PAULO MELLO
O comerciante José Roberto Messali, da Peixaria Central, participou do programa Primeira Página no Ar, da São Carlos FM, na manhã desta sexta-feira, 03, e falou sobre a trajetória de mais de três décadas no comércio, os desafios enfrentados na Baixada do Mercado e a homenagem que receberá como Comerciante Homenageado do Ano, da Associação Comercial e Industrial de São Carlos (ACISC). A solenidade está marcada para o dia 24 de julho, às 19h, na Câmara Municipal de São Carlos.
Durante a entrevista, Messali disse que recebeu a notícia da homenagem com emoção e surpresa, pela presidente da ACISC, Ivone Zanquim. Ele afirmou que, ao longo dos anos, torceu por amigos que passaram pela mesma homenagem, mas nunca havia se imaginado nessa posição. Segundo o comerciante, o reconhecimento representa uma coroação de 32 anos de trabalho, dedicação e superação.
Roberto da Peixaria, como é conhecido, contou que sua família está entre as pioneiras no comércio de peixes em São Carlos, ao lado de outros comerciantes tradicionais do setor. A atividade começou com tios e familiares mais antigos, e foi seguida pela nova geração no início dos anos 1990. O irmão mais velho seguiu no ramo em Araraquara, onde a família mantém uma unidade, enquanto Roberto permaneceu em São Carlos, à frente da Peixaria Central.
Ao falar sobre a relação com os clientes, Messali destacou que hoje atende a terceira geração de consumidores. Segundo ele, no início da trajetória, vendia para pais que iam à peixaria acompanhados dos filhos. Hoje, esses filhos retornam ao estabelecimento levando os próprios filhos. Para o comerciante, essa continuidade mostra que o trabalho construído ao longo dos anos criou vínculos de confiança com a população.
Enchentes históricas
A entrevista também teve forte carga emocional ao abordar as enchentes que marcaram a história da Baixada do Mercado. Messali relatou que enfrentou entre 20 e 22 enchentes ao longo de cerca de três décadas no centro. Em pelo menos três delas, afirmou ter perdido quase tudo. Ele lembrou que, após uma das ocorrências, abriu a loja no dia seguinte e encontrou grande parte da estrutura destruída, com prejuízos materiais e a necessidade de recomeçar praticamente do zero.
O comerciante citou especialmente as enchentes de 2018 e de dezembro de 2020, apontada por ele como uma das maiores registradas na cidade. Segundo Messali, cerca de 130 lojas foram inundadas na Baixada do Mercado naquela ocasião, atingindo de forma severa comerciantes que já vinham abalados por crises anteriores. O impacto foi agravado pela pandemia, que provocou o fechamento do comércio.
Messali afirmou que, durante um período, a região da Rua Geminiano Costa, tradicional ponto comercial de São Carlos, chegou a parecer um “deserto”, com poucas lojas em funcionamento e redução significativa no movimento de pessoas. Para ele, a Baixada do Mercado tem importância histórica para o município e não poderia ser abandonada. O comerciante se definiu como um “sobrevivente da enchente” e disse que ele e outros empresários ajudaram a reconstruir o centro por acreditarem na força da região.

Ao recordar os dias seguintes às enchentes, Messali destacou o apoio recebido de instituições, amigos, familiares, funcionários e clientes. Ele citou a ajuda da Sicoob Crediacisc, através de Zelão Domingues, de Adão e de Marcos Martinelli como fundamentais em momentos de maior dificuldade. Segundo o comerciante, o suporte permitiu reorganizar a atividade e honrar compromissos, mesmo diante dos prejuízos.
Os clientes também tiveram papel decisivo na recuperação da peixaria. Messali contou que muitas pessoas iam ao estabelecimento depois das enchentes para comprar e demonstrar solidariedade. Segundo ele, alguns consumidores diziam que estavam ali para ajudar. O comerciante afirmou que esse apoio marcou profundamente sua trajetória e ajudou a manter o negócio em funcionamento.
Como forma de retribuição, Messali disse manter um trabalho social próprio, com uma quantia reservada para doações. Ele afirmou que a solidariedade recebida nos momentos mais difíceis passou a orientar também sua forma de contribuir com outras pessoas.
Continuidade da tradição
Outro ponto abordado na entrevista foi a sucessão familiar. Aos 62 anos, Messali disse ter três filhos. Um deles trabalha com ele na peixaria, enquanto os demais seguiram outros caminhos profissionais. O comerciante afirmou que tem preocupação com a continuidade da empresa, por considerar que um estabelecimento tradicional também assume um compromisso público com a cidade e com os clientes.
Messali citou como inspiração o exemplo de Sérgio Brigante, comerciante que, segundo ele, preparou funcionários para dar continuidade ao trabalho. Para Roberto, formar pessoas e transmitir conhecimento são atitudes importantes para manter viva a história de empresas tradicionais.
A fé também apareceu como elemento central na fala do comerciante. Messali afirmou que costuma rezar ao acordar, ao abrir a loja, ao fechar o estabelecimento e antes de dormir. Segundo ele, colocar a vida, a família e o trabalho nas mãos de Deus torna a caminhada mais leve.
Questionado sobre o que pediria a Deus, Messali respondeu que, em primeiro lugar, pediria saúde para ele e para a família. Em seguida, afirmou que pediria proteção para a Baixada do Mercado, para que os comerciantes não voltem a enfrentar enchentes como as que marcaram a região. Ele também reconheceu que obras realizadas nos últimos anos têm contribuído para reduzir os impactos das chuvas, já que há cerca de três anos a área não registra ocorrências da mesma gravidade.
Durante a entrevista, Messali também comentou a satisfação de dividir a homenagem com Regina Agnelli, da Essencial Nutrição, escolhida a Comerciante do Ano 2026, pela ACISC, a quem classificou como responsável por uma empresa familiar de grande importância para São Carlos. Ele afirmou ter orgulho de compartilhar esse reconhecimento com uma empresária que, segundo ele, também presta relevantes serviços à cidade.
Mensagem final
Ao deixar uma mensagem aos comerciantes, Messali afirmou que a honestidade com o cliente deve ser a base de qualquer atividade comercial. Para ele, o comerciante precisa trabalhar diariamente, manter firmeza diante das dificuldades, acreditar em Deus e respeitar quem entra em seu estabelecimento. O atendimento, segundo ele, deve valorizar o cliente, inclusive com gestos simples, como chamá-lo pelo nome.
A homenagem a José Roberto Messali reconhece não apenas a trajetória de um comerciante tradicional, mas também a resistência de quem permaneceu no centro de São Carlos mesmo diante de enchentes, crises econômicas e mudanças no comércio. Sua história simboliza a importância dos empreendedores locais na geração de empregos, no atendimento à população e na preservação da memória comercial da cidade.








