Experiência interativa

Exposição em São Carlos transforma os 100 anos da Mecânica Quântica

Rui Sintra/ IFSC/USP

Realidade virtual, holografias, jogos e recursos audiovisuais aproximam o público de uma das áreas mais complexas da ciência; mostra permanece na Biblioteca do Campus 2 da USP, em São Carlos, até 10 de outubro

Compreender a Mecânica Quântica pode parecer, à primeira vista, um desafio reservado aos cientistas. Mas uma exposição inaugurada pelo Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) pretende justamente romper essa barreira e mostrar que conceitos responsáveis por transformar nossa compreensão da natureza — e por sustentar inúmeras tecnologias utilizadas atualmente — também podem despertar curiosidade, encantamento e interesse em públicos de todas as idades.

A “Expo Quantum Universe: uma imersão interativa nos 100 anos da Mecânica Quântica” foi inaugurada no dia 18 de setembro, na Biblioteca do Campus 2 da USP, em São Carlos. Com mais de 100 metros quadrados, a mostra combina ciência, tecnologia e arte para celebrar o centenário de uma das maiores revoluções científicas da história.

Desenvolvida pelo “Estúdio de Mídia, Cultura e Ciência – E=mc²”, do IFSC/USP, sob coordenação do Prof. Dr. Guilherme Matos Sipahi, a exposição utiliza realidade virtual, holografias, painéis digitais, jogos e experiências audiovisuais para apresentar ao visitante princípios da Física Quântica de maneira acessível e interativa.

Mais do que apresentar conceitos científicos, a proposta é despertar a curiosidade.

Na cerimônia de abertura, Sipahi destacou que a complexidade da Mecânica Quântica não deve impedir que o conhecimento chegue à população. Para o docente, uma das funções da divulgação científica é justamente criar condições para que as pessoas tenham um primeiro contato com temas considerados difíceis e, a partir daí, desenvolvam interesse pela ciência.

“A função desta exposição é trazer as pessoas para pensarem um pouco de Mecânica Quântica, para aprenderem o básico […] para depois se interessarem. Ela é voltada para todo mundo”, ressaltou o coordenador.

A iniciativa contou com apoio de instituições de fomento e da própria Universidade, incluindo a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a USP. Sipahi ressaltou durante a abertura a importância desse apoio, especialmente por se tratar de um projeto voltado à exposição e à divulgação científica.

Uma revolução que continua

Ao celebrar os cem anos da Mecânica Quântica, a exposição também propõe uma reflexão sobre o futuro.

O vice-diretor do IFSC/USP, Prof. Dr. Luís Gustavo Marcassa, lembrou que grande parte do mundo tecnológico contemporâneo nasceu dos conhecimentos desenvolvidos a partir da primeira revolução quântica. Agora, segundo ele, a humanidade atravessa uma nova etapa. “O mundo que a gente vive hoje é o mundo que nasceu graças à primeira revolução da Mecânica Quântica, há 100 anos. Hoje, a gente vive a segunda revolução da Mecânica Quântica”, afirmou.

Essa nova fase está relacionada ao desenvolvimento de tecnologias que exploram de maneira cada vez mais sofisticada fenômenos quânticos. Para Marcassa, participar dessa transformação exige que o País desenvolva conhecimento e tecnologia próprios — e isso passa não apenas pela pesquisa, mas também pela formação de pessoas e pela divulgação científica. “Se nós queremos fazer parte dessa segunda revolução da Mecânica Quântica, nós temos que desenvolver nossa própria tecnologia. E a tecnologia passa através de fazer a divulgação, formar pessoal e assim por diante”, destacou.

A exposição ganha, dessa maneira, uma dimensão que ultrapassa a comemoração histórica. Ao apresentar a ciência ao público, especialmente às novas gerações, a iniciativa também procura estimular futuros estudantes e pesquisadores que poderão participar do desenvolvimento das tecnologias quânticas nas próximas décadas.

Ciência em outra linguagem

Presente à inauguração, o Pró-Reitor Adjunto de Cultura e Extensão Universitária da USP, Prof. Dr. Iran José Oliveira da Silva, chamou a atenção para outro aspecto da iniciativa: a capacidade de traduzir a linguagem científica para formatos mais próximos da população.

Segundo ele, abrir as portas da Universidade significa também encontrar novas formas de apresentar o conhecimento produzido dentro dela. Em áreas consideradas complexas, como a Física Quântica, recursos lúdicos e interativos podem funcionar como uma ponte entre pesquisadores e sociedade.

A possibilidade de uma criança entrar em contato com conceitos quânticos por meio de jogos, imagens, realidade virtual e outras experiências pode produzir, segundo o professor, um sentimento de encantamento capaz de despertar interesses que dificilmente surgiriam no cotidiano.

Para o pró-reitor adjunto, a exposição representa um ponto de encontro entre Universidade, sociedade e juventude. Ele também destacou o pioneirismo de Guilherme Sipahi na concepção de uma mostra de grande porte que, ao mesmo tempo, é móvel, flexível e adaptável a diferentes espaços.

Essa característica será fundamental para a próxima etapa do projeto.

De São Carlos para outros públicos

A “Expo Quantum Universe” foi concebida como uma exposição itinerante. Depois de sua apresentação em São Carlos, a expectativa é que possa percorrer outros campi da Universidade de São Paulo e instituições parceiras, levando a experiência a públicos diferentes.

A mobilidade amplia o alcance de uma iniciativa que tem como princípio transformar conhecimento científico especializado em uma experiência compreensível sem retirar dele sua capacidade de provocar perguntas.

Holografias, painéis digitais, realidade virtual e recursos audiovisuais deixam, nesse contexto, de ser apenas elementos tecnológicos da exposição. Tornam-se ferramentas de comunicação científica.

A proposta também evidencia uma transformação na maneira como a Universidade se relaciona com a sociedade. Além da produção de pesquisas e da formação de pesquisadores, ganha espaço a preocupação em fazer com que o conhecimento ultrapasse laboratórios, salas de aula e publicações acadêmicas.

É nesse ponto que a celebração dos cem anos da Mecânica Quântica encontra uma perspectiva de futuro.

Uma teoria que, no início do século passado, alterou profundamente a maneira como os cientistas compreendiam a matéria, a energia e o funcionamento da natureza está na origem de tecnologias que hoje fazem parte da vida cotidiana. Um século depois, novos avanços colocam novamente a Física Quântica no centro de uma transformação científica e tecnológica.

Ao permitir que crianças, jovens e adultos tenham contato com esse universo de forma interativa, a exposição do IFSC/USP procura mostrar que a ciência não precisa permanecer distante do público.

Mais do que explicar o que aconteceu nos últimos cem anos, a “Expo Quantum Universe” lança uma pergunta para as próximas gerações: até onde a nova revolução quântica poderá nos levar?

A exposição permanece aberta ao público até 10 de outubro, na Biblioteca do Campus 2 da USP, em São Carlos.

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