Às vésperas do Natal, repetiu-se um roteiro conhecido no Brasil: enquanto milhões de famílias aguardavam presentes comprados com esforço e economia, os trabalhadores dos Correios paralisaram parte das atividades. A greve, iniciada em 16 de dezembro de 2025, provocou atrasos expressivos justamente no período de maior demanda do ano. O impacto recaiu, mais uma vez, sobre a população comum, que depende do serviço para presentear familiares.
O resultado foi visível em todo o país. Crianças ficaram sem brinquedos no dia 25, idosos aguardaram remédios enviados por parentes distantes e pequenos empreendedores do comércio eletrônico viram suas vendas de Natal comprometidas. Embora os Correios afirmem que a maior parte do efetivo permaneceu em atividade, consumidores relataram atrasos prolongados, encomendas acumuladas e frustração generalizada. Para milhares de famílias, a paralisação afetou diretamente o espírito natalino.
As reivindicações sindicais são recorrentes: reajuste salarial, melhores condições de trabalho e preservação de benefícios. Direitos são legítimos, mas os dados ajudam a contextualizar o debate. A remuneração média de carteiros e agentes dos Correios varia entre R$ 4.000 e R$ 5.000 mensais, acima do salário médio do setor privado no país. Não se trata, portanto, de uma categoria em situação de extrema precariedade.
Nesse contexto, a escolha do Natal para a paralisação levanta questionamentos. A divisão interna da categoria — com parte aceitando proposta mediada pelo TST e outra rejeitando — indica que nem todos concordam com a radicalização. Ainda assim, a greve foi mantida no momento de maior impacto social, estratégia clássica de pressão, especialmente em um cenário pré-eleitoral.
Os Correios prestam serviço essencial. Mesmo com a determinação de manutenção de efetivo mínimo, os atrasos persistiram. Soma-se a isso a fragilidade financeira da estatal, que acumula prejuízos bilionários e depende de aportes públicos. Ao final, a conta recai sobre o contribuinte.
Defender direitos não pode significar penalizar a sociedade. Paralisar entregas no período mais simbólico do ano não se configura como justiça social, mas como imposição de sacrifícios à população mais vulnerável para atender interesses corporativos.
Por fim, os danos só não foram maiores graças às alternativas da iniciativa privada, como Mercado Livre, Shopee e AliExpress, que seguem operando mesmo diante da elevada carga tributária. Diante desse cenário, cresce a discussão: não seria o momento de debater, de forma definitiva, o futuro — e até a privatização — dos Correios? A reflexão fica com o leitor.
