Iniciativa recupera equipamentos que ajudam a compreender a evolução das tecnologias de cálculo e preserva parte do patrimônio e da memória da USP
Imagine um dispositivo mecânico capaz de realizar operações aritméticas básicas, algumas delas com dimensões comparáveis às de um computador de mesa e um interior repleto de engrenagens, alavancas e manivelas. Estamos falando das calculadoras mecânicas, máquinas inventadas a partir do século XVII que ajudaram a transformar o cálculo manual em um processo automatizado.
Com o surgimento das calculadoras eletrônicas e dos computadores digitais, porém, esses equipamentos se tornaram obsoletos do ponto de vista funcional. Hoje, preservar a memória e o patrimônio tecnológico associados a esses equipamentos é um desafio. Somando-se a essa equação, o Museu de Computação Odelar Leite Linhares, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, está restaurando mais de 100 calculadoras mecânicas que integram seu acervo.
O trabalho busca recuperar não apenas o funcionamento e as características desses equipamentos, mas também preservar parte da história da evolução das tecnologias de cálculo e da computação, como afirma o professor do ICMC e curador do museu, Marcio Delamaro. “Antes dos circuitos eletrônicos, operações matemáticas eram realizadas por meio de engrenagens, alavancas, tambores, rodas de pinos e manivelas. Esses dispositivos mostram como o cálculo foi sendo mecanizado e ajudam a compreender o caminho que levou as calculadoras eletrônicas e, posteriormente, aos computadores”.
Bastidores da restauração – Segundo o docente, o projeto abrange um conjunto de aproximadamente 125 calculadoras mecânicas. Por se tratar de acervo numeroso e diversificado, o trabalho será organizado em lotes definidos de acordo com critérios como estado de conservação, urgência da intervenção, a complexidade do mecanismo, a relevância histórica e a necessidade de documentação prévia.
E é nos bastidores da restauração que trabalha Marcello Palladino, curador do Museu da Calculadora, de São Paulo. O restaurador explica que o processo começa com a limpeza da parte externa e interna, com uso de pincéis, cotonetes secos e aspirador, que retiram pó, ferrugem e até insetos encontrados no interior da calculadora.
Depois, com o uso de álcool isopropílico, a graxa antiga da calculadora é retirada e, posteriormente, são aplicados óleos e desengripantes. Começa-se, então, a avaliação da parte mecânica, onde é verificado o estado das engrenagens, molas, pinos e hastes de metal. “Algumas peças às vezes estão desencaixadas, soltas ou travadas por ferrugem ou lubrificação velha. Com a ajuda das mãos, várias engrenagens são liberadas aos poucos até que a máquina comece a responder na alavanca ou manivela principal. Algumas vezes é necessário aplicar calor em peças específicas”, detalha Marcello.
O professor Delamaro reforça que o principal objetivo do projeto é interromper os processos de deterioração, atentando-se à identidade e funcionalidade do artefato. “Restaurar não significa simplesmente deixar a calculadora com aparência de nova. É preciso conservar sua originalidade, registrar as intervenções realizadas e, quando isso for tecnicamente adequado, recuperar parte de seu funcionamento sem apagar as marcas de sua trajetória”, explica.
De acordo com Marcello, o trabalho procura manter os aspectos estéticos da calculadora original para que a autenticidade seja preservada: “Não gosto de pintar ou colocar peças que não sejam originais, apenas por estética. Quando faço isso é para recuperar a funcionalidade, já que peças para essas calculadoras não existem mais. Por sorte, comprei um lote de 200 delas no estado de sucata no passado e tenho muitas peças para substituição”.
O projeto de restauração das calculadoras do Museu de Computação Odelar Leite Linhares conta com o financiamento da Opus Software, empresa focada em soluções digitais. Segundo a gestora de Recursos Humanos da Opus Software, Rosangela Oliveira, a relevância científica e histórica da proposta de investimento foi decisiva para a parceria. “Não foi uma empresa procurando uma causa para associar à marca, foi a Universidade mostrando uma necessidade concreta, com escopo definido por quem conhece o acervo. Pedido claro e resultado verificável. Para quem decide investimento, é a melhor situação possível”, conta.
Rosangela complementa que enquanto a competência técnica de curadoria e preservação institucional ficam por conta da Universidade, a iniciativa privada busca oferecer o suporte necessário ao processo prático, da restauração à contratação de pessoal técnico. “Empresas de tecnologia no Brasil têm uma dívida de origem com essa história. Nossa indústria se apoia em décadas de pesquisa pública que boa parte do mercado nem sabe que existiu. Preservar esse acervo é manter a memória de que houve engenharia e ciência da computação sérias no país muito antes da onda atual”, comenta.
Valor histórico e mecanismos sofisticados
Na centena de calculadoras presentes no acervo do museu, algumas ganham lugar de destaque, seja pelo valor histórico ou pela sofisticação do mecanismo. Uma das raridades é a Curta Type II, projetada pelo austríaco Curt Herzstark, e conhecida pelo design extremamente portátil. Por ser compacta e com um corpo cilíndrico acompanhado de uma manivela, era carinhosamente chamada de ‘moedor de pimenta’.
O docente curador cita ainda mais alguns dos exemplares significativos da coleção: “A Olivetti Divisumma 24 também merece destaque tanto por sua tecnologia quanto pelo desenho industrial. O acervo inclui ainda equipamentos como a HP 9100B, que já pertence à geração das calculadoras eletrônicas de mesa e ajuda a mostrar a evolução das tecnologias de cálculo”, avalia Delamaro.
O acervo conta com um conjunto representativo de máquinas e equipamentos de outras marcas importantes na história do cálculo mecanizado, como Facit, Monroe, Original-Odhner e Brunsviga. Esta última reúne os modelos favoritos do restaurador Marcello Palladino. “Elas foram muito bem projetadas e os seus componentes e materiais são de excelente qualidade. Para mim, é a melhor calculadora. Espero ainda o desafio de restaurar outras máquinas, que ainda não tive a oportunidade de conhecer ou ter em minha coleção”, conta.
A manutenção da memória para a construção do futuro
Um detalhe interessante do conjunto do Museu de Computação é a sua procedência. Segundo o docente do ICMC, muitas das calculadoras foram utilizadas em seções administrativas da própria USP, o que fortalece não apenas o caráter científico do projeto, mas a memória do próprio campus. “Elas preservam parte da história do trabalho administrativo na Universidade: foram equipamentos efetivamente usados em atividades de contabilidade, orçamento, registros e outros cálculos do cotidiano institucional. Isso dá ao conjunto um valor histórico que vai além da marca ou do modelo de cada equipamento”, afirma.
A restauração também representa, para Marcello Palladino, uma forma de prolongar a vida de equipamentos que atravessaram décadas e que ainda têm muito a revelar sobre a tecnologia de seu tempo. “Vê-las funcionar ou apenas apreciar como foram construídas, numa época que tudo era feito à mão, sem ajuda de computadores e programas, nos faz imaginar as mentes brilhantes e talentosas que desenvolveram esses instrumentos, algumas chegando a ter internamente quase 5 mil peças, funcionando em perfeita harmonia”.
Segundo o professor Delamaro, com a recuperação das calculadoras, o espaço cultural também pretende ampliar as formas de utilização desse patrimônio. No campo do ensino, os aparatos apresentam de forma concreta aspectos de representação numérica e da evolução dos mecanismos. Na pesquisa, podem apoiar estudos sobre história da tecnologia, conservação, documentação e cultura material. “E na divulgação científica, são peças que despertam muita curiosidade e ajudam a contar a história da computação de uma forma acessível e próxima do público”, finaliza.
O Museu de Computação Odelar Leite Linhares do ICMC é aberto a visitas de segunda a sexta-feira das 08 às 19 horas, e aos sábados, das 8 horas ao meio-dia. O agendamento para visitas, individuais ou em grupo, pode ser feito pelo site. O espaço também recebe doações de objetos de interesse histórico para as áreas de Computação e Matemática, como calculadoras, computadores pessoais, periféricos, plataformas de jogos, manuais, documentos, livros, revistas e outros dispositivos. Pessoas ou instituições interessadas em doar, podem preencher o formulário disponível no site do museu. (Raquel Sampaio, da Fontes Comunicação Científica)








