A lembrança mais remota que tenho da “Sessão Maldita” é o filme “Garoto Toshio” de Nagisa Oshima, assistido no “Cine Studio” (não me recordo se no I ou II) e, curiosamente, minha despedida de São Carlos em 1984, quando fui trabalhar em São Paulo, foi outro filme japonês: “Kaguemusha – a sombra do guerreiro”, já apresentado em 1981, um clássico de Akira Kurosawa.
José Sidney Leandro tinha grande admiração pelo cinema italiano e também pela cinematografia japonesa. Em 1979 programou um ciclo específico. Lembro-me bem porque na época um colega de alojamento-USP, Makoto Myakuni (por onde andará?), havia decidido dar aulas de japonês e durante cerca de um ano fui aluno e os filmes “caíam como uma luva”. O que mais me impressionou na ocasião foi “Rashomon”. Em “cadernos Chaplin” (n.12 e n.15), programação mensal, JSL apresentou um panorama da história e cinematografia nipônica.
Também não economizava elogios ao diretor de “O sétimo selo”, Ingmar Bergman (“Para Bergman, provavelmente o cinema assim como a maior parte das religiões, necessita de mistérios”), presença constante na programação, acrescentando aprofundada fortuna crítica sobre o cineasta sueco. E sublinhava a digital de Charles Chaplin (“Tudo teve início em Londres, a 16 de abril de 1889 …”), Pier Paolo Paolini (“Este artista, que é um dos grandes marcos da História da Arte”), Bernardo Bertolucci (“Um filme de Bertolucci é sinal de admiração e repulsa, desde a sua estreia até hoje”), Luchino Visconti (“Para mim … mais importante e o melhor diretor do cinema italiano e assim, da história do cinema”), Michelangelo Antonioni (“Cineasta inventor – no cinema a atual não há mais de meia dúzia – e mágico. Seu cinema é de magia, é ritualístico como toda grande arte”), Mauro Bolognini (“Um dos valores mais certos da Itália … um retratista inconformado, cuja audácia é velada pela estética e bom gosto”), Glauber Rocha (“Um cinema autêntico do terceiro mundo”), Damiano Damiani (“um dos diretores políticos mais sérios do cinema italiano”), Alfred Hitchcock (“É sem dúvida alguma um dos grandes mestres do cinema … o maior nome do suspense”), Orson Welles (“‘Cidadão Kane’ é o filme ocidental mais importante da História do Cinema”), Alain Resnais (“Um dos maiores gênios do cinema”), John Huston (“criador de grandes filmes”), Jacques Tati (“Um dos criadores mais originais da comédia cinematográfica, o último a realizar-se na simbiose entre o clássico e o moderno”), Carlos Saura (“A Espanha é o explícito objeto do desejo do diretor”), Roman Polanski (“Dose sábia de fantasia psicológica e de um leve humor negro, sempre estiveram destinados ao grande sucesso de crítica e de público”), Frederico Fellini (“Como em todos os filmes do diretor, é difícil separar o verdadeiro da ficção, o que se passa na tela e o que é autobiográfico”), Volker Schlondorff (“É competente, administra bem a linguagem cinematográfica e tem a dosagem certa para manter o público na expectativa”), Ridley Scott (“Suas obras, independentes do aspecto dramatúrgico, são imensamente belas. É um barroco por excelência”), (“Werner Herzog (“Bastante interessado no Brasil, escolheu para título original de ‘O enigma de Kaspar Hauser’ uma frase de Macunaíma, ‘Cada um por si e Deus contra todos’”), Krzysztof Kielowski (“A obra solicita o sabor da descoberta”), Peter Greenaway (“Pode ser inserido, sem a menor dúvida, entre os grandes artistas plásticos atuais. A plasticidade é elemento essencial no cinema e jamais pode ser eliminada! Sem ela, o cinema é mero registro de coisas em movimento (gente, bichos, plantas, máquinas…). Sem a plasticidade específica do cinema, este deixa de ser arte e … de volta estamos à ‘Lumière’”), Walter Hugo Khoury (“É o nosso diretor que melhor entra no intimismo dos personagens, por isso muitos o chamam de ‘o Bergman Brasileiro’ … mas Khoury não o imita, assimila e devolve com a marca de sua sensibilidade paulistana”), Hector Babenco (“Sem dúvida alguma, um dos melhores diretores do cinema contemporâneo”) e vai por aí afora … Das cineastas lembro-me dele destacando Lina Wertmuller, diretora de “Pascoalino Sete Belezas”, Ana Carolina (“Fosse ela europeia, estaria ao lado de Lina Wertmuller, de Liliana Cavani e Agnes Varda”) … e da nipo-brasileira Tizuka Yamasaki, de “Gaijin” (“O primeiro épico do cinema brasileiro”) …
Foram muitos os filmes da SM que provocaram emoção e que ecoam até hoje. Gostaria de destacar quatro filmes: “Música e Fantasia” de Bruno Bozzetto (“Contribuiu, na Itália, para destruir o equívoco, dominante entre o grande público, de que os desenhos são uma arte exclusivamente destinada a um público infantil”), com aplausos antes dos letreiros finais e o público aplaudindo em pé. Sensacional. Isto no “Cine Studio I”. Um outro que causou bastante espécie foi “Johnny vai a guerra” de Dalton Trumbo. Um público que saiu, digamos, angustiado, com nó na garganta. Um clima polar da plateia na saída …
No “Cine Avenida” o documentário “Corações e Mentes” de Peter Davies, sobre a guerra dos EUA contra o Vietnã. Um petardo que, visivelmente, deixou o público acabrunhado. Talvez, até, muitos evocando um … “yankees go home” … !
E houve um caso curioso. Creio que, se soubesse, o diretor de “Cine Paradiso”, Giuseppe Tornatore, teria incorporado no roteiro. Era um filme de terror: “Dança dos Vampiros” de Roman Polansky. E então morcegos começam a fazer rasantes diante da tela e … sobre a plateia. Alguém lançou uma, creio, bolinha de papel, que atingiu uma espectadora … e gritos … e sinais de pânico … e por aí vai … e o leitor pode imaginar.
Embora o preço do ingresso fosse abaixo da sessão normal, minha situação era absolutamente franciscana, daí que desde o começo comecei a acompanhar na UFSCar as preleções de JSL sobre os filmes. Assim podia entrar gratuitamente. Tinha o compromisso de distribuir folhetos na EESC, no Alojamento, no cursinho CAASO e na entrada das sessões. Quem usufruiu desta mesma tática foi o Everaldo “Béba” Oliveira, ainda residente em São Carlos, contemporâneo de EESC e de Alojamento … e que também se tornou um cinéfilo.
Em meados de 1978, recém-ingresso como monitor de “História do Brasil” no CV CAASO, Paulo Bento, professor de “História Geral” (depois prof Depto Produção – UFSCar), sugeriu-me retomar o cineclube, que estava desativado e exibir os filmes no CV CAASO. Assumi a tarefa.
Havia um projetor 16 mm e, lembro-me bem, com uma tarjeta onde se lia: “Acordo Mec-Usaid”. Incrível o Tio Sam que por ocasião de instalação (1942) da sede da UNE (fundada em 1937) na praia do Flamengo (RJ), na sede do “Clube Germania”, ocupada pelos estudantes por ocasião da declaração de guerra (1939-1945) contra a Alemanha e países do Eixo. O então governador de Nova York (1959-1973) Nelson Rockfeller (1908-1979), protagonista das relações EUA e América Latina, em visita oficial ao Brasil, disponibilizou … uma “Electrola”. E ainda patrocinaria a vinda de Walt Disney, Orson Welles e a ida de Carmem Miranda para Hollywood …
O CAASO estava inscrito na “Federação Paulista de Cineclube” e, assim, entrei em contato com a “Embrafilme”, na rua do Triunfo, para saber o que poderia ser feito. Gratíssima surpresa foi o fato de o CAASO ser oficialmente reconhecido como cineclube, além de ser representante dos estudantes da EESC-USP, e os filmes poderiam ser disponibilizados gratuitamente. Com catálogo dos filmes disponíveis fazia-se programação para o ano todo. Os “enlatados” eram-nos encaminhados às sextas-feiras e devolvidos nas segundas. Na época a “rodoviária” era vizinha ao Café D. Júlia (esquina da Av São Carlos com a rua 7 de Setembro). Pouco depois é que houve a inauguração da atual rodoviária. Criei no CV CAASO, inspirado nas SM, às sextas-feiras, após as aulas do noturno, a “Sessão Morcego”. Creio que o primeiro filme apresentado foi “O Cangaceiro” de Lima Barreto e depois “Vidas Secas” de Nelson Pereira dos Santos … e “A Noite do Espantalho” de Sérgio Ricardo, etc. Fato é que foi possível entrar em contato com a cinematografia brasileira e que, neófito em cinema tive de sair correndo atrás de uma bibliografia sobre o cinema brasileiro. Tenho até hoje o primeiro livro adquirido na época: “Hollywood na cultura brasileira” de Cláudio De Cicco.
No salão do CAASO cheguei a projetar “Garrincha, alegria do povo”. Na ocasião lotou, pois houve a confluência de dois fatos: a “Copa do Mundo” na Argentina e a greve estudantil que culminou com a perda de semestre. Outro fato marcante foi durante a realização de encontro do “Movimento Negro Unificado”. Chamaram-me no Alojamento para que fosse fazer a projeção de filmes. Lembro-me, vagamente, que um deles era um documentário produzido na então Alemanha Oriental e versava sobre a guerra no Camboja … e outro sobre repressão no Chile (ou na Argentina?) … mas, não me recordo se, de fato, fazia parte da programação do evento ou se foi algo extemporâneo.
Em seguida, outros caasianos assumiram a gestão do “Cineclube Clube”. Neste período um filme exibido no Anfiteatro da EESC que se incorporou definitivamente à minha cinefilia foi “A Ilha Nua” de Kaneto Shindo e ainda hoje tenho o folheto distribuído (ver apêndice). Continuei projeção no CV CAASO, aos sábados à tarde. E, já em tempos de vídeocassete, foi feito acordo com a locadora OMNI-VIDEO que, em troca de divulgação, disponibilizava uma TV (enorme) e filmes para a exibição. Fazíamos programação de películas que complementassem os cursos de História do Brasil, História Geral e Literatura.
Em suma, foi assim que tendo a “Sessão Maldita” e a maestria de José Sidney Leandro como referência, que me tornei cinéfilo.
Para concluir, solicitei a dois contemporâneos dos tempos áureos da SM, registros memorialísticos, “absurdamente subjetivos”. Ei-los:
“SUBJETIVAMENETE ACRÔNICA, COM MALDITA PEDAGOGIA”
Fernando Triques, Zebuino.
– Oi, você vai?
– Não sei, talvez…
– Vamos, é bom.
– Você leu o folheto?
– Nem precisa. De certo será muito legal. Eles escolhem com critério. Dizem, inclusive, que tem uma fotografia do tipo impressionista.
– Impressionista é?!
– E um lado futurista…
– Vixe! Coisa de intelectual. O da semana passada foi interessante. O nome não é fácil, mas inesquecível: “Koyaanisqatsi”… deve ser isso!
– Sim, eu fui. Fiquei encucado. Saí meio zureta, caótico das ideias. Cinema-Arte da melhor qualidade, natural versus artificial…
– Aleatórias imagens… Além da qualidade, o pessoal da programação deve lidar com a disponibilidade dos rolos nas distribuidoras.
– É preciso programar. Dá trabalho, mas parece recompensador. Mobiliza os estudantes e boa parte da cidade todas as semanas.
– Já pensou… toda semana, há mais de 15 anos! Desde 1973, eu acho.
– Nossa, tudo isso?!
– Quando começou, era no Cine São Carlos, o da praça central, a das pombas, mas foi demolido.
– Agora rola lá nos Studios, na rua Major, né?
– Os únicos cinemas da cidade! Lado a lado… Não tem muito o que fazer…
– É, faz um bom tempo. Eu sou daqui e desde a época do colégio acompanho. De primeiro, achava que era só coisa de sacanagem…
– Coisas eróticas, proibidas ou malditas. É o que dizem!?
– Cheguei a assistir alguns… A carteirinha de estudante tinha a data de nascimento alterada. Censura brava! Preconceito e a eterna moral conveniente.
– Mas parece que mudou, afrouxou… Eu sempre vou, desde que cheguei em São Carlos. Desde que entrei na Federal.
– “Você tentouuuu e não conseguiuuuu”…
– Babaca! Chupa, CAASO!
– Ara, ara, inverteu! Invente uma outra… Mas, sério, o fato é que se não fosse o empenho, não rolava…Digo, do grupo responsável pela programação.
– Podemos ir, então?
– Creio que sim, só espero que não seja como o “Solaris”. Cara, eu dei uma baita cochilada…
– Que é aquilo? Que monótono… dizem, os entendidos, que o tema é o “espelho da alma”?!
– Quando acordava, parecia que já tinha visto a mesma cena …
– Eu não aguentei… Minha “alma” quis sair antes do fim! Fui para o DCE.
– Eu fiquei até me acordarem… Depois, dei uma parada no “Café do Centro” e tinha muita gente …
– E, como sempre, sem ao menos tomar nem mesmo um cafezinho, presenciou as mais chapadas discussões entre a estudantada.
– Inclusive sobre o filme, em fragmentadas opiniões: “Achei 2001 muito mais legal…”; “É uma imersão, o espaço é o de dentro…”; “cara, não entendi patavina…”; “aquela cena, então, a água fica passando …”, “um caniço pensante, diria Pascal”…
– Como sempre, deve ter ouvido os mesmos papos: “Acho isso…”; “pois é…”; “pode acreditar, muito gostosa…”; “sem dúvida, lá na república…”; “…a UMESC puxa a greve…”; “…vai se candidatar a vereador, virar profissional?”
– Na minha opinião, tirando esse de meu gosto subjetivamente pessoal, em destacado pleonasmo… Ao longo dos anos, cada um melhor que o outro… com caráter formador, educativo.
– Também acho… muito aprendizado. Roteiro, tomada de cena, interpretação, locação, fotografia, iluminação, trilha sonora… ufa!
– Lembro-me de alguns: “Apocalypse now”, “Violência e paixão”, alguns do Pier Paolo Pasolini, do Marco Ferreri, Ettore Scola, do Bertolucci, sem falar do Fellini e de outros italianos. Os espanhóis, “Mamãe faz 100 anos”…
– Sem falar do Akira Kurosawa, dos alemães, “O enigma de Kasper Hauser”, dos poloneses, do Bergman e de um tal de “Morangos Mofados”, esse bem difícil também…
– “Mofados”, não! “Silvestres”. “Mofados” é do Caio Fernando Abreu.
– E de muitas atrizes… “Tess”, “A festa de Babette”, “Moscou não acredita em lágrimas”, “Girassóis da Rússia” …
– E muitos atores… “Pascoalino sete belezas”, “Mimi, o metalúrgico”, “O baile”, “Era uma vez na América”, “1900”, “Jonas que terá 25 anos no ano 2000”.
– E, os franceses também, o dessa semana é do Jacques Tati, “Meu Tio”.
– Vamos, então!
– Fechado, imperdível, como sempre. A gente se encontra nove e meia, quinze pras dez na porta do cinema (..)”.
E um depoimento de Everaldo “Béba” Oliveira, que disponibilizou muitos “folhetos Chaplin”. Ex-morador do Alojamento e autor/diretor de inúmeros esquetes teatrais apresentados nos “Show Engenharia” e “Xou Vixe” no salão do CAASO:
“(..) Consegui passar no vestibular e vim estudar Engenharia aqui na USP, na EESC, em 1978. Sempre gostei de cinema, inclusive, fui bilheteiro de um aos 15 anos, mas não tinha ainda noção do que realmente era Cinema. Deparei, então, com a tal ‘Sessão Maldita’ … fui uma, duas, três … e acho que mais de cem vezes…Tornou-se um compromisso às 3.as ou 4.as feiras às 22 hs. Lembro-me que no início alguns filmes me pareceram estranhos, pra não dizer ‘difíceis’, mas haviam uns folhetos que eram distribuídos gratuitamente, com a sinopse e comentários sobre os filmes, ficha técnica (diretor, atores, fotógrafo, roteirista, etc) que ajudavam bastante a ‘entender’ o filme, seu contexto, etc. Aos poucos fui ‘aprendendo’ ou ‘reaprendendo’ o que é Cinema.
O repertório dos filmes era muito interessante e variado, bem diferente do que até então, eu estava acostumado, o ‘cinemão comercial’ que se resumia a entretenimento …
A Sessão Maldita fez minha cabeça e de muitos outros …ampliando nossos conceitos, ‘visão de mundo’ e de assuntos os mais variados possíveis (política, cultura, amor, sexo, ciência, religião, psicologia, filosofia, etc). Assim foi a descoberta do que passou a ser rotulado como ‘cinema de autor’, ‘cinema de arte’ ou simplesmente ‘cult’ (‘cult movie’). Adquirimos, pode-se dizer, uma ‘formação’ e tornamo-nos cinéfilos.
Mas, para além disso, a Sessão Maldita era também um encontro, um evento sociocultural, que levava vários ‘grupinhos’, duplas, ou simplesmente individualmente .. as seguirem pela Avenida São Carlos em direção ao cinema naquelas noites, muitas vezes friolentas.
Na saída, muitos passavam no “Café do Centro’, ‘pra tomar uma’ e sempre rolavam discussões e comentários sobre o filme exibido. Ali também acabava tendo ‘encontro’ das pessoas e a troca de ideias e notícias da comunidade estudantil, principalmente da USP e da UFSCar, ‘Federal’.
A importância da Sessão Maldita foi inigualável, em muitos sentidos … poderia ser, de fato, ser chamada de ‘Bendita’, pelo bem que fez e deixou em nós … Que saudade! (..)”.








