Fórum Brasil/Portugal – São Carlos

Estudos literários portugueses na UFSCar

(*) Rui Sintra

A Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) recebe na próxima terça-feira, 1º de setembro, a sessão de abertura do “IV Seminário Aberto do GELPA” e o “I Seminário Aberto do GENFIP”, cuja saudação fraterna eu não poderia deixar de enviar, uma saudação inspirada na convicção de que a Universidade permanece como um dos mais nobres espaços de construção do pensamento crítico, da liberdade intelectual e da cooperação entre povos unidos pela ciência, pela cultura e pela língua portuguesa. Como presidente do “Fórum Brasil/Portugal – São Carlos (SP)” e como diretor do Conselho da Comunidade Luso-Brasileira do Estado de São Paulo (CCLB), nomeadamente no âmbito do Comitê de Direitos e Cidadania, tenho a firme convicção de que nesse dia não celebraremos apenas datas: iremos celebrar uma história construída com inteligência, perseverança e compromisso acadêmico. Celebraremos os vinte anos do Grupo de Estudos Literários Portugueses e Africanos da UFSCar (GELPA), cuja trajetória representa um marco incontornável nos estudos dedicados à literatura portuguesa contemporânea. Comemoraremos os cinco anos do GENFIP, que rapidamente se afirmou como um centro de reflexão inovador sobre a novíssima ficção portuguesa, abrindo novos horizontes para a investigação literária e para o diálogo entre diferentes gerações de estudiosos. E celebraremos, igualmente, os dez anos do Curso de Extensão “A novíssima ficção portuguesa”, que alcança agora a sua XVI edição, demonstrando que a excelência acadêmica não se mede apenas pelo tempo, mas pela capacidade permanente de renovar o conhecimento, formar investigadores e aproximar universidades, culturas e comunidades. Permitam-me afirmar que estas três celebrações possuem um profundo significado simbólico, ou seja, significam a continuidade de um projeto intelectual que fez da investigação, da docência e do diálogo luso-brasileiro um verdadeiro patrimônio acadêmico, tendo como um de seus maiores entusiastas e mentores o Prof. Dr. Jorge Vicente Valentim, valoroso docente da UFSCar. Estas celebrações representam o triunfo da continuidade sobre a efemeridade, da persistência da investigação sobre o imediatismo e a convicção de que a Universidade continua a ser um espaço privilegiado para pensar o mundo, compreender o ser humano e interpretar o tempo em que vivemos. Impossibilitado de comparecer a esta efeméride por motivos profissionais, caberá à Senhora Regina Milani, diretora do “Fórum Brasil/Portugal – São Carlos – SP”, me representar nesse momento tão importante, certo de que fará uma sóbria alusão a ilustres poetas e escritores Lusitanos. Luís de Camões legou-nos uma língua capaz de atravessar séculos e oceanos. Essa língua, que cantou “os feitos da famosa gente”, continua hoje a cumprir a sua vocação maior: aproximar culturas, promover o conhecimento e afirmar uma comunidade que se reconhece na diversidade das suas vozes. Regina Milani também recordará Eduardo Lourenço, que via Portugal como uma permanente reflexão sobre si próprio. Talvez possamos dizer o mesmo da lusofonia: ela não é um espaço acabado, mas uma construção contínua, alimentada pelo pensamento, pela literatura e pelo encontro entre aqueles que partilham a língua portuguesa como casa comum. Agostinho da Silva lembrava-nos que o futuro da língua portuguesa dependeria menos das fronteiras dos Estados do que da capacidade dos seus povos para cooperarem livremente. É precisamente essa visão que encontraremos neste seminário: uma comunidade científica que escolhe o diálogo em vez do isolamento, a partilha em vez da distância. Fernando Pessoa escreveu que “a minha pátria é a língua portuguesa”. Essa afirmação, tantas vezes citada, ganha nesse dia um significado particular. Na sessão de abertura do evento, Brasil e Portugal encontram-se não apenas pela história que partilham, mas pela responsabilidade comum de preservar, estudar e renovar uma das grandes línguas de cultura do mundo. A literatura ensina-nos que compreender o outro é também compreender-nos melhor. Miguel Torga dizia que “o universal é o local sem muros”. Talvez por isso a investigação literária tenha um papel tão relevante: quanto mais profundamente conhecemos as nossas tradições, mais preparados estamos para dialogar com o mundo. Também José Saramago nos recordou que “somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos”. Celebrar no próximo dia 1º de setembro o percurso do GELPA, do GENFIP e desse Curso de Extensão significa precisamente assumir a responsabilidade de dar continuidade a um legado construído com rigor científico, dedicação acadêmica e generosidade intelectual. O “Fórum Brasil/Portugal – São Carlos – SP” orgulha-se de caminhar ao lado de instituições que, como a UFSCar, fazem da cooperação científica e cultural um compromisso permanente. Acreditamos que o fortalecimento das relações entre Brasil e Portugal encontra na Universidade o seu espaço mais nobre, porque é nela que o conhecimento se transforma em entendimento, a investigação em cooperação e a cultura em aproximação entre povos. Que esse seminário e as comemorações que se celebram pertençam a um tempo de reflexão exigente, de debate fecundo e de novas parcerias. Que a partir dele surjam ideias capazes de ampliar os horizontes da investigação sobre a literatura portuguesa contemporânea e de reforçar os laços acadêmicos entre as instituições dos nossos países. Permitam-me concluir com uma ideia que atravessa a obra dos grandes escritores portugueses: nenhuma herança permanece viva se não for continuamente recriada, e é essa recriação que celebraremos no próximo dia 1º de setembro. Bem-Hajam!

(*) O autor é jornalista profissional/correspondente para a Europa pela GNS Press Association / EUCJ – European Chamber of Journalists/European News Agency). Presidente do “Fórum Brasil / Portugal – São Carlos (SP) – MTB 66181/SP.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Jornal Primeira Página sobre o assunto.

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