Fórum Brasil/Portugal – São Carlos

O desabafo de José Saramago no aniversário de sua morte

Rui Sintra

(*) Rui Sintra

“No dia em que celebro — palavra estranha, esta… — o aniversário da minha morte, dou por mim a pensar que há qualquer coisa de profundamente irónica neste ritual dos vivos. Morri, é certo, mas nunca estive tão presente como agora, quando já não posso levantar a voz para contrariar aquilo que dizem em meu nome. Em vida fui incômodo, às vezes até inconveniente. Morto, tornei-me aceitável, quase domesticado. Não sei se devo rir dessa transformação ou desconfiar dela — e, sendo quem fui, escolho a desconfiança. Escrevi porque não sabia fazer outra coisa com o mundo que me foi dado. Escrevi porque viver, assim, simplesmente viver, nunca me bastou. Havia sempre uma fissura na realidade, uma pequena rachadura por onde entrava a dúvida, e eu, incapaz de ignorá-la, transformava-a em palavras. Não pensem que escrevia por vaidade — embora não negue que ela existisse em mim como em todos nós —, escrevia porque era a única forma de suportar o peso de ver. Ver, sim, porque esse foi sempre o meu maior problema: ver demais, talvez. Ver o que se esconde por trás dos gestos banais, das instituições respeitáveis, das certezas inabaláveis. E digo-vos agora, deste lugar onde já não pertenço inteiramente ao mundo, que continuo a ver — e continuo inquieto. Celebram-me hoje com discursos, com citações, com uma reverência que, confesso, me deixa desconfortável. Transformam-me em estátua e as estátuas têm essa terrível desvantagem de não poderem se mover nem protestar. Tornam-nos símbolos e os símbolos são, muitas vezes, versões simplificadas daquilo que fomos. Ora, eu nunca fui simples. Nem quis ser. Se me perguntassem — e não perguntam, porque os mortos raramente são consultados — o que fazer neste dia, eu diria: não me celebrem, leiam-me. Mas leiam-me como quem entra num território instável, não como quem procura confirmação. Não procurem em mim respostas, porque eu próprio desconfiei sempre delas. Procurem, isso sim, as perguntas que vos deixei, essas que continuam a incomodar, a arranhar por dentro, a não deixar que o mundo se acomode. Há algo que me pesa — sim, ainda pesa, porque certas inquietações não morrem com o corpo, e é perceber que o mundo continua perigosamente semelhante àquele que critiquei. A injustiça mudou de roupa, mas não de natureza. A indiferença aperfeiçoou-se. E a cegueira – Ah!!! -, essa continua a espalhar-se com uma facilidade assustadora — não a cegueira dos olhos, mas a outra, a mais insidiosa: a que nos impede de reconhecer o outro como semelhante. Pergunto-me, então, se falhei. Se as palavras que escrevi foram insuficientes, se chegaram tarde, ou se chegaram cedo demais. Mas, talvez essa pergunta seja, em si, inútil. Um escritor não mede o mundo pelo impacto imediato daquilo que escreveu. Escreve porque não pode deixar de escrever, porque há uma urgência que não se cala. O resto pertence ao tempo — esse juiz lento e muitas vezes distraído. Se há algo que aprendi — e a morte, curiosamente, não me ensinou tanto quanto a vida — é que a lucidez tem um preço. Ver implica responsabilidade e a responsabilidade, por sua vez, implica solidão. Não a solidão física, mas aquela outra, mais profunda, de quem não consegue aceitar o mundo tal como ele é apresentado. Não fui um homem de certezas. Fui, isso sim, um homem de inquietações. E é isso que vos deixo, se é que deixo alguma coisa que valha a pena – a inquietação. Desconfiem das verdades prontas, dos discursos fáceis, das unanimidades confortáveis. Há sempre algo por trás, algo que merece ser interrogado. E, se no dia 18 de junho, em que recordaram a minha morte, insistiram em prestar-me homenagem, espero que o tenha feito da única forma que considero legítima – não aceitem o mundo como inevitável. Questionem-no! Resistam-lhe! E, sobretudo, não se deixem cegar — porque a pior cegueira não é a ausência de luz, mas a recusa de ver. Quanto a mim, continuo aqui, não como presença, mas como pergunta. E talvez seja essa a única forma de eternidade que alguma vez me interessou”.

(*) O autor é jornalista profissional/correspondente para a Europa pela GNS Press Association / EUCJ – European Chamber of Journalists/European News Agency) – Presidente do “Fórum Brasil/Portugal – São Carlos” – MTB 66181/SP.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Jornal Primeira Página sobre o assunto.

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