PAULO MELLO
A três dias da votação das eleições de 2026, a tendência de concentração de votos nos principais candidatos à Presidência da República e o chamado “voto útil” devem ganhar força na reta final da campanha. A avaliação é do jornalista João Marcos Gomide, que participou nesta sexta-feira (2) do programa Primeira Página no Ar, da São Carlos FM, e analisou pesquisas eleitorais, o comportamento do eleitor e possíveis cenários para as disputas nacional e estadual.
Pesquisas eleitorais
Durante a entrevista, Gomide comentou os números apresentados pelo Datafolha, que apontavam o presidente Lula com 42% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro com 38%. Para ele, a comparação com o primeiro turno de 2022 ajuda a compreender a possibilidade de migração de votos de candidatos com menor desempenho para os dois nomes mais competitivos.
“Eu acho que nós vamos caminhar nesta eleição, de hoje [sexta-feira], até o domingo, dia da eleição, com muitos eleitores de outros candidatos correndo para votar ou em Lula [da Silva] ou em Flávio Bolsonaro”, afirmou. Segundo Gomide, o movimento pode repetir, em alguma medida, o que ocorreu há quatro anos, quando eleitores anteciparam no primeiro turno uma escolha que inicialmente seria feita apenas em eventual segundo turno. “O que é o voto útil? É você antecipar no primeiro turno o seu voto do segundo turno. Eu acho que está em curso, mais uma vez, o voto útil”, explicou.
O jornalista também destacou que suas projeções consideram três elementos: o histórico das eleições anteriores, as pesquisas divulgadas durante a campanha e o comportamento dos candidatos na propaganda eleitoral. “De fato, não faço análise por torcida, coração ou paixão. Estudo os números de uma eleição para presidente”, disse. Ele lembrou que pesquisas realizadas na reta final de 2022 registraram diferenças significativas em relação ao resultado efetivamente apurado nas urnas.
Debate cancelado
Outro tema abordado foi o cancelamento do debate presidencial que seria realizado pela TV Globo. Gomide avaliou que decisões judiciais tomadas às vésperas do encontro alteraram regras previamente acertadas entre emissora e campanhas, criando, na visão dele, um ambiente de insegurança jurídica. “Eu vejo o que aconteceu nesta quinta-feira à noite, no Rio de Janeiro, na preparação para o debate da Globo, com tristeza”, afirmou. Para o jornalista, a emissora tomou a decisão correta ao não realizar o encontro diante das mudanças de última hora. “Eu acho que foi acertada, principalmente porque eu não sei o que seria permitido e não permitido no debate”, declarou.
Na disputa pelo Governo de São Paulo, Gomide afirmou acreditar que a eleição pode ser definida ainda no primeiro turno. A análise também foi construída a partir da comparação com 2022, quando pesquisas realizadas às vésperas da votação não anteciparam integralmente o crescimento registrado por Tarcísio de Freitas nas urnas. O jornalista destacou ainda a diferença de comportamento entre os eleitores da Região Metropolitana de São Paulo e do interior, que teve peso significativo no resultado daquela eleição.
Eleições em São Carlos
Ao tratar especificamente de São Carlos, Gomide ressaltou que o município apresenta características eleitorais diferentes de outras cidades do interior paulista. Ele citou como exemplo o desempenho de candidatos ligados ao campo da esquerda em eleições anteriores e lembrou que, em 2024, o ex-prefeito Newton Lima obteve cerca de 50 mil votos na disputa municipal. Para o jornalista, esse histórico coloca Newton entre os candidatos locais com maior potencial eleitoral na disputa de 2026, embora o desempenho também dependa da estrutura partidária e da capacidade de conquistar votos fora de São Carlos.
A falta de representantes próprios de São Carlos na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados também ganhou destaque. Gomide lembrou que, em 2022, a maior parte dos votos para deputado federal registrados no município foi destinada a candidatos de outras cidades. “Para deputado federal, 11% desses 125 mil votos foram para candidatos locais de São Carlos e 89% para candidatos de fora”, afirmou. Para deputado estadual, segundo os números apresentados por ele, 43% dos votos ficaram com candidatos locais e 57% foram destinados a nomes de outras regiões.
Na avaliação de Gomide, a ausência de representação parlamentar direta pode reduzir a capacidade de articulação regional em busca de recursos e investimentos. O jornalista defendeu, como reflexão, a adoção do voto distrital, sistema em que cada região teria representantes diretamente vinculados a determinado território. Ele ressaltou, porém, que a decisão do eleitor deve ser respeitada. “Eu não sou o ombudsman do voto de ninguém. Sempre acho que você tem que votar conforme a sua convicção”, afirmou.
A entrevista encerrou destacando a importância de analisar o processo eleitoral a partir de dados, pesquisas e resultados históricos, especialmente em uma disputa marcada pela polarização e pela possibilidade de mudanças significativas no comportamento do eleitor até domingo. A São Carlos FM também informou que terá programação especial durante o dia da eleição, com entrevistas, análises e acompanhamento da apuração.








