Desde 1955, são 71 anos sem faltar a uma eleição. Em manhã ensolarada, Dorival foi às urnas em São Carlos e mostrou que o compromisso com a democracia não envelhece
O sol que marcou a manhã deste domingo, 4, foi a luminosidade que impulsionou um compromisso que acompanha Dorival Escrivani há 71 anos. Aos 90 anos, ele compareceu à sua seção eleitoral, em São Carlos, e mais uma vez exerceu o direito ao voto, reafirmando uma história de respeito à democracia e à cidadania.
Acompanhado pelo filho Marcos, Dorival votou na 123ª seção da Escola Estadual João Jorge Marmorato, no Conjunto Residencial Castelo Branco.
Nascido em 14 de maio de 1936, ele votou pela primeira vez aos 19 anos, em 1955, quando São Carlos vivia o processo eleitoral que reconduziu o professor Luís Augusto de Oliveira, o conhecido Luisão (hoje nome dado ao estádio municipal), à Prefeitura Municipal.
Naquela época, sua seção eleitoral, a número 9, funcionava no Instituto de Educação Dr. Álvaro Guião, na Avenida São Carlos, hoje Escola Estadual Dr. Álvaro Guião.
De lá para cá, muita coisa mudou. O voto, que antes era depositado em cédulas de papel, passou a ser registrado nas urnas eletrônicas. Presidentes, governadores, prefeitos, deputados e vereadores se sucederam. Mas uma coisa permaneceu inalterada na vida de Dorival: sua presença nas eleições.
Ele conta que já votou em nomes como Eurico Gaspar Dutra, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, acompanhando diferentes momentos da história política brasileira.
Para ele, votar é muito mais do que cumprir uma obrigação legal. É uma responsabilidade que carrega com a mesma seriedade desde a juventude.
“Como se fosse a primeira vez”
Em entrevista ao Jornal Primeira Página, Dorival falou sobre a emoção de votar aos 90 anos, a importância da participação popular e o desejo de ver um Brasil melhor para as próximas gerações.
“O senhor tinha 19 anos quando votou pela primeira vez. O sentimento é o mesmo em 2026?”
Dorival: Meu primeiro voto, como acontece em tudo que fazemos pela primeira vez na vida, trouxe certo nervosismo. Entrar em uma cabine eleitoral pela primeira vez foi uma experiência marcante. Cumpri minha missão e fiquei feliz. Não sei quantas vezes ainda vou votar, mas hoje, 4 de outubro, com muita confiança e ansiedade, quero deixar meu dever cumprido. É como se fosse a primeira vez. O sentimento é o mesmo.
Desde que começou a votar, o senhor nunca faltou a uma eleição. Por quê?
Dorival: Não falhei em uma votação. Primeiro, porque todos devem participar desse momento tão delicado da nossa vida, que é escolher nossos governantes. Além disso, o voto é obrigatório e devemos cumprir essa responsabilidade para evitar as penalidades previstas.
Qual é o significado do voto para o senhor?
Dorival: Tenho plena convicção de que votar é preciso e isso nos dá uma grande responsabilidade. É necessário saber escolher os melhores candidatos e torcer para que exerçam bons mandatos.
Aos 90 anos, depois de 71 anos participando das eleições, qual é o sentimento?
Dorival: Não contei e não sei de quantas eleições participei. Sinto um prazer enorme em ainda poder votar. Faz parte da nossa vida.
Que exemplo de cidadania gostaria de deixar como legado?
Dorival: Na minha opinião, todo cidadão e toda cidadã deveriam ser mais apegados à política. Meu objetivo é lutar pelo bem-estar do povo, principalmente da nossa família, para que todos tenham uma vida mais saudável e feliz. Gostaria que todos conquistassem moradias, bons tratamentos de saúde, escolas de todos os níveis e também segurança para viver tranquilamente.
Um olhar crítico sobre a política brasileira
Apesar de sua fidelidade ao processo democrático, Dorival não esconde a insatisfação com os rumos da política nacional.
Como o senhor define a política brasileira atualmente?
Dorival: A política brasileira deixa muito a desejar. Usam mal o dinheiro público e vivemos uma eterna desunião. Governantes, senadores e deputados não se entendem nunca. Um partido quer derrubar o outro do poder. Os preços sobem, a inflação complica a vida do trabalhador e dos mais necessitados, que a cada ano perdem poder aquisitivo.
Como se sente tendo saúde e podendo deixar esse exemplo de cidadania?
Dorival: Graças a Deus, cheguei a essa idade com boa saúde e me sinto disposto a cumprir mais essa etapa da vida. Espero que todos os familiares, amigos e a população em geral também possam fazer o mesmo, com alegria. Espero que façam boas escolhas dos novos governantes. Caso tenha segundo turno, estarei presente.
Uma lição que atravessa gerações
Em tempos de descrença na política, divergências e questionamentos sobre a atuação dos representantes públicos, a história de Dorival Escrivani oferece uma reflexão importante: a democracia também se fortalece pela participação de cada cidadão.
Aos 90 anos, ele não sabe quantas eleições ainda terá pela frente. Mas sabe exatamente o que o leva às urnas: a convicção de que escolher os representantes é uma responsabilidade que não deve ser abandonada.
São 71 anos de uma história construída sem uma única ausência eleitoral.
Uma trajetória que merece ser reverenciada e que deixa uma mensagem simples, mas poderosa: a idade pode avançar, os tempos podem mudar, mas o compromisso com a cidadania permanece.








