No Divã

Quando amar deixa de ser suficiente: por que é tão difícil sair de uma relação que nos faz mal?

(*) Bianca Gianlorenço

“Eu sei que essa relação me faz mal, mas não consigo ir embora.”

Essa é uma frase muito mais comum do que imaginamos.

Nas redes sociais, encontramos diariamente conselhos sobre relacionamentos, autoestima e amor-próprio. Muitas vezes, a orientação parece simples: “Se não te faz bem, vá embora.”

Mas, na vida real, nem sempre é tão simples assim.

Existem relações que, mesmo causando sofrimento, tornam-se  emocionalmente difíceis de abandonar. A pessoa pode reconhecer que está infeliz, perceber comportamentos que a machucam e, ainda assim, sentir medo, culpa ou esperança de que tudo volte a ser como antes.

É nesse ponto que precisamos olhar para além da pergunta: “Por que você ainda está nessa relação?”

Talvez uma pergunta mais importante seja:

“O que faz você acreditar que precisa permanecer nela?”

A dependência emocional pode envolver uma necessidade intensa de aprovação, medo de abandono, dificuldade de ficar sozinho e uma sensação de que a própria felicidade depende da presença do outro.

Em alguns casos, a pessoa começa a abrir mão de opiniões, amizades, interesses e até de partes importantes de quem é para preservar o relacionamento.

Pouco a pouco, deixa de perguntar:

“O que eu quero?”

E passa a perguntar:

“O que preciso fazer para que o outro não vá embora?”

Quando isso acontece, o relacionamento pode deixar de ser um espaço de troca e passar a ser um espaço de constante tentativa de evitar a perda.

Outro aspecto importante é que nem toda relação difícil é abusiva, e nem toda dificuldade de terminar significa dependência emocional. Cada história precisa ser compreendida dentro de seu contexto.

Por isso, os rótulos rápidos das redes sociais nem sempre ajudam.

A Psicologia não existe para simplesmente dizer “termine” ou “fique”. Existe para ajudar a pessoa a compreender o que está vivendo, reconhecer seus sentimentos, perceber seus padrões e construir escolhas mais conscientes.

Às vezes, o maior desafio não é deixar alguém.

É reencontrar a si mesmo depois de tanto tempo tentando ser suficiente para o outro.

E talvez amor-próprio não seja aprender a nunca precisar de ninguém.

Talvez seja aprender que estar com alguém deve ser uma escolha e não uma condição para conseguir existir, sentir-se valorizado ou acreditar que merece amor.

Relacionamentos podem transformar nossa vida de maneiras muito bonitas. Mas nenhum relacionamento deveria exigir que abandonássemos completamente quem somos para conseguir permanecer nele.

Se você se reconheceu neste texto, talvez não precise tomar uma decisão hoje.

Talvez o primeiro passo seja simplesmente começar a se perguntar:

“Como eu estou dentro dessa relação?”

“Quem eu me tornei para conseguir permanecer?”

“O que eu tenho deixado de lado para não perder o outro?”

Às vezes, uma pergunta sincera é o começo de uma mudança.

E mudanças exigem um processo de autoconhecimento, algo que a psicoterapia também proporciona!

(*) A autora é Psicóloga, inscrita no CRP/ SP sob o n° 06/113629 atuante desde 2013. Especialista em Psicologia Clínica com título concedido pelo Conselho Federal de Psicologia. Especialista em Psicologia Clínica Psicanalítica. Especialista em Psicoterapia infantil. Psicanalista. São-carlense e fundadora da Clínica Gianlorenço – Saúde Mental e Física. Contato profissional: WhatsApp 16 997375436

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Jornal Primeira Página sobre o assunto.

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