ARTIGO

Quando só querer não basta

“O pior de tudo é você querer e não poder” – Nino Carneiro

“Querer fazer tudo e não poder fazer nada é diferente de poder fazer tudo e não querer fazer nada” – Wesley D’Amico

 

 

Marco César Aga*

 

 

Conheci uma senhora de coração e alma lindos, carregava um sentimento de amor e solidariedade que transbordava pela vida e pelas atitudes, não só pelo coração. Dona Tereza (já falecida), conheci quando eu era caixa no Banco do Brasil e vez ou outra tinha o prazer de atende-la. Mulher simples, de vida simples, de sonhos imensos: dizia que iria ganhar na sorte grande para ajudar todos os seus familiares: irmãos, filhos e netos. Toda semana gastava do seu sagrado dinheirinho nas loterias da vida. Dona Tereza se foi, sem conseguir realizar seus sonhos de resolver os problemas de tanta gente que cuidava e amava. Hoje, usando esse caso como exemplo, vivemos um pouco dessa realidade na política. Há uma confusão na vida pública onde a ideia de que vontade basta. Que desejar ser por si só já é uma credencial. Em nome dessa crença muitas pessoas ocupam ou ocuparam, ou desejam ocupar cargos estratégicos com base no seu entusiasmo e querer, mas carecem de preparo, experiência e requisitos mínimos para exercer uma função importante. Mal colocam o “pé na praia” e já querem cadeira e guarda-sol.  Quando alguém sem preparo assume um cargo apenas pelo desejo de ocupá-lo, o resultado costuma ser previsível: improviso, decisões erradas e dependência total de assessores e subalternos. Aquilo que deveria ser instrumento de serviço público, vira aprendizado e a cidade não pode ser gerida como experimento. O povo não elege ninguém para aprender no cargo, mas para exercer uma função para a qual deve estar preparado. Geralmente o quadro piora quando especialistas passam a ser descartados, em um processo de desvalorização do conhecimento e da experiência, num Anti-intelectualismo que corrói a capacidade da administração de resolver problemas e melhorar a vida da população. Esse quadro enfraquece a democracia. Querer ocupar um cargo não é o mesmo que exercê-lo, apesar da democracia garantir o direito, ela não garante o sucesso. Vontade sem competência produz governos fracos e políticas mal executadas. Isso pode ser evitado quando o eleitor entende que só querer não basta, pois em jogo está o respeito ao cargo público, além da eficiência administrativa. Governar exige mais que desejo, exige preparo, conhecimento, responsabilidade e um compromisso com o povo que quer uma cidade melhor e com qualidade de vida acima da média. Muitos ocupam cargos sem o conhecimento necessário sempre à custa da sociedade, e não me refiro aqui a pessoas sem conhecimento acadêmico. Já vi muitos doutores serem péssimos gestores e pessoas com pouco estudo serem ótimos administradores. O que dá o toque final, além do conhecimento dos problemas da cidade, do lidar com o orçamento e saber as prioridades corretas, é a empatia, a relação de afeto e solidariedade com o povo e com a cidade. Por isso digo sempre que quem ama cuida, se souber cuidar, se souber montar e valorizar uma boa equipe, se souber descentralizar ações administrativas essenciais para resolver problemas e melhorar a vida das pessoas. Na verdade a ocupação de cargos públicos por pessoas que não dominam a função revela que a boa vontade não substitui o preparo. Governar é cuidar do todo: da cidade, do povo, da máquina pública, do orçamento e definir corretamente as prioridades da população. Quando só querer não basta – e não basta – o que está em jogo é a eficácia do governo, a integridade da vida pública e a qualidade de vida das pessoas.

 

*Marco César Aga – ex-prefeito de Casa Branca/SP.

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