Efeitos climáticos

Grupo discute plano de combate aos efeitos do super El Niño

A Prefeitura de São Carlos promoveu a primeira reunião do Grupo de Trabalho em Mudanças Climáticas para discutir os impactos do chamado super El Niño e traçar um plano de adaptação para o município. O grupo reúne cientistas da UFSCar, da USP, das duas unidades da Embrapa na cidade, Instrumentação e Pecuária Sudeste, e representantes das secretarias municipais ligadas ao tema, e já realizou sua primeira reunião nesta quarta-feira (19/08), no Paço Municipal.

Segundo o professor Eduardo Mário Mendiondo, da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP), um dos integrantes do grupo, o município soma um conjunto raro de universidades e institutos de pesquisa, mas arrasta um histórico de degradação de recursos naturais — água, solo e infraestrutura — ao longo das últimas sete ou oito décadas. Com a aceleração dos efeitos da emergência climática, o pesquisador vê uma “janela de oportunidade” para o município investir em obras de mitigação e adaptação. “São Carlos perdeu de investir em serviços ambientais como política prioritária e isso se traduz hoje em não conseguir colocar na economia em torno de mais 6 bilhões de reais por ano”, afirmou. O valor representaria um salto de mais de 40% sobre o PIB atual do município, estimado em R$ 14 bilhões.

Para debater o tema em nível nacional, a USP e a UFSCar vão sediar, entre os dias 21 e 25 de setembro, o Encontro Nacional de Águas Urbanas e o Simpósio de Revitalização de Rios Urbanos, com a participação de especialistas estrangeiros. “Dessa maneira saímos de uma visão de somente levantar problemas ou criar conhecimento e partimos para uma agenda proativa de ação, de obra, de riqueza, de qualidade de vida”, disse Mendiondo.

O pesquisador da Embrapa Instrumentação Sílvio Crestana defende que a discussão vá além do debate e se traduza em ação imediata. Segundo ele, previsões científicas apontam para um possível El Niño de intensidade elevada, capaz de provocar secas intensas, chuvas fortes, enchentes, erosão do solo, destruição de plantações e dificuldades para alimentar rebanhos, com reflexos diretos sobre alimentação, saúde e temperatura da população.

“Para evitar ou diminuir esses possíveis impactos negativos, uma das sugestões é que se crie um gabinete de risco, ao invés, por exemplo, de um gabinete de crise, que é o que normalmente se faz, porque a crise é algo que já aconteceu”, explicou Crestana. Para ele, discutir o tema na escala municipal é mais eficaz do que buscar consensos globais, como os que frustraram a COP-30, realizada no Brasil. “É onde uma dada mudança climática ou geopolítica impacta o cidadão naquele local, no emprego, no trabalho, na residência, na moradia, na saúde. Construir soluções locais é a melhor saída”.

A diretora do Departamento de Gestão Ambiental e Climática da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Bem-Estar Animal, Giovana Galetti, que representou o secretário Júnior Zanquim, apresentou ao grupo o Plano de Arborização Urbana já em execução pelo município, elaborado com base em diagnóstico que identificou as áreas menos arborizadas como as mais afetadas por ilhas de calor. “As ilhas de calor, as ondas de calor e até mesmo as ondas de frio podem ser minimizadas com o plantio de árvores”, disse. A secretaria também está contratando um Inventário de Gases de Efeito Estufa, que deve subsidiar novos planos e ações climáticas do município.

Já o gerente de Drenagem e Manejo de Águas Pluviais do Saae São Carlos, Eduardo Casado, afirmou que o agravamento dos eventos extremos já é sentido pela população a cada chuva, especialmente na região central da cidade, área com problemas históricos de drenagem. Segundo ele, o Saae atua em duas frentes: o planejamento de médio e longo prazo, com projetos específicos para cada bacia hidrográfica, e ações imediatas de manutenção, como limpeza de bocas de lobo e galerias, além de desassoreamento e controle de erosão em rios urbanos.

O assessor do prefeito Netto Donato, José Galízia Tundisi, detalhou que a reunião desta semana é apenas a primeira etapa do grupo. A partir dela, está prevista uma reunião mais ampla, em 14 de setembro, reunindo Prefeitura, UFSCar, USP e Embrapa para tratar especificamente dos impactos do chamado super El Niño no município. “A partir dessas discussões, pretendemos elaborar um projeto de grande porte para apresentar à Caixa Econômica Federal, que possui recursos disponíveis para ações relacionadas a esse grande El Niño, no sentido de promover adaptações no município em relação a enchentes, precipitações, secas e também aos impactos na saúde humana”, afirmou.

Tundisi adiantou ainda que pretende levar o convite para o encontro de setembro a outros municípios da região. Nesta quinta-feira, 20, ele participa de uma palestra para representantes de 21 cidades da Associação Paulista de Municípios, reunidos no Hotel Nacional.

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