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Livro resgata 130 anos da Vila Prado e transforma memórias em patrimônio cultural de São Carlos

Foto: Paulo Melo / São Carlos FM

PAULO MELLO
Da redação

Uma entrevista especial exibida no programa Primeira Página no Ar, da São Carlos FM, na manhã desta segunda-feira (12), colocou em evidência um trabalho que une memória, identidade e história local: o livro “Vila Prado, Entre Ruas e Memórias”. A obra foi apresentada pelos entrevistados Adilson Marques, organizador do projeto, pela pesquisadora Maria Lúcia Derisso e pelo professor Antonio da Silva (Toninho), que também contribui com textos e reflexões sobre o bairro.

Produzido no âmbito da FESC (Fundação Educacional São Carlos) e editado pela Prefeitura de São Carlos, o livro nasce da necessidade de registrar e preservar a trajetória de um dos bairros mais antigos da cidade, que completou 130 anos em 2023. O lançamento, inicialmente previsto para aquele ano, acabou sendo viabilizado em 2025, após um longo processo de pesquisa, organização e produção coletiva.

Um projeto que nasce da educação e da memória

Durante a entrevista, Adilson Marques explicou que o livro é o quinto já produzido com alunos da Universidade Aberta da Terceira Idade (UATI), programa mantido pela FESC. Professor da instituição desde 2003, ele atua há duas décadas com produção de textos e projetos literários. A escolha da Vila Prado como tema foi motivada tanto pelo aniversário do bairro quanto pelo fato de muitos alunos residirem na região e a própria FESC manter uma unidade no local.

“O objetivo sempre foi valorizar o território onde a escola está inserida e as pessoas que fazem parte dele”, explicou Adilson. Segundo ele, o livro foi estruturado em três partes: a primeira, de caráter histórico, escrita por Maria Lúcia; a segunda, composta por textos literários de alunos da UATI; e a terceira, resultado de um concurso realizado com pessoas acima de 60 anos que viveram ou ainda vivem na Vila Prado, reunindo 12 relatos selecionados.

Pesquisa histórica com forte vínculo afetivo

Responsável pela abertura da obra, Maria Lúcia trouxe para o livro não apenas pesquisa acadêmica, mas também uma relação pessoal profunda com o bairro. Moradora da Vila Prado há praticamente toda a vida, ela contou que chegou à região ainda bebê e hoje, aos 70 anos, mantém residência no mesmo local. Filha de família ligada à história da cidade — seu pai nasceu na antiga Fazenda Bela Vista, que deu origem a bairros da região —, ela destacou que o projeto foi também uma realização afetiva.

A primeira parte do livro apresenta um recorte histórico que vai do final do século XIX até a década de 1970, abordando a formação do chamado “Grande Vila Prado”, que inclui áreas como Bela Vista e Boa Vista. Maria Lúcia explicou que o trabalho envolveu extensa pesquisa em periódicos antigos, especialmente no jornal Correio de São Carlos, além de livros históricos, microfilmes e acervos da Fundação Pró-Memória. Também foram utilizadas fotografias de arquivos particulares, como o do fotógrafo alemão Geller, sempre respeitando autorizações e critérios de uso.

“Se essa história não for registrada, ela se perde. As pessoas vão embora, as memórias se apagam”, afirmou durante a entrevista, ressaltando a importância de documentar relatos que antes existiam apenas de forma oral.

Um bairro operário e sua identidade

O professor Toninho destacou que a relevância da Vila Prado vai além do aspecto local. Segundo ele, trata-se de um bairro com origem operária, marcado pela presença da ferrovia e por uma clara divisão social no início da cidade. Enquanto fazendeiros e elites ocupavam a região central, trabalhadores ferroviários e industriais se estabeleceram acima da linha do trem, na Vila Prado.

Esse contexto, segundo o professor, gerou preconceitos históricos, mas também construiu uma identidade forte e singular. “Não é bairrismo. É uma história que precisa ser contada”, afirmou. Ele lembrou ainda que a Vila Prado foi o primeiro loteamento oficialmente reconhecido como bairro em São Carlos, embora a Vila Nery seja ligeiramente mais antiga em termos cronológicos, mas à época considerada distrito.

Ruas, travessas e símbolos do bairro

A entrevista também percorreu detalhes curiosos da formação urbana da Vila Prado. O bairro surgiu a partir do loteamento de cerca de 50 alqueires da fazenda do Coronel Leopoldo de Almeida Prado, de quem herdou o nome. Suas ruas e travessas, inicialmente numeradas, ainda hoje são identificadas dessa forma por muitos moradores. A FESC, por exemplo, está localizada na antiga Travessa 8, hoje Rua Itália.

Outro símbolo central do bairro é a Igreja de Santo Antônio, cuja pedra fundamental foi lançada em 1943. Inaugurada ainda inacabada em 1949, a igreja só teve suas obras finalizadas em 1962 e segue passando por reformas até hoje. Em 2023, ela foi eleita, por votação popular, o principal ponto das “sete maravilhas da Vila Prado”, iniciativa que resultou na criação de um mapa lúdico do bairro.

Cultura viva e novos desdobramentos

Da disciplina Cultura e Memória, ministrada na FESC, nasceu também o Instituto de Cultura e Memória da Vila Prado Professor José do Prado Martins, uma ONG criada para preservar não apenas a história tradicional, mas também a produção cultural contemporânea do bairro. O instituto mantém núcleos de música, teatro e outras expressões artísticas, sempre com foco na identidade local.

A entrevista trouxe ainda um relato emocionante: um dos autores da terceira parte do livro, Luiz Antônio, enviou seu texto poucas horas antes de falecer. O episódio reforçou, segundo Adilson, a urgência de registrar memórias que, de outra forma, se perderiam para sempre.

Distribuição e acesso ao livro

Viabilizado por meio de emenda parlamentar do vereador Djalma Nery (PSOL), o livro teve cerca de 500 exemplares impressos, distribuídos em eventos culturais. Além disso, a obra está disponível em versão digital (PDF). Um dos anúncios mais celebrados na entrevista foi a parceria com o Jornal Primeira Página, que publicará o conteúdo em fascículos semanais, permitindo que leitores colecionem as partes e montem o livro completo ao longo de alguns meses.

Ao final da conversa, os entrevistados manifestaram o desejo de uma segunda edição e de novos projetos semelhantes, ampliando o olhar para outros bairros históricos de São Carlos. Para eles, o livro “Vila Prado, Entre Ruas e Memórias” é apenas o começo de um movimento maior de valorização da memória urbana e da cultura local.

 

Assista a entrevista completa abaixo:

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