Eu quero ver meus filhos crescerem

Pacientes relatam rotina de esperança enquanto aguardam por transplante do coração

No Setembro Verde, mês de conscientização sobre a doação de órgãos, histórias de pacientes mostram a importância de conversar com a família sobre o desejo de ser doador

Há quatro anos, Eduardo Ferreira da Silva, de 62 anos, espera por um coração. Desde 12 de fevereiro de 2025, essa espera acontece dentro do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, unidade da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP). Entre noites mal dormidas, ofertas que não puderam ser concretizadas e a saudade de casa, ele mantém um desejo simples: voltar para a família.

Neste Setembro Verde, mês dedicado à conscientização e ao incentivo à doação de órgãos e tecidos, histórias como a de Eduardo ajudam a mostrar o impacto que a decisão de uma família pode ter na vida de quem aguarda por um transplante.

Eduardo, que trabalhava como programador de máquinas, tem aterosclerose e precisou ser internado após o tratamento medicamentoso deixar de apresentar a resposta esperada.

“O remédio estava fazendo efeito, então eu podia aguardar em casa, sem necessidade de internação. Mas, quando ele parou de fazer o efeito desejado pelos médicos, eles decidiram me internar”, conta.

A longa permanência no hospital mudou a rotina de sono. “Eu acordo de hora em hora, tomo um remédio para dormir, mas, mesmo assim, não funciona. É um ambiente estranho para o meu corpo. Estou acostumado com a minha casa, a minha cama, a minha esposa. Mas, se tiver que esperar mais um ano, eu espero pela segunda chance de voltar para a minha família”.

Ao longo desse período, Eduardo já viveu momentos em que a possibilidade do transplante pareceu estar próxima. Em uma das ocasiões, chegou a ser preparado para o procedimento, mas o órgão disponível não apresentou as condições necessárias para o transplante.

“Já passei por esse episódio: fui preparado, fiquei aguardando sete ou oito horas e, no final, o coração não pôde ser utilizado e perdemos a oferta. Por isso, nas próximas vezes, a gente tenta não ficar tão emocionado ou ansioso”, relata.

A poucos corredores de distância, o chef de cozinha André Luis de Almeida Oliveira, de 42 anos, enfrenta a mesma espera. Diagnosticado com insuficiência cardíaca avançada há dez anos e após quatro infartos, ele também aguarda por um transplante de coração.

“É um momento tão esperado que a gente chega até a sonhar. É difícil expressar, porque representa o fim de uma angústia. Quando chegar o momento, será o encerramento de um período de sofrimento e a preparação para uma nova vida”, afirma.

Enquanto o transplante não chega, André encontra apoio na rotina de cuidado dentro do hospital. “O cuidado que recebemos de toda a equipe é muito importante. Diariamente, eu me sinto abraçado com aquele ‘bom dia’ e ‘boa noite’, que fazem toda a diferença neste período de internação.”

À espera de um novo começo

Atualmente, mais de 29 mil pessoas aguardam por um transplante de órgão ou tecido no Estado de São Paulo. Desse total, 236 esperam por um coração.

A definição dos receptores segue critérios técnicos estabelecidos pelo Sistema Estadual de Transplantes, como compatibilidade entre doador e receptor, gravidade do quadro clínico e tempo de espera.

Para quem está na fila, cada doação pode significar a possibilidade de retomar planos interrompidos pela doença.

“Eu quero fazer valer a pena os poucos ou muitos anos de vida que ainda tenho. Por isso, peço: dê uma chance para a pessoa tornar a vida grande. Um momento de tristeza de uma família pode gerar alegria para várias outras a partir da doação de órgãos”, diz Eduardo.

Casado há 20 anos e pai de Luis Gustavo, de 20, e Bruno, de 16, André também tem planos para depois do transplante. Mais do que isso, espera estar presente nos próximos capítulos da vida dos filhos.

“O seu ‘sim’ vai ajudar a cumprir a minha jornada. A jornada de um pai, de um marido, de um filho, de um primo, de um amigo. Eu quero ver meus filhos crescerem, se casarem. Estou à espera de um ‘sim’. Por isso, eu peço: doem órgãos.”

Como funciona a doação de órgãos

A Central de Transplantes segue critérios definidos pela legislação para identificar os possíveis receptores de cada órgão doado. São consideradas informações como tipo sanguíneo, características físicas do doador e do receptor, compatibilidade genética e condições clínicas. Pacientes em situações de maior gravidade também podem ter prioridade, conforme os critérios estabelecidos para cada modalidade de transplante.

A inscrição de quem necessita de um transplante é realizada pela equipe responsável pelo acompanhamento do paciente junto ao Sistema Estadual de Transplantes de São Paulo. O sistema faz a gestão do processo de doação e transplante no Estado em articulação com o Sistema Nacional de Transplantes.

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