolha. Pode transformar a imigração em instrumento permanente de confronto político, alimentando ressentimentos e dividindo pessoas entre “nós” e “eles”. Ou pode fazer algo muito mais inteligente: organizar os fluxos migratórios, exigir o cumprimento das leis, promover integração e aproveitar a capacidade produtiva, empresarial, científica e cultural daqueles que escolheram o país para viver. Eu prefiro a segunda opção.

Porque nenhuma sociedade se torna maior diminuindo aqueles que nela procuram construir uma vida. Volto, portanto, ao episódio que motivou o artigo de Vicente Nunes. Uma portuguesa teria sido ameaçada porque falou bem de brasileiros. Pensemos por alguns segundos na gravidade dessa frase. Não estamos falando de uma divergência política. Não estamos falando de alguém defendendo uma ilegalidade. Estamos falando de uma pessoa que teria sido intimidada porque reconheceu qualidades em cidadãos de outra nacionalidade. Isso não pode ser normalizado. A democracia permite discordar. Permite defender políticas migratórias mais abertas ou mais restritivas. Permite criticar governos. Permite discutir números. Permite até discordar frontalmente deste artigo.

O que uma democracia não pode aceitar como normal é que alguém tenha medo de expressar uma opinião positiva sobre brasileiros — ou sobre qualquer outro povo. Por isso, escrevo estas palavras não apenas para concordar com Vicente Nunes, mas para acrescentar minha voz ao debate. Sim, os brasileiros contribuem para Portugal. Trabalham. Pagam impostos e contribuições sociais. Empreendem. Investem. Geram empregos. Constituem famílias. Participam da vida portuguesa. E reconhecer tudo isso não significa negar que existam problemas associados à imigração. Significa apenas recusar a mentira confortável de que um país complexo possa explicar suas dificuldades apontando o dedo para quem chegou de fora.

Preconceito não vai vencer

Brasil e Portugal possuem uma história longa demais para permitir que o preconceito seja mais forte do que aquilo que os aproxima. Temos diferenças. Temos divergências. Temos problemas. Mas também temos uma língua compartilhada, relações familiares, investimentos, empresas, universidades, cultura, afetos e milhões de histórias pessoais cruzando permanentemente o Atlântico. Por isso, faço minhas, em essência, as preocupações levantadas por Vicente Nunes.

E acrescento uma convicção pessoal: Portugal não será menor porque brasileiros ajudam a construí-lo. Será menor apenas se permitir que o preconceito determine quem merece ser respeitado. O futuro português não precisa ser exclusivamente português ou estrangeiro. Precisa ser construído por quem respeita Portugal, trabalha por Portugal e acredita em Portugal. Sejam portugueses. Sejam brasileiros. Sejam imigrantes de qualquer nacionalidade. Porque, no final, um país não se fortalece perguntando apenas de onde vieram aqueles que nele vivem.

Fortalece-se perguntando: o que estamos dispostos a construir juntos?

*Fonte e referência: Artigo de opinião “Quando falar bem de brasileiros em Portugal se torna um perigo”, de Vicente Nunes, publicado no jornal Público, em 8 de agosto, conforme documento utilizado como base para este artigo.

(*) O autor é jornalista profissional/correspondente para a Europa pela GNS Press Association / EUCJ – European Chamber of Journalists/European News Agency). Presidente do “Fórum Brasil / Portugal – São Carlos (SP) – MTB 66181/SP.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Jornal Primeira Página sobre o assunto.

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