Fórum Brasil/Portugal – São Carlos

Os 25 anos sobre o 11 de setembro

(*) Rui Sintra

Há datas que pertencem aos livros de História. Outras, porém, pertencem também à nossa memória. O 11 de setembro de 2001 é uma delas. Passaram-se 25 anos, mas ainda me recordo daquele dia e, sobretudo, da sensação de incredulidade diante das imagens que chegavam dos Estados Unidos. O mundo assistia, praticamente em direto, a algo que parecia impossível. Um avião atingia uma das torres do World Trade Center, em Nova York. Pouco depois, um segundo avião chocava-se contra a outra torre. Já não havia dúvida de que estávamos perante um ataque deliberado. Depois vieram as notícias do Pentágono e do quarto avião, que caiu na Pensilvânia. E vieram as imagens que jamais desapareceriam da memória coletiva: o fogo, a fumaça, o desespero nas ruas, as pessoas correndo, os bombeiros entrando nos edifícios enquanto milhares tentavam sair. Por fim, o colapso das Torres Gêmeas. Lembro-me de acompanhar tudo na minha mesa de trabalho no jornal onde trabalhava, com uma sensação difícil de traduzir em palavras. Era espanto, tristeza, medo e, ao mesmo tempo, a consciência de que alguma coisa muito profunda estava mudando diante dos nossos olhos. Quase três mil pessoas morreram naquele 11 de setembro. Por trás desse número estavam, independentemente de suas nacionalidades, homens e mulheres que haviam saído de casa para mais um dia de trabalho, passageiros que embarcaram em aviões imaginando chegar normalmente aos seus destinos, profissionais que cumpriam suas rotinas e bombeiros, policiais e socorristas que correram em direção ao perigo quando o instinto de qualquer pessoa seria fugir dele. É talvez esse aspecto humano que mais me impressiona quando recordo a tragédia. Com o passar dos anos, acontecimentos históricos tendem a transformar-se em números, datas, análises políticas e documentários. Mas aquelas pessoas tinham famílias, projetos, sonhos, compromissos para o dia seguinte. Muitas despediram-se de seus familiares pela manhã sem imaginar que aquela seria a última vez. O 11 de setembro mudou também a maneira como passamos a olhar para o mundo. Mudaram os aeroportos, os procedimentos de segurança, as relações internacionais e a própria percepção que tínhamos sobre o terrorismo e sobre a vulnerabilidade das sociedades modernas. Vieram guerras, conflitos, decisões políticas controversas e consequências que atravessariam décadas. Vinte e cinco anos depois, penso que recordar aquela tragédia exige também maturidade para compreender tudo o que veio depois dela. A dor das vítimas dos atentados não deve ser esquecida, assim como não devemos ignorar o sofrimento de tantas outras populações atingidas pelos conflitos desencadeados no mundo após 2001. A História raramente termina no instante em que as câmeras deixam de transmitir. Mas, existe uma imagem daquele dia que continua particularmente poderosa para mim: enquanto milhares de pessoas desciam as escadas das Torres Gêmeas tentando salvar a própria vida, bombeiros e outros socorristas subiam. Muitos sabiam que poderiam não regressar. Ainda assim, continuaram. Talvez esteja aí uma das maiores lições daquele 11 de setembro. Diante da capacidade humana de destruir, surgiu também a extraordinária capacidade humana de ajudar, proteger e arriscar a própria vida por alguém que sequer se conhece. Um quarto de século passou. Para as novas gerações, o 11 de setembro já é História. Para quem acompanhou aqueles acontecimentos, entretanto, permanece também como lembrança. Eu ainda consigo recordar aquelas imagens. As torres em chamas. A fumaça cobrindo Manhattan. O silêncio perplexo de quem assistia pela televisão. Os rostos cobertos de poeira. Os bombeiros caminhando para o interior dos edifícios. E lembro-me, sobretudo, daquela sensação de que o mundo que conhecíamos pela manhã já não era exatamente o mesmo ao final daquele dia. No 11 de setembro de 2026, quando se completam 25 anos da tragédia, mais importante do que recordar a destruição será recordar as pessoas. As que partiram para trabalhar e nunca regressaram. As que estavam dentro daqueles aviões. As que telefonaram pela última vez para alguém que amavam. As que entraram nas torres para salvar desconhecidos. E todas as famílias para as quais o 11 de setembro de 2001 nunca terminou verdadeiramente. Porque há acontecimentos que mudam a História. E há dias que, mesmo depois de 25 anos, continuam dentro de nós.

(*) O autor é jornalista profissional/correspondente para a Europa pela GNS Press Association / EUCJ – European Chamber of Journalists/European News Agency). Presidente do “Fórum Brasil / Portugal – São Carlos (SP) – MTB 66181/SP.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Jornal Primeira Página sobre o assunto.

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