(*) Rui Sintra
Tenho acompanhado com preocupação o crescimento do número de grupos de cidadãos que, por iniciativa própria, decidiram combater os chamados “carteiristas” – internacionalmente conhecidos por “Pickpockets” – nas ruas das cidades de Portugal, com especial destaque em Lisboa. O fenómeno não surge por acaso e não é só em Portugal, já que é considerado uma consequência direta de um sentimento cada vez mais generalizado com o aumento de insegurança em Portugal e, sobretudo, de impunidade. Os números divulgados pela Polícia de Segurança Pública (PSP) são esclarecedores: apenas nos primeiros cinco meses de 2026 foram apresentadas quase três mil queixas contra carteiristas, um aumento de 7% em relação ao mesmo período do ano passado. Ao mesmo tempo, o número de detenções diminuiu significativamente. Estes dados ajudam a explicar por que razão muitos residentes, comerciantes e até turistas passaram a apoiar ações independentes de combate aos furtos. Como cidadão, compreendo perfeitamente a indignação de quem trabalha diariamente nas zonas históricas e turísticas de Lisboa e de outras cidades portuguesas, e testemunha, quase todos os dias, a atuação descarada de grupos organizados de carteiristas. Afinal, ninguém deseja ver a sua cidade transformada num palco de criminalidade que prejudica moradores, visitantes e a própria imagem internacional de Portugal. No entanto, também temos que refletir sobre os limites desta reação popular. A chamada “justiça pelas próprias mãos” representa um caminho perigoso. Embora alguns destes grupos afirmem agir apenas para identificar e expor os suspeitos, não são raros os episódios que terminam em agressões físicas, humilhações públicas e exposição nas redes sociais. Num Estado de Direito, compete às forças de segurança e ao sistema judicial investigar, deter e julgar os infratores. É sua obrigação, e quando cidadãos comuns assumem funções policiais, corre-se o risco de ocorrerem erros graves, acusações injustas e até situações de violência desnecessária. O combate ao crime não pode transformar-se numa forma de vingança pública. A PSP tem alertado precisamente para estes perigos. Apesar de reconhecer a preocupação legítima da população, a polícia desaconselha claramente a atuação destas milícias informais. A segurança coletiva exige profissionalismo, formação adequada e respeito pelas leis, valores que não podem ser substituídos pela emoção ou pela revolta momentânea. Por outro lado, não podemos ignorar a importância da prevenção e da vigilância individual. Num contexto em que Portugal se tornou uma rota cada vez mais procurada por grupos internacionais de carteiristas, é essencial que todos permaneçam atentos. Como em qualquer lugar no mundo, turistas e residentes portugueses devem adotar medidas simples, mas eficazes: manter bolsas e mochilas sempre fechadas e à frente do corpo, evitar guardar carteiras ou celulares nos bolsos traseiros, desconfiar de distrações aparentemente inocentes e estar especialmente vigilantes em locais com grande concentração de pessoas, como transportes públicos, praças, monumentos e zonas comerciais. A segurança é uma responsabilidade partilhada. Cabe às autoridades reforçar o combate ao crime e garantir que os infratores sejam efetivamente responsabilizados. Cabe aos cidadãos manterem-se vigilantes, colaborarem com as forças policiais e denunciarem situações suspeitas. Mas nunca devemos esquecer que a defesa da segurança pública deve caminhar lado a lado com o respeito pela lei, pela dignidade humana e pelos princípios fundamentais da democracia. Lisboa e todas as restantes cidades portuguesas devem continuar a ser cidades acolhedoras, seguras e abertas ao mundo. Para isso, é necessário combater a criminalidade com firmeza, mas também com responsabilidade e respeito pelo Estado de Direito.
(*) O autor é jornalista profissional/correspondente para a Europa pela GNS Press Association / EUCJ – European Chamber of Journalists/European News Agency). Presidente do “Fórum Brasil / Portugal – São Carlos (SP) – MTB 66181/SP.
Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Jornal Primeira Página sobre o assunto.








