Carlos Ferreira Martins*
No momento em que escrevo, se completam exatamente três anos das primeira notícias e imagens da brutal depredação dos edifícios da Praça dos Três Poderes em Brasília.
São vívidas as lembranças da ansiedade pelas notícias de Lula em Araraquara, tomando decisões à distância e da absoluta insegurança com o que seria o futuro do país.
Ninguém naquele momento poderia se atrever a dizer qual seria o desfecho do golpe. E menos ainda onde e como estaríamos agora, três anos depois.
Admita, leitor, com independência de sua posição política, que você dificilmente poderia imaginar que aquele ataque, material e simbólico, aos poderes da República, Legislativo, Executivo e Judiciário, resultaria numa inaudita demonstração de unidade institucional, expressa naquela histórica travessia da Praça em direção ao edifício do Supremo.
Tampouco seria fácil imaginar que nos três anos seguintes, apesar de inúmeras idas e vindas, o Brasil seria reconhecido pela imprensa do hemisfério norte, por oferecer ao mundo uma lição de defesa da democracia.
Essa defesa se expressou na condenação de algumas centenas de participantes dos vandalismos de 8 de janeiro, mas sobretudo pelo julgamento regular e condenação dos seus principais mandantes, do ex-presidente da república a, pela primeira vez na história pátria, militares de altas patentes.
Mas, na data em que escrevo, o presidente Lula teve que vetar um projeto de lei, apelidado de dosimetria, com o qual, mesmo depois de intensas e claras manifestações populares contra a anistia, a banda podre do Congresso pretende mandar o recado de que se pode tentar o golpe de novo. E de novo. Até dar certo.
Esse quadro político logo ao início do ano eleitoral exigirá muita análise de cabeça fria.
Mas hoje quero pedir licença ao leitor para uma recordação de caráter pessoal, que nunca registrei por escrito.
Eu não cheguei a ser torturado fisicamente, embora tenha sido preso um par de vezes durante a fase mais obscura do regime militar. Numa delas fui parar na masmorra da famigerada OBAN, na rua Tutóia, que um grupo de abnegados historiadores e cidadãos estão conseguindo transformar em Centro de Memória.
Fui preso, para usar expressão da época, de bobeira. Um amigo de escola deixou de frequentar as aulas e eu fui a seu apartamento ver se estava doente ou precisava de algo.
Ali mesmo fui preso e levado para a OBAN, onde me amarraram fios elétricos nos pés descalços e me ameaçaram de uma tortura que, fisicamente, não chegou a ocorrer.
Confusamente fui descobrindo, pela falas truncadas dos verdugos, que tudo aquilo era para encontrar alguém chamada “Maria” que, mais tarde descobri ser um alto quadro da ALN.
Não sou capaz de saber quantas horas fiquei lá, ouvindo de vez em quando o aviso de que já viriam “cuidar de mim”, mas em algum momento da madrugada houve um grande alvoroço e pudemos entender que “Maria” havia sido capturada.
A partir desse momento tudo o que jamais esquecerei foram os gritos de pavor de alguém sendo brutalmente torturado e a canhestra tentativa de disfarçar aquele terror dantesco com um disco de Roberto Carlos tocado no mais alto volume.
Na manhã do dia seguinte fui libertado sem maiores explicações e soube que “Maria” havia sobrevivido, mas estava tetraplégica.
E durante anos não pude ouvir Roberto Carlos.
Se essa lembrança me assalta novamente a ponto de escrevê-la pela primeira vez é porque leio nos jornais que, de familiares ao Conselho Federal de Medicina, passando por toda a caterva de influencers, há uma mobilização da piedade pública em favor daquele que, outrora imbatível na falta de empatia e na defesa da tortura, hoje se queixa de não conseguir suportar… o barulho do ar-condicionado.
Não tenho a ingenuidade de supor que com esta lembrança pessoal, modificarei a posição de bolsonaristas, quer o sejam por interesse, convicção ou ignorância.
Só espero que nunca mais alguém tenha que passar pela kafkiana situação de sentir que teve “sorte” porque alguém foi preso e torturado até ficar tetraplégico antes que os verdugos tivessem tempo de exercer seu sadismo num personagem irrelevante enquanto esperavam o prato principal.
*Professor Titular Sênior do IAU USP São Carlos, foi militante estudantil. Nunca se filiou à luta armada, mas teve muitos de seus contemporâneos barbaramente torturados ou assassinados.
