(*) Rui Sintra
Sobreviver num país pequeno não é, necessariamente, aprender a viver dentro de fronteiras estreitas. Há países territorialmente pequenos que oferecem aos seus cidadãos segurança, prosperidade e qualidade de vida invejáveis. A pequenez a que me refiro é outra: é a de um país que ainda não conseguiu transformar plenamente as suas riquezas, o trabalho da sua população e as suas instituições em oportunidades para todos. Durante décadas, utilizou-se a expressão “Terceiro Mundo” para identificar países que, por razões históricas, econômicas e/ou políticas, permaneceram à margem dos grandes centros de poder e riqueza. Hoje, prefere-se falar em “Países em Desenvolvimento”, “Economias Emergentes” ou “Países do Sul Global”, sinônimo de que mudaram as palavras, mas a maior parte dos problemas continua de “boa saúde”. Viver num desses países exige habilidades que raramente aparecem nos manuais de economia ou nos discursos oficiais. É preciso aprender a sobreviver à burocracia, à desigualdade, aos serviços públicos deficientes, às mudanças repentinas das regras, à insegurança econômica, contornar indícios de corrupção e, sobretudo, aprender a ter a sensação de que o esforço individual nem sempre encontra correspondência nas oportunidades oferecidas pela sociedade. Em países assim, planejar o futuro pode tornar-se um exercício de incerteza. Uma família organiza as suas contas e, de repente, a inflação altera o orçamento. Um pequeno empresário investe e descobre que uma mudança econômica compromete aquilo que havia planejado. Um jovem conclui uma formação universitária e percebe que o diploma não lhe assegura emprego compatível com os anos de estudo. Um trabalhador envelhece perguntando-se se terá condições de manter uma vida digna quando já não puder trabalhar. Por isso, uma das primeiras regras de sobrevivência é aprender a conviver com a instabilidade sem fazer dela uma forma permanente de resignação. Há uma diferença fundamental entre adaptação e conformismo. Adaptar-se significa compreender as circunstâncias e encontrar maneiras de enfrentá-las. Conformar-se significa aceitar que nada pode mudar. É justamente aí que começa o perigo dos países que permanecem presos ao subdesenvolvimento, ou seja, quando a população passa a considerar normal aquilo que deveria ser intolerável. Não deveria ser normal esperar meses por determinados serviços públicos essenciais. Não deveria ser normal uma criança ter oportunidades radicalmente diferentes apenas porque nasceu numa família pobre. Não deveria ser normal que corrupção, violência, favoritismo ou incompetência administrativa sejam tratados como características inevitáveis de uma sociedade. Quando o excepcionalmente ruim se transforma em rotina, o país começa a diminuir, independentemente do tamanho que apresente no mapa. Num ambiente de poucas certezas, conhecimento é uma das formas mais poderosas de independência. Não me refiro apenas aos diplomas. Refiro-me à capacidade de compreender o mundo, interpretar informações, aprender novas tecnologias, dominar idiomas, desenvolver uma profissão e, principalmente, continuar aprendendo ao longo da vida. Em economias instáveis, profissões desaparecem, outras surgem e determinadas competências tornam-se rapidamente ultrapassadas. Quem depende exclusivamente de uma única habilidade pode tornar-se vulnerável. A educação, portanto, deixa de ser apenas um instrumento de ascensão social. Torna-se uma estratégia de sobrevivência. Mas, existe outra educação igualmente importante, que é a educação para a cidadania. É preciso saber distinguir informação de propaganda, promessa de política pública, popularidade de competência e patriotismo de exploração emocional do sentimento nacional. Um país pobre não precisa apenas de cidadãos que saibam trabalhar. Precisa de cidadãos capazes de perguntar onde estão sendo aplicados os recursos públicos (os SEUS recursos), por que determinadas decisões foram tomadas e quem efetivamente se beneficia delas. Em sociedades com instituições frágeis existe uma tentação compreensível: desistir completamente do Estado e procurar soluções individuais para tudo. Quem pode, paga escola particular, assistência médica privada, segurança, transporte e previdência complementar. Aos poucos, criam-se dois países dentro do mesmo território. Um é aquele de quem consegue comprar alternativas e o outro é aquele de quem depende exclusivamente dos serviços públicos. Esse caminho pode resolver problemas individuais, mas não resolve o problema coletivo. Sobreviver exige alguma autonomia pessoal: poupar quando possível, diversificar fontes de rendimento, desenvolver competências profissionais, construir redes de confiança e preparar-se para períodos de dificuldade. Mas, uma sociedade não pode sobreviver indefinidamente se cada cidadão precisar construir sozinho o seu próprio Estado particular. É necessário continuar exigindo instituições públicas eficientes, educação de qualidade, saúde acessível, segurança, infraestrutura e regras que sejam aplicadas igualmente a todos. Talvez uma das maiores riquezas dos países menos desenvolvidos esteja justamente onde os indicadores econômicos têm dificuldade de chegar, ou seja, nas relações humanas. Famílias, amigos, vizinhos, associações, universidades, comunidades profissionais e organizações da sociedade civil frequentemente formam redes informais de proteção. Num momento de desemprego, alguém indica uma oportunidade. Numa dificuldade familiar, aparece quem ajude. Um pequeno empreendedor encontra clientes pela confiança construída ao longo dos anos. Uma comunidade mobiliza-se para solucionar aquilo que o poder público não conseguiu resolver. Essa solidariedade é preciosa. Entretanto, existe uma fronteira que não pode ser ignorada: solidariedade não deve transformar-se em dependência, e relacionamento não deve transformar-se em favorecimento. Quando o acesso a empregos, contratos públicos, atendimento ou oportunidades depende de “conhecer alguém”, a rede social deixa de ser solidariedade e passa a reproduzir privilégios. Em países economicamente vulneráveis, talvez a palavra mais importante seja RESERVA. Reserva financeira, sempre que as condições permitirem. Reserva profissional, por meio de competências alternativas. Reserva intelectual, mantendo a capacidade de aprender. E até uma reserva emocional, entendendo que períodos difíceis não podem consumir completamente a capacidade de projetar o futuro. Isso significa evitar, tanto quanto possível, construir uma vida dependente de uma única fonte de segurança. Uma economia pode mudar. Uma empresa pode fechar. Uma tecnologia pode substituir determinada atividade. Uma crise internacional pode chegar rapidamente à mesa de uma família que vive a milhares de quilômetros do lugar onde ela começou. Quanto menor a margem de segurança de uma sociedade, maior será o impacto desses acontecimentos sobre os indivíduos. Existem países ricos em petróleo, minérios, terras agrícolas, água, biodiversidade e outros recursos naturais cuja população continua convivendo com pobreza e desigualdade. Ter riqueza não significa saber transformá-la em desenvolvimento. O verdadeiro patrimônio de uma nação não está apenas debaixo da terra ou no valor das suas exportações. Está na qualidade das escolas, universidades, hospitais, instituições, empresas, centros de investigação e, principalmente, nas oportunidades oferecidas às pessoas. Um país começa a deixar de ser “Terceiro Mundo” não quando constrói edifícios impressionantes ou apresenta números econômicos grandiosos, mas quando o local onde uma criança nasce deixa de determinar, quase antecipadamente, aquilo que ela poderá ser. Talvez esta seja a principal regra para sobreviver num país pequeno: não permitir que as limitações do país diminuam também os nossos horizontes. É possível adaptar-se sem perder a capacidade de indignação. É possível compreender as dificuldades econômicas sem acreditar que a pobreza seja inevitável. É possível reconhecer os defeitos das instituições sem concluir que todas as instituições sejam inúteis. E é possível amar profundamente um país e, justamente por isso, criticá-lo. Aliás, talvez essa seja uma das formas mais maduras de patriotismo. Amar um país não significa dizer permanentemente que ele é maravilhoso. Significa desejar que seja melhor. Significa reconhecer aquilo que funciona, preservar aquilo que merece ser preservado e recusar a ideia confortável de que determinados problemas fazem simplesmente “parte da nossa cultura”. No final, existe uma questão ainda maior. Uma sociedade não pode estabelecer como objetivo ensinar cada geração simplesmente a sobreviver melhor às suas deficiências. Se cada cidadão precisa ser extraordinariamente criativo para conseguir educação, emprego, saúde, segurança e dignidade, talvez o problema não esteja na falta de capacidade das pessoas, mas no funcionamento da própria sociedade. O verdadeiro desenvolvimento acontece quando sobreviver deixa de exigir heroísmo cotidiano. Quando trabalhar permite viver dignamente. Quando estudar abre possibilidades reais. Quando adoecer não significa ruína financeira. Quando envelhecer não provoca medo. Quando empreender não exige navegar permanentemente entre burocracia e insegurança. Quando conhecer alguém importante deixa de valer mais do que possuir competência. E quando nascer pobre não representa uma sentença para toda a vida. Por isso, sobreviver num país pequeno exige prudência, educação, capacidade de adaptação, independência e solidariedade. Mas, transformá-lo exige algo mais. Exige cidadania. Talvez seja justamente essa a diferença entre uma sociedade condenada a administrar eternamente as suas dificuldades e outra capaz de superá-las. Um país não deixa de ser pequeno quando aumenta o seu território, a sua população ou o seu Produto Interno Bruto (PIB). Deixa de ser pequeno quando aumenta as possibilidades de vida dos seus cidadãos. (*) O autor é jornalista profissional/correspondente para a Europa pela GNS Press Association / EUCJ – European Chamber of Journalists/European News Agency). Presidente do “Fórum Brasil / Portugal – São Carlos (SP) – MTB 66181/SP.
Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Jornal Primeira Página sobre o assunto.








