ARTIGO

Bolsa Família é vara e não peixe

Carlos Ferreira Martins*

Uma das pseudo-críticas mais recorrentes aos programas sociais dos governos petistas seria o seu caráter inócuo ou, pior, acomodatício.

No caso do Bolsa Família, essa ideia preconceituosa pretende fazer crer que aquelas famílias que recebem a um benefício cujo valor médio em 2025 é de R$ 660,00 prefeririam ficar “mamando nas tetas do Estado” a procurar emprego.

Vamos deixar de lado, por agora que as pessoas que inventaram essa “ideia” normalmente se penduram, legal ou ilegalmente nas tetas do Estado, por isenções, subsídios ou diretamente maracutaias.

No fundo elas tem o mesmo valor moral de ex-presidentes do Banco Central que, vira e mexe, reaparecem das férias em algum paraíso fiscal no Caribe para dizer que “o Brasil não suporta pagar um salário-mínimo”. Que, por sinal, está entre os menores da América Latina.

Mas é importante falar com aquelas pessoas que, sendo apenas membros da classe média remediada, tendem a acreditar nessa balela por quaisquer razões, inclusive pelo atávico preconceito contra os pobres e trabalhadores que é uma herança não resolvida de nosso passado escravocrata.

Pessoas que, de boa-fé, pensam ou dizem: eu trabalhei dura para ter o pouco ou muito que tenho. Ou então: quem quer trabalhar pode. Tudo isso para manter o julgamento que vem lá de cima, do pessoal da cobertura, que quer as tetas do Estado só para si. Apoio do Estado para os pobres, dizem eles, acomoda ou vicia.

Pois bem! A Fundação Getúlio Vargas (RJ), que ninguém em são juízo consideraria de esquerda, apresentou, uma quinzena atrás, um estudo chamado “Filhos do Bolsa Família: Uma análise da última década do programa”.

Interessados em verificar os detalhes podem consultar a apresentação do estudo em https://portal.fgv.br/noticias/estudo-da-fgv-sobre-o-bolsa-familia-revela-quebra-de-ciclo-da-pobreza-intergeracional

Mas adianto por aqui algumas das principais informações e conclusões:

Mais de 60% dos beneficiários de 2014 deixaram o programa até 2025. Dentre estes, a saída mais elevada foi a dos que eram adolescentes em 2014, numa proporção de quase 69% na faixa de 11 a 14 anos e 71% na de 15-17 anos.

Ou seja, ao contrário daquele preconceito tantas vezes repetido, o relatório indica “saída expressiva do CadÚnico e aumento da inserção no mercado de trabalho.”

E apresenta ainda outros elementos que permitem aperfeiçoar o programa e ao, mesmo tempo, mostram que ele sozinho não resolve a desigualdade.

Assim a saída do programa é mais favorecida quando o beneficiários consegue a carteira assinada (taxa de 79%) e entre filhos de pais com maior escolaridade.

As taxas de saída também são maiores para os homens que para as mulheres; maiores para os brancos que para os pretos ou pardos; maiores no sul e no sudeste que no norte ou no nordeste.

Ou seja, as desigualdades estruturais não são resolvidas por milagre.

Elas precisam estar acompanhadas de ações estruturais como criação de empregos mais descentralizada, investimentos em educação, combate permanente ao preconceito racial e de gênero. Isto é, investimento – e não gasto – no social.

Mas desde já, já verificamos, como indicou no evento, o ministro Welington Dias, na mesa de discussão com o diretor do FGV Social, Marcelo Nery, “… a quebra do ciclo intergeracional da pobreza. O Bolsa Família não acomoda; ele dá a oportunidade para que os filhos superem a condição de seus pais e conquistem autonomia”

Em linguagem simples e direta, o Bolsa-Família não resolve sozinho a obscena desigualdade social brasileira, mas permite aquilo que é cada vez mais raro no mundo contemporâneo: que as novas gerações tenham a possibilidade de uma vida melhor que seus pais.

Ser contra isso ou é ignorância, desculpável, ou preconceito, que precisa ser vencido ou, no caso dos influencers mediáticos, pura má-fé.

 

 

*Professor Titular Sênior do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP São Carlos.

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