(*) Rui Sintra
Acompanhamento clínico realizado em São Carlos observou avanços no sono, comportamento, atenção, comunicação e interação social de crianças com Transtorno do Espectro Autista após protocolo que associa fotobiomodulação e ultrassom terapêutico
Uma tecnologia já utilizada em diferentes áreas da saúde pode abrir novas perspectivas para o cuidado complementar de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Um estudo desenvolvido em São Carlos acompanhou três crianças submetidas a um protocolo que associa fotobiomodulação (conhecida também como laserterapia de baixa intensidade) e ultrassom terapêutico. Ao final do acompanhamento, familiares relataram mudanças positivas em aspectos como sono, irritabilidade, atenção, comunicação, aprendizagem e interação social.
A pesquisa foi desenvolvida pela aluna Luciana Cristina Stenquerviche Calça, do curso de Pós-Graduação em Laser em Saúde do Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) da Santa Casa de São Carlos (SCMSC), sob orientação do Dr. Antonio Eduardo de Aquino Junior.
O trabalho teve caráter preliminar e envolveu apenas três participantes, e por isso seus resultados não permitem afirmar que a técnica seja eficaz para todas as pessoas com autismo. Ainda assim, a convergência de alguns relatos chamou a atenção dos pesquisadores, especialmente porque as mudanças descritas ocorreram em áreas que exercem grande influência sobre a rotina das crianças e de suas famílias.
Mais do que buscar uma nova forma isolada de tratamento, a proposta é investigar se tecnologias não invasivas podem futuramente ser incorporadas como ferramentas complementares ao acompanhamento multidisciplinar já realizado por crianças com TEA.
Autismo é um espectro de manifestações
O Transtorno do Espectro Autista é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada principalmente por alterações persistentes na comunicação e na interação social, acompanhadas, em diferentes graus, por padrões restritos ou repetitivos de comportamento, interesses e atividades.
A palavra “espectro” é fundamental para compreender a condição. Duas crianças com o mesmo diagnóstico podem apresentar necessidades bastante diferentes. Enquanto algumas desenvolvem linguagem funcional e conseguem realizar grande parte das atividades cotidianas com menor necessidade de suporte, outras podem apresentar comprometimentos importantes de comunicação, autonomia e adaptação social.
Essa diversidade também significa que não existe uma única manifestação clínica do autismo. Sono, ansiedade, irritabilidade, atenção, aprendizagem, processamento sensorial e regulação emocional podem estar comprometidos de maneiras e intensidades diferentes.
A ciência também tem demonstrado que o TEA não pode ser explicado por um único mecanismo biológico. O conhecimento atual aponta para uma condição multifatorial, na qual interagem fatores genéticos, epigenéticos, ambientais, metabólicos e imunológicos.
Pesquisas vêm investigando, por exemplo, alterações na organização e funcionamento das conexões neuronais, no equilíbrio entre mecanismos excitatórios e inibitórios do sistema nervoso, na função mitocondrial, no estresse oxidativo e em processos relacionados à neuroinflamação. É justamente essa complexidade que torna necessária uma abordagem terapêutica igualmente ampla.
Quando dormir melhor pode transformar o dia
Entre os problemas associados ao TEA, os distúrbios do sono merecem atenção especial. Para muitas famílias, fazer uma criança dormir e manter um sono adequado durante a noite representa um desafio diário. O impacto vai muito além do cansaço.
Uma criança que dorme mal pode acordar menos disposta, apresentar maior irritabilidade e ter mais dificuldade para manter atenção durante as atividades escolares e terapêuticas. O comprometimento do sono também pode interferir na memória, no aprendizado e na capacidade de regulação emocional. A consequência frequentemente alcança toda a família. Quando uma criança não dorme adequadamente, pais e cuidadores também podem ter o sono interrompido, aumentando o desgaste físico e emocional da rotina doméstica.
Por esse motivo, a melhora do sono foi um dos achados que mais despertaram interesse no acompanhamento realizado em São Carlos. Nos três casos descritos no trabalho, os familiares perceberam mudanças relacionadas ao padrão de sono após o protocolo.
Embora uma série de três casos não permita estabelecer uma relação definitiva de causa e efeito, a repetição dessa percepção nos participantes aponta uma questão relevante para futuras pesquisas.
A proposta: combinar luz e ultrassom
O protocolo estudado utiliza um equipamento, desenvolvido pelo IFSC/USP sob supervisão do docente e pesquisador, Prof. Vanderlei Bagnato, que permite a aplicação simultânea de laser de baixa intensidade e ultrassom terapêutico.
Diferentemente dos lasers empregados em procedimentos cirúrgicos, que podem produzir corte ou destruição de tecidos, a fotobiomodulação utiliza luz em parâmetros destinados a provocar respostas biológicas sem produzir esse tipo de dano.
As três crianças participaram de dez sessões, realizadas duas vezes por semana. Cada sessão teve duração total de aproximadamente 32 minutos, aplicados em modo sistêmico.
A proposta de utilização periférica é um dos aspectos particulares da abordagem investigada. Em vez de direcionar a aplicação diretamente para a cabeça, o protocolo busca explorar possíveis respostas sistêmicas associadas à estimulação por luz e ultrassom.
As avaliações foram realizadas a partir dos registros clínicos e de entrevistas com os familiares antes e após o tratamento. Os participantes permaneceram utilizando as terapias e medicamentos previamente indicados por seus profissionais de saúde.
Por que utilizar fotobiomodulação e ultrassom?
Um dos principais campos de investigação da fotobiomodulação está relacionado à mitocôndria, estrutura celular diretamente envolvida na produção de energia.
Um dos alvos estudados da luz vermelha e infravermelha é a citocromo c oxidase, enzima localizada na cadeia respiratória mitocondrial. A interação da luz com componentes celulares pode desencadear respostas associadas ao metabolismo energético, à sinalização celular e à modulação de processos oxidativos e inflamatórios.
No sistema nervoso, essas respostas despertam interesse porque neurônios são células com elevada demanda energética. Alterações no metabolismo mitocondrial e no equilíbrio oxidativo vêm sendo investigadas em diferentes condições neurológicas e neuropsiquiátricas.
Esses possíveis efeitos fornecem a base científica para estudar a tecnologia no contexto do TEA. No entanto, é importante distinguir mecanismo biologicamente plausível de eficácia clínica comprovada. Demonstrar alterações celulares em estudos experimentais não significa automaticamente que determinado protocolo produzirá benefício clínico em todas as crianças com autismo
A outra parte do protocolo é o ultrassom terapêutico, tecnologia já conhecida em diferentes áreas da fisioterapia e da reabilitação. O equipamento utilizado permite que a emissão luminosa e a ultrassônica ocorram simultaneamente, promovendo a sobreposição dos campos durante a aplicação. A hipótese discutida pelos pesquisadores é de que a combinação possa produzir respostas complementares. O ultrassom gera estímulos mecânicos nos tecidos, enquanto a fotobiomodulação está associada principalmente a interações fotoquímicas e fotobiológicas.
Três crianças, três histórias
Apesar de terem a mesma idade (os três participantes eram meninos de 10 anos), cada criança iniciou o acompanhamento apresentando dificuldades diferentes.
No primeiro caso, a família relatava problemas de interação social e comunicação, dificuldade para lidar com sentimentos e frustrações e sono agitado. A criança costumava dormir tarde e precisava acordar cedo para ir à escola, permanecendo sonolenta durante o dia. Depois das dez sessões, a mãe relatou que o filho passou a dormir mais cedo e melhor. Também percebeu a criança mais calma e brincalhona, com maior capacidade de se relacionar com colegas da escola. Segundo o relato familiar, houve ainda melhora na forma de lidar com emoções e frustrações, embora algumas dificuldades permanecessem.
O segundo caso apresentava um quadro diferente. Falta de atenção, irritabilidade e dentre outros pontos observados. No segundo participante, os avós eram responsáveis pela criança e relataram inicialmente irritabilidade intensa, sono agitado, dificuldade de atenção e concentração e problemas relacionados ao desempenho escolar. Segundo o relato da avó registrado no estudo, a criança apresentava dificuldade para manter o foco e realizava trocas de palavras no ambiente escolar. Também utilizava medicamentos para auxiliar no controle de sintomas e no sono.
Após o protocolo, a família descreveu melhora importante da atenção e da capacidade de estudar sem perder o foco, além de mudanças no sono e na irritabilidade. Um dado especialmente relevante foi a alteração da medicação durante o período de acompanhamento. De acordo com os registros do estudo, o médico responsável pela criança suspendeu o uso de metilfenidato e reduziu a dose de risperidona.
Esse ponto precisa ser interpretado com cuidado. A modificação da medicação foi uma decisão médica, e não uma conduta estabelecida pelo protocolo experimental. O estudo também não permite concluir que a fotobiomodulação ou o ultrassom possam substituir medicamentos ou que crianças submetidas ao procedimento devam reduzir tratamentos farmacológicos. A observação, porém, constitui um dado clínico que merece ser investigado em estudos futuros, especialmente por meio de protocolos que registrem de forma sistemática o uso de medicamentos antes, durante e depois da intervenção.
O terceiro caso também apresentou um conjunto de observações interessantes. Antes do tratamento, a mãe relatava dificuldades importantes de aprendizagem, atenção e concentração. A criança apresentava pouca tolerância para permanecer sentada estudando e dificuldades na fala, apesar de já realizar acompanhamento fonoaudiológico. Durante o período do protocolo, a criança estava em época de avaliações escolares. Após as sessões, a mãe percebeu maior disposição para estudar e revisar os conteúdos antes das provas. Também relatou melhora de atenção e interesse por atividades que anteriormente despertavam pouca participação. Segundo o registro apresentado no trabalho, a evolução percebida não ficou restrita ao ambiente familiar. A professora também identificou mudanças no desempenho e passou a avaliar a possibilidade de adaptar o conteúdo pedagógico ao novo momento de aprendizagem da criança.
A família relatou ainda evolução na comunicação, no sono e no aproveitamento de outras terapias já realizadas, incluindo fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicologia. Novamente, esses relatos não demonstram isoladamente que as mudanças foram provocadas pelo protocolo. Crianças com TEA continuam se desenvolvendo e, neste estudo, permaneceram recebendo outras intervenções simultaneamente. Ainda assim, o conjunto de observações fornece elementos para a formulação de hipóteses que podem agora ser testadas de maneira mais rigorosa.
Um padrão chamou a atenção dos pesquisadores
Quando os três casos são observados em conjunto, alguns aspectos aparecem repetidamente. A melhora do sono foi relatada nos participantes. Também foram observadas mudanças relacionadas à irritabilidade e à regulação emocional, além de sinais de evolução na atenção, interação social, comunicação e desempenho em atividades cotidianas ou escolares.
A presença de tendências semelhantes em crianças que apresentavam perfis clínicos distintos foi considerada relevante pelos pesquisadores. Mas o tamanho da amostra exige cautela.
Com apenas três participantes, qualquer conclusão deve permanecer no campo exploratório. O valor principal desse tipo de estudo está em identificar sinais clínicos que justifiquem uma investigação posterior mais estruturada.
Terapia complementar, e não substituição do tratamento convencional
Um dos pontos mais importantes destacados pelos pesquisadores é que a proposta não pretende substituir os tratamentos já utilizados no acompanhamento do autismo.
Crianças com TEA podem necessitar de diferentes combinações de acompanhamento médico, psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, intervenções educacionais e comportamentais, fisioterapia e, em determinadas situações, medicamentos.
A fotobiomodulação associada ao ultrassom está sendo investigada como uma possível ferramenta complementar. Essa distinção é essencial porque o TEA é uma condição complexa e heterogênea. Não existe um tratamento único capaz de responder a todas as necessidades de todos os indivíduos. Uma tecnologia complementar será realmente relevante se conseguir melhorar aspectos específicos da vida da criança sem interromper estratégias que já apresentam benefícios.
Nesse sentido, mudanças no sono, atenção ou regulação emocional poderiam ter repercussões indiretas importantes. Uma criança que dorme melhor, por exemplo, pode chegar mais descansada à escola ou à sessão de fonoaudiologia. Se consegue permanecer mais atenta, pode aproveitar melhor uma intervenção educacional. Se apresenta menor irritabilidade, pode encontrar mais oportunidades de interação com familiares e colegas.
Resultados promissores, mas ainda preliminares
Os próprios pesquisadores ressaltam as limitações do trabalho. A primeira é o número de participantes: apenas três crianças.
A segunda é a ausência de um grupo controle. Sem comparar os participantes tratados com crianças que não receberam o protocolo (ou que receberam uma intervenção placebo) não é possível determinar com segurança quanto das mudanças ocorreu em função do tratamento.
Outro aspecto importante é a forma de avaliação. Grande parte dos resultados foi obtida por entrevistas com familiares e observações registradas em prontuários, sem aplicação sistemática, neste estudo, de instrumentos quantitativos padronizados para medir comportamento, cognição, sono e qualidade de vida.
Também existiam tratamentos concomitantes. As crianças continuaram recebendo cuidados convencionais, e isso significa que os efeitos de diferentes intervenções podem ter ocorrido simultaneamente. Essas limitações não anulam as observações realizadas. Elas definem, porém, até onde é possível interpretar os resultados.
O estudo não demonstra que laser e ultrassom tratam o autismo. O que ele mostra é que, nesses três casos acompanhados, houve mudanças clínicas percebidas durante o período em que as crianças foram submetidas ao protocolo, justificando a realização de investigações mais amplas e controladas.
O próximo passo é transformar observações em evidências
Para avançar, os pesquisadores apontam a necessidade de ensaios clínicos com maior número de participantes, grupos de comparação e distribuição randomizada dos voluntários.
Outra etapa será incorporar instrumentos padronizados capazes de transformar percepções clínicas em dados quantitativos. Questionários específicos para qualidade do sono, escalas de comportamento adaptativo, avaliações de ansiedade, testes cognitivos e instrumentos relacionados às características do TEA podem permitir uma comparação mais objetiva entre o período anterior e posterior à intervenção.
Há também interesse em integrar avaliações biológicas. Marcadores relacionados à inflamação, estresse oxidativo e metabolismo energético poderiam ajudar a responder não apenas se determinada mudança clínica acontece, mas também como ela acontece.
Esse ponto é especialmente importante para uma área como a fotobiomodulação. Ao aproximar resultados clínicos de biomarcadores, os pesquisadores podem investigar se mudanças comportamentais e funcionais são acompanhadas por alterações fisiológicas mensuráveis.
Pesquisa continua em São Carlos
Os resultados obtidos abriram caminho para a continuidade da linha de investigação. O Dr. Antonio Eduardo de Aquino Junior, coordenador da Pós-Graduação em Laser em Saúde e pesquisador do IFSC/USP, segue orientando novas pesquisas relacionadas ao contexto do estudo original, sob supervisão do Prof. Vanderlei Salvador Bagnato.
A proposta é avançar progressivamente de observações clínicas iniciais para desenhos experimentais capazes de produzir evidências mais robustas. O interesse não está apenas em verificar se os resultados se repetem em um número maior de participantes, mas em compreender quais crianças eventualmente respondem melhor, quais funções apresentam maior possibilidade de mudança e quais mecanismos biológicos podem estar envolvidos.
Para as famílias, pesquisas dessa natureza representam a possibilidade de ampliar o conjunto de ferramentas disponíveis para melhorar a qualidade de vida. Para a ciência, representam um desafio ainda maior: transformar resultados clínicos promissores em evidências reproduzíveis, mensuráveis e capazes de resistir ao rigor dos estudos controlados.
Por enquanto, os três casos acompanhados em São Carlos não oferecem uma resposta definitiva. Eles oferecem algo que costuma anteceder grandes investigações científicas: uma observação clínica que gera novas perguntas. Esperamos agora que o trabalho de doutorado da aluna Vanessa Garcia possa obter as respostas necessárias e avaliar os possíveis benefícios desse modelo de intervenção associativo.
Informações sobre a linha de pesquisa: [email protected]
LEGENDA – A aluna da Especialização em Laser e Saúde – Luciana Cristina Stenquerviche Calça
Legenda – Dr. Antonio Eduardo de Aquino Junior – Coordenador da Pós-Graduação em Laser e Saúde e pesquisador IFSC -USP.
Link do estudo publicado em livro: https://www2.ifsc.usp.br/portal-ifsc/download-de-livros-ifsc/








