Artigo

O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas

Carlos A. Ferreira Martins*

Há 40 anos, Joel Schumaker escreveu e dirigiu um filme com o título acima, narrando, em tom de comedia agridoce, o encontro entre sete amigos recém-formados que enfrentam os dilemas e inseguranças da nova fase da vida.

Desde a virada do ano não pude deixar de pensar nesse título e no quanto ele se aplica a este ano em que todos nós, e não apenas os recém-formados, no Brasil e no resto do planeta, corremos o risco de ter definido, ao menos em grande medida, o resto de nossas vidas. E não falamos de futuro longínquo, mas de eventos em outubro e novembro que podem transformar o mundo em que vivemos.

Para começar pelo mais perto, qualquer dúvida sobre o que significará a eleição de outubro, é facilmente afastada se pensarmos, a partir da experiência passada, o que poderia vir a significar um eventual retorno ao poder do bolsonarismo.

Para os que sonham com essa possibilidade está faltando decidir se seria na versão raiz de Flavio Bolsonaro, com seu extraordinário currículo de empresário ultra competente, capaz de extrair de uma simples loja de chocolates, rendimentos suficientes para comprar mansões e colaborar com a aquisição de carteira imobiliária de mais de cinquenta imóveis em dinheiro vivo. Segundo algumas línguas, boas ou más, dependendo do ponto de vista, o talento chocolático teria sido ajudado por uma forma peculiar de cooperativa chamada, na intimidade, de rachadinha.

Mas é matéria corrente nos jornalões e jornalinhos que uma vasta plêiade de pessoas importantes, normalmente escondidas atrás de apelidos como “mercado”, “Faria Lima”, “Centrão”, “autoridades”, etc., prefeririam o atual governador de São Paulo, que para muitos (ou pelo menos uns poucos com muito poder) representaria um “bolsonarismo moderado”, entidade que no mundo da lógica é uma contradição nos termos e na natureza uma espécie de ornitorrinco. Aquele bicho com bico de pato, que é mamífero, mas bota ovo e, além de estranho, é muito venenoso.

Para os que, como eu, não gostam de nenhuma dessas alternativas, a ideia de um retorno aos anos de bolsonarismo sugere que o pouco do Estado brasileiro que resistiu à passagem de tantas boiadas não aguentaria esse estresse.

Em um ou outro caso, é certo que os golpistas de 8 de janeiro seriam anistiados, o STF, com todas as suas contradições, seria anulado; a Polícia Federal seria novamente enquadrada e, sobretudo, se construiriam as condições para garantir que nunca mais o consorcio entre crime organizado, mercado financeiro e parcelas ponderáveis do aparelho de Estado seria investigado e muito menos punido. A ideia de um Brasil soberano seria definitivamente substituída pela bandeira estadunidense e pelo boné do MAGA.

Metanol no combustível e nas bebidas alcóolicas de bares finos; energia elétrica só pra levar lucro para acionistas italianos e água mais cara e menos tratada será o cardápio para os cidadãos pedestres. Os VIP receberão garantia de impunidade nos seus trambiques financeiros, imensos terrenos do estado por 10% do valor e o compromisso de terminar de vender na tal da bacia das almas (de onde terá vindo essa expressão?) o que ainda resta do patrimônio duramente construído por décadas do sacrifício da população brasileira.

E um mês depois, talvez se realizem, nos Estados Unidos, as chamadas eleições de midterm, que têm esse nome porque ocorrem na metade do mandato presidencial e tem potencial de reforçar o presidente em exercício, se ele conseguir maioria no Congresso ou criar o que o folclores político estadunidense chama de “pato manco”, um presidente sem maioria parlamentar e, portanto, sem poder, esperando, melancólico, o fim do mandato.

A eleição de Trump há um anos e a maneira como ele começou a governar internamente coloca dúvidas inclusive sobre a realização das eleições, que ele recentemente declarou que “não tem muito sentido”.  Episódios recentes como o protagonismo do tal ICE, acrônimo para Serviço de Imigração e Alfândega, que saiu das fronteiras para caçar, nas cidades que se opõem a Trump, supostos imigrantes ilegais, tem levado o país à beira de uma conflagração civil.

Todos os dias somos bombardeados na mídia pela avaliação de que Trump é um louco, egocêntrico risível, que se comporta como elefante na loja de cristais da geopolítica internacional. E que ou a derrota nas midterms ou um eventual impeachment recolocarão o planeta nos bons tempos do respeito à lei e à ordem.

Também inventaram o acrônimo TACO, que significa algo como “Trump sempre volta atrás”, para dizer que ele nunca cumpre totalmente suas ameaças.

Esse exercício planetário de polianismo não leva em consideração algumas coisas muito relevantes.

Trump não é um louco solitário. Seu programa foi elaborado durante anos por alguns dos think tanks conservadores mais poderosos do planeta. Se ele for afastado por impeachment sem uma ruptura institucional completa, assume o vice, JD Vance, que é unanimemente considerado pior do que ele.

Os grandes barões da internet e os maiores fundos de investimento do planeta o apoiam.

E ele não está ameaçando implodir o sistema legal internacional. Ele já o fez! Ou alguém acha que a ONU ainda tem qualquer relevância?

E, a propósito de sempre voltar a trás, é a estratégia de dois passos à frente e um atrás. O resultado sempre é um passo à frente. Foi assim na Venezuela, foi assim na Groenlândia. Foi assim com a União Europeia. Até agora, apesar das rezas e benzeduras em contrário, ele vem ganhando.  E até já tem apoios para o novo Conselho Mundial sobre o qual reinará sem mandato determinado.

E, para juntar as duas pontas, alguém acha que ele vai torcer por uma vitória do Lula, por que “rolou uma química”?

 

*Carlos A. Ferreira Martins – Professor Titular Sênior do IAU USP São Carlos.

 

 

 

 

 

 

 

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