(*) Rui Sintra
Há uma doença antiga no futebol de Portugal e do Brasil: confundir talento com superioridade, esperança com certeza e entusiasmo com competência.
A Copa do Mundo de 2026 voltou a provar que camisas históricas, jogadores famosos e discursos inflamados não vencem partidas.
Portugal e Brasil chegaram ao Mundial apresentados como candidatos ao título. Não faltaram previsões otimistas e elogios às convocatórias, nem análises sobre a quantidade de jogadores que atuavam nos principais clubes europeus. Em alguns momentos, parecia que o mais difícil já estava feito. Bastaria entrar em campo, confirmar a superioridade imaginada e avançar tranquilamente até às últimas fases.
O futebol, felizmente, continua a ter a capacidade de destruir narrativas exageradas, até porque a bola é redonda e não quadrada.
O Brasil derrotou o Japão por 2–1 nos dezesseis-avos de final, mas caiu nos oitavos diante da Noruega, também por 2–1. Portugal venceu a Croácia por 2–1 e, poucos dias depois, perdeu por 1–0 para a Espanha, com um gol sofrido aos 91 minutos. As duas seleções foram eliminadas nos oitavos de final, muito antes daquilo que os seus adeptos, dirigentes e comentadores esperavam.
Não considero essas eliminações simples acidentes. Para mim, foram o resultado previsível de equipas excessivamente elogiadas antes de demonstrarem, dentro de campo, que estavam preparadas para conquistar o mundo.
Portugal – Muitos nomes, pouca autoridade
Portugal levou para o Mundial uma geração valorizada, experiente e tecnicamente competente. Por isso mesmo, a eliminação não pode ser explicada com desculpas confortáveis.
A seleção portuguesa ultrapassou a Croácia por 2–1, num jogo que rapidamente provocou uma onda de confiança. O resultado foi tratado como demonstração de força. A vitória, porém, também escondia dificuldades que deveriam ter sido analisadas com maior seriedade.
Portugal não era uma equipa dominante. Era uma equipa capaz de produzir bons momentos, mas também de se eclipsar durante períodos importantes dos jogos. Tinha jogadores talentosos, mas não apresentava sempre uma ideia coletiva suficientemente clara.
Contra a Espanha, essas limitações ficaram expostas. Portugal resistiu durante quase toda a partida, mas foi incapaz de impor o seu jogo e acabou derrotado por um gol tardio de Mikel Merino. A Espanha não venceu por acaso. Venceu porque soube controlar melhor os momentos do encontro e manteve a organização até ao fim.
Não há vergonha em perder para a seleção que viria a conquistar o Mundial. A vergonha estaria em usar a qualidade do adversário para evitar uma análise honesta dos próprios erros.
Portugal entrou em campo mais preocupado em impedir a Espanha de jogar do que em afirmar o seu próprio futebol. Respeitou o adversário, mas respeitou-o em excesso. Uma seleção que se apresenta como candidata ao título não pode comportar-se como se estivesse satisfeita por sobreviver.
Faltou agressividade com bola, faltou velocidade na circulação e faltou coragem para assumir riscos calculados. Houve momentos em que Portugal parecia esperar que uma jogada individual resolvesse aquilo que o coletivo não conseguia construir.
Esse é um dos grandes problemas portugueses: a seleção possui jogadores suficientes para formar uma grande equipe, mas nem sempre consegue transformar essa abundância em superioridade dentro de campo.
A qualidade individual tornou-se uma espécie de argumento automático. Sempre que alguém apontava fragilidades, surgia a lista de jogadores que atuavam nos maiores clubes. Como se o nome do clube substituísse o rendimento pela seleção. Como se uma convocatória prestigiosa garantisse uma equipe organizada.
Não garante.
No futebol, onze excelentes jogadores não formam obrigatoriamente uma excelente equipe. É preciso coordenação, complementaridade, intensidade e uma estratégia que não desapareça diante do primeiro adversário verdadeiramente poderoso.
Brasil – Cinco títulos não entram em campo
No Brasil, a situação é ainda mais grave porque a seleção continua prisioneira da sua própria história.
Antes de cada Copa do Mundo, repete-se o mesmo ritual. Fala-se no “Hexa”, recuperam-se imagens de Pelé, Romário e Ronaldo, compara-se a geração atual às grandes equipes do passado e transforma-se qualquer sequência de vitórias numa prova de favoritismo.
O Brasil parece entrar em cada Mundial acreditando que o seu passado exercerá alguma influência sobre o presente. Não exerce…
Os cinco títulos estão nos livros, nos museus e na memória dos adeptos. Não estão dentro de campo para marcar, defender ou corrigir erros táticos.
A vitória por 2–1 sobre o Japão deveria ter servido como aviso. O Brasil avançou, mas não transmitiu a segurança de uma equipe pronta para conquistar o campeonato. Em vez de prudência, surgiu novamente a empolgação. Os problemas foram relativizados e a classificação foi tratada como confirmação da força brasileira.
Depois apareceu a Noruega.
Sem a tradição brasileira, mas com organização, disciplina e eficiência, os noruegueses venceram por 2–1 e eliminaram o Brasil nos oitavos de final. O gol brasileiro, marcado já nos descontos, não alterou o essencial: a seleção voltou a perceber tarde demais que uma Copa do Mundo exige mais do que talento ofensivo e reputação.
O Brasil demonstrou novamente uma perigosa incapacidade para equilibrar ataque e defesa. Quando tinha a bola, avançava com vários jogadores. Quando perdia a posse, demorava a reorganizar-se. Os espaços apareciam, os setores afastavam-se e a defesa ficava exposta.
Contra adversários disciplinados, esse comportamento é um convite ao desastre.
A seleção brasileira continua fascinada pela figura do jogador decisivo. Procura-se sempre alguém que drible dois adversários, marque um grande golo e salve a equipe. Essa dependência de salvadores individuais é uma maneira de esconder a ausência de soluções coletivas.
Uma equipe campeã não pode depender permanentemente de milagres. Precisa saber controlar partidas, reduzir riscos, defender com seriedade e reconhecer quando o jogo exige paciência.
O Brasil não perdeu porque lhe faltavam jogadores conhecidos.
Perdeu porque a Noruega foi mais competente naquele encontro. E enquanto os brasileiros continuarem a tratar derrotas como acontecimentos inexplicáveis, continuarão a repetir os mesmos erros.
A imprensa ajudou a fabricar candidatos
Também é necessário falar sobre a responsabilidade da imprensa e dos comentadores.
Portugal e Brasil foram transformados em candidatos ao título muito antes de apresentarem um futebol correspondente com essa condição. Bastava uma vitória convincente para surgirem elogios grandiosos. Bastava um jogador marcar dois golos para ser elevado à categoria de herói nacional.
Os problemas táticos eram tratados como pormenores. As dificuldades defensivas eram explicadas como falta de concentração momentânea. A lentidão na construção era justificada pela necessidade de gerir o esforço.
Tudo tinha uma explicação tranquilizadora.
Essa cobertura ajuda a criar uma realidade paralela na qual as seleções são sempre melhores do que realmente demonstram.
Quando chega a eliminação, os mesmos que alimentaram a euforia passam a procurar culpados, exigir demissões e classificar a campanha como uma vergonha nacional.
Primeiro vendem a ilusão. Depois exploram a desilusão.
O jornalismo desportivo deveria ajudar os adeptos a compreender o jogo, e não apenas ampliar emoções. Criticar uma seleção antes da derrota não significa desejar que ela perca. Significa reconhecer problemas enquanto ainda existe tempo para corrigi-los.
A confiança é saudável. A propaganda, não.
Treinadores não podem ser apenas gestores de estrelas
As responsabilidades também recaem sobre as equipes técnicas.
Treinar Portugal ou o Brasil não pode resumir-se a administrar egos, escolher os jogadores mais famosos e esperar que a qualidade individual resolva as partidas. Um selecionador deve construir uma equipa reconhecível, capaz de adaptar-se sem perder identidade.
Nos momentos decisivos, tanto Portugal como o Brasil demonstraram dificuldades para alterar o rumo dos jogos.
Portugal não encontrou uma resposta eficaz para o controlo espanhol. O Brasil não conseguiu neutralizar as transições norueguesas. As mudanças realizadas não foram suficientes para corrigir os problemas estruturais.
Existe uma ideia simplista no futebol segundo a qual colocar mais avançados significa atacar melhor. Muitas vezes, significa apenas aumentar a desorganização. Uma equipe pode terminar com quatro ou cinco jogadores ofensivos e, mesmo assim, criar menos oportunidades porque perde o controlo do meio-campo.
Os treinadores precisam tomar decisões antes de o desespero dominar. Precisam substituir jogadores importantes quando estes não estão a render. Precisam abandonar o respeito por estatutos e escolher de acordo com as necessidades da partida.
Uma Copa do Mundo não é uma cerimónia de homenagem. Não se deve jogar pelo currículo, pela fama ou pelo passado. Deve jogar quem estiver preparado para ajudar a equipa naquele momento.
A arrogância disfarçada de confiança
A empolgação em torno de Portugal e Brasil também revelou uma arrogância disfarçada de confiança.
Não foi necessariamente uma arrogância declarada pelos jogadores. Foi uma arrogância coletiva, construída ao redor das seleções. A ideia de que certos adversários seriam facilmente superados. A convicção de que o talento acabaria por resolver qualquer dificuldade. A crença de que uma eliminação precoce só poderia acontecer por azar, arbitragem ou algum acontecimento extraordinário.
Mas os resultados não foram extraordinários. Foram futebol.
A Noruega aproveitou os erros brasileiros. A Espanha foi mais competente do que Portugal. Não houve conspiração nem injustiça suficiente para explicar as eliminações. Houve equipes que fizeram melhor aquilo que era necessário.
É preciso respeitar mais os adversários sem, no entanto, entrar em campo com medo deles. Esse equilíbrio faltou às duas seleções.
O Brasil pareceu subestimar a capacidade norueguesa de explorar os espaços. Portugal, pelo contrário, respeitou tanto a Espanha que acabou por lhe entregar a iniciativa. Um errou pelo excesso de confiança; o outro, pelo excesso de cautela.
Ambos pagaram o preço.
O talento não pode continuar a servir de desculpa
Após cada eliminação, ouve-se que Portugal e Brasil possuem gerações muito talentosas e que o futuro continuará a ser promissor.
Pode ser verdade. Mas o talento não pode continuar a servir de desculpa para campanhas insuficientes.
Quanto mais qualidade existe numa equipe, maior deve ser a exigência. Não faz sentido elogiar a profundidade dos plantéis antes da competição e, depois da derrota, pedir compreensão porque o futebol é imprevisível.
O futebol é imprevisível, mas não é inexplicável.
Portugal caiu porque criou pouco e permitiu que a Espanha controlasse o jogo até encontrar o gol. O Brasil caiu porque voltou a expor-se defensivamente e não conseguiu controlar um adversário organizado.
Esses erros podem ser identificados, analisados e corrigidos. O que não se pode fazer é escondê-los atrás de frases sobre falta de sorte ou pequenos detalhes.
Os títulos são decididos por pequenos detalhes justamente porque as grandes equipes trabalham para controlá-los.
Menos discursos e mais equipe
A participação de Portugal e do Brasil na Copa do Mundo de 2026 deveria provocar uma mudança de atitude.
Portugal precisa parar de acreditar que uma convocatória recheada de jogadores dos grandes clubes europeus representa automaticamente uma geração destinada ao título. O país tem qualidade, mas precisa de uma seleção mais corajosa, intensa e coletivamente afirmativa.
O Brasil precisa abandonar a ideia de que a sua história lhe concede alguma vantagem permanente. Os cinco títulos merecem respeito, mas não intimidam adversários preparados. O sexto campeonato não será conquistado pela força da memória.
As duas seleções precisam de menos propaganda, menos procura por salvadores e menos celebrações antecipadas. Precisam de treinadores capazes de construir sistemas equilibrados, jogadores dispostos a servir o coletivo e dirigentes que tenham coragem para reconhecer as deficiências.
Acima de tudo, precisam compreender que a empolgação dos adeptos não pode transformar-se em cegueira.
Eu continuarei a torcer e a reconhecer o potencial de Portugal e do Brasil. Mas recuso-me a tratar bons jogadores como garantia de títulos. Uma equipe só merece ser considerada favorita quando demonstra essa condição repetidamente dentro de campo.
No Mundial de 2026, Portugal e Brasil foram campeões apenas das expectativas. Quando chegou o momento de confirmar o favoritismo, faltou-lhes aquilo que nenhuma campanha publicitária consegue fabricar: futebol consistente, maturidade competitiva e capacidade para vencer os jogos que realmente importavam.
Desculpem este meu desabafo, certamente de quem não entende nada de futebol.
(*) O autor é jornalista profissional/correspondente para a Europa pela GNS Press Association / EUCJ – European Chamber of Journalists/European News Agency). Presidente do “Fórum Brasil / Portugal – São Carlos (SP) – MTB 66181/SP.
Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Jornal Primeira Página sobre o assunto.








