Educação

São Carlos ganha protagonismo em rede da USP

(*) Rui Sintra-IFSC/USP

Embrapii reúne dez centros de pesquisa para acelerar projetos de inovação com o setor produtivo

São Carlos ganha protagonismo em rede da USP que aproxima ciência e indústria. Com quase cem projetos desenvolvidos com empresas, 40 produtos colocados no mercado e mais de R$ 160 milhões em tributos gerados, polo são-carlense ocupa posição estratégica na Rede Embrapii USP, coordenada pelo docente e pesquisador do IFSC/USP, Prof. Vanderlei Bagnato.

Transformar conhecimento científico em produtos, tecnologias e soluções capazes de chegar à sociedade é um dos grandes desafios das universidades brasileiras. Na USP, essa aproximação entre laboratórios e empresas ganha agora uma estrutura mais ampla com a consolidação da “Rede Embrapii USP”, que reúne dez centros de pesquisa da Universidade e tem em São Carlos um de seus principais polos de inovação.

Os números ajudam a dimensionar esse protagonismo. Somente o polo são-carlense acumula quase cem projetos desenvolvidos em parceria com o setor industrial. Desse trabalho resultaram 40 produtos introduzidos no mercado e mais de R$ 160 milhões em arrecadação de tributos.

Por trás dos números está uma estratégia que pretende fazer com que a excelência científica existente na Universidade atravesse as paredes dos laboratórios e encontre problemas concretos apresentados pelas empresas e pela sociedade.

Essa é também uma das ideias defendidas pelo Prof. Vanderlei Salvador Bagnato, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), coordenador da “Rede Embrapii USP” e da “Unidade Embrapii USP/IFSC”, sendo que, para ele “Os grandes desafios tecnológicos contemporâneos já não podem ser enfrentados de forma isolada. A inovação não é um tópico isolado; ela é multidisciplinar. Sem atuar em rede, não conseguimos fazer inovação transversal”, afirma Bagnato.

A proposta ganhou força com o “Primeiro Encontro da Rede Embrapii USP”, realizado no dia 17 deste mês de setembro, no Centro de Treinamento do Instituto de Radiologia (InRad) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo.

Pela primeira vez, coordenadores e pesquisadores dos centros credenciados reuniram-se presencialmente para discutir como conhecimentos produzidos em áreas tão diferentes quanto física, saúde, inteligência artificial, engenharia, química, agricultura e desenvolvimento de fármacos podem ser combinados para solucionar problemas apresentados pelo setor produtivo.

O encontro marcou ainda a incorporação do “Inova-HC” à rede, elevando para dez o número de centros participantes.

São Carlos como polo de inovação

A presença de São Carlos nessa estrutura é particularmente significativa. O campus reúne dois dos integrantes da “Rede Embrapii USP”: o Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) e o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC/USP), colocando lado a lado competências que passam pela física, biofotônica, instrumentação, computação e inteligência artificial.

No IFSC/USP, a relação com empresas já possui uma trajetória consolidada. Credenciada pela Embrapii desde 2017, a unidade atua especialmente nas áreas de biofotônica e instrumentação, aproximando a pesquisa científica de aplicações tecnológicas.

Na prática, isso significa utilizar conhecimentos de fronteira desenvolvidos na Universidade para criar equipamentos, processos e soluções capazes de responder a necessidades reais.

Essa aproximação pode ser observada em projetos recentes. Em parceria com empresas, pesquisadores do IFSC/USP vêm trabalhando, por exemplo, no desenvolvimento de tecnologias que combinam laser terapêutico e sistemas de compressão pneumática para recuperação muscular. A unidade também acumula experiência no desenvolvimento de tecnologias fotônicas voltadas à área médica.

Mais do que casos isolados, esses projetos ajudam a mostrar como a pesquisa acadêmica pode percorrer um caminho que começa na investigação científica e termina em uma tecnologia potencialmente disponível para empresas, profissionais e população.

É justamente esse percurso que a “Rede Embrapii USP” pretende ampliar.

Uma rede para derrubar fronteiras

Criada em outubro de 2025, a rede surgiu com a missão de integrar competências que já existiam dentro da própria Universidade, mas que nem sempre trabalhavam de maneira articulada.

A lógica é que uma empresa com determinado desafio tecnológico não precise encontrar todas as respostas em um único laboratório. Um projeto iniciado na física pode necessitar de inteligência artificial; uma solução médica pode depender da engenharia; uma inovação industrial pode exigir novos materiais, química ou ciência de dados.

Ao conectar esses grupos, a USP procura criar uma espécie de porta de entrada para projetos de maior complexidade.

Além do IFSC/USP e do ICMC/USP, participam da rede grupos da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), Instituto de Química (IQSint), Centro de Inovação em Fármacos (CEINFAR), Escola Politécnica — por meio das unidades TecnoGreen, Powertrain e Centro de Inovação em Construção Sustentável (CICS Poli) — e o Inova-HC.

Para Bagnato, três conceitos são fundamentais nesse processo: abrangência, regionalidade e parceria com a indústria.

A abrangência está na diversidade de conhecimentos reunidos. A regionalidade permite que a capacidade científica da USP alcance empresas instaladas em diferentes pontos do Estado. E a parceria pressupõe uma relação que vá além da simples prestação de serviços. “Nós queremos ser verdadeiros parceiros de inovação”, afirma o pesquisador.

Isso significa que a Universidade não deve apenas receber um problema da empresa e executar uma tarefa previamente estabelecida. Seus pesquisadores podem participar da própria construção da solução, alterando caminhos científicos e tecnológicos quando os obstáculos encontrados durante o projeto assim exigirem.

Ciência excelente e ciência relevante

Essa concepção toca em uma questão que acompanha o próprio debate sobre o papel das universidades públicas: como conciliar a pesquisa voltada à expansão das fronteiras do conhecimento com a necessidade de responder aos problemas da sociedade?

Para Bagnato, essas duas dimensões não são concorrentes. Ao contrário, devem caminhar juntas.

O professor distingue aquilo que chama de “ciência excelente”, responsável por ampliar o conhecimento e formar pesquisadores altamente qualificados, da “ciência relevante”, direcionada à solução de problemas concretos apresentados pela sociedade e pelo setor produtivo.

A inovação surge justamente no encontro entre essas duas vertentes.

Essa visão ajuda a explicar por que São Carlos ocupa posição importante no projeto. Ao longo de décadas, a cidade consolidou um ambiente de pesquisa marcado pela interação entre diferentes áreas do conhecimento e pela presença de universidades, centros de pesquisa e empresas de base tecnológica.

Com a “Rede Embrapii USP”, essa experiência passa a integrar uma estrutura que abrange diferentes campi e áreas da Universidade.

O modelo financeiro também procura diminuir um dos obstáculos tradicionais enfrentados pelas empresas quando decidem investir em pesquisa de maior risco tecnológico. Os projetos funcionam pelo sistema conhecido como matching money: aproximadamente um terço dos recursos é aportado pela Embrapii, outro terço pelas empresas participantes e a parcela restante corresponde à contribuição da Universidade, por meio de pesquisadores, infraestrutura, equipamentos e conhecimento acumulado.

Ao compartilhar custos e riscos, o sistema permite que empresas avancem em projetos que poderiam ser difíceis de desenvolver isoladamente.

Do laboratório para o mercado

O desafio, porém, não termina com uma descoberta científica. Entre uma boa ideia produzida dentro da Universidade e um produto disponível no mercado existe um percurso que envolve desenvolvimento tecnológico, testes, validações, propriedade intelectual, investimentos e capacidade industrial.

É justamente nessa travessia que a “Rede Embrapii USP” pretende atuar.

O primeiro encontro presencial mostrou que, mais do que reunir dez centros sob uma mesma denominação, a intenção é criar mecanismos para que eles efetivamente trabalhem juntos. A programação foi dedicada à apresentação das competências de cada unidade e terminou com uma mesa-redonda sobre experiências práticas, relacionamento com empresas e formas de tornar mais ágil a transferência das tecnologias desenvolvidas na Universidade.

Nesse cenário, a experiência acumulada pelo IFSC/USP e pelo polo de São Carlos funciona como uma demonstração concreta do potencial dessa aproximação.

Os quase cem projetos realizados com empresas e os 40 produtos que chegaram ao mercado indicam que a conexão entre ciência e indústria pode produzir resultados que ultrapassam os indicadores acadêmicos.

Para Bagnato, é justamente aí que está um dos sentidos da inovação dentro de uma universidade pública: fazer com que o conhecimento de excelência produzido por seus pesquisadores também se transforme em respostas aos desafios encontrados fora dela.

Ao reunir física, inteligência artificial, medicina, engenharia, química, agricultura e outras áreas em uma mesma estrutura de cooperação, a “Rede Embrapii USP” aposta que a próxima grande inovação poderá não nascer de um único laboratório.

Ela poderá surgir justamente da conexão entre eles.

(Texto adaptado de notícia veiculada pelo “Jornal da USP” em 18 de setembro de 2026, da autoria de Michel Sitnik)

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