No dia 11 de fevereiro de 2026, um secretário municipal de Itumbiara (GO) atirou contra seus dois filhos (de 8 e 12 anos), enquanto a mãe estava viajando, e depois tirou a própria vida. O filho mais velho veio a óbito.
De acordo com o portal de notícias Metrópoles, o atirador de 40 anos deixou uma mensagem de despedida, inicialmente publicada em redes sociais e depois apagada. Na mensagem, ele culpa a esposa pelos próprios atos, pois ela o teria traído.
Notícias trágicas como esta são as que geram indignação e raiva. Mas, raiva de quem?
Seguindo as primeiras publicações do caso, se tornou comum um discurso de que: “a esposa provocou” ou que “se não quisesse perder os filhos era só não trair”.
Nestas falas, quem matou um filho e tentou matar o outro, vira vítima. E a mulher se torna ainda pior do que o assassino. Se invertem os pesos e medidas. E o questionamento de “se uma traição é motivo para se matar crianças?”, se torna afirmação.
Isto tudo reflete a discussão sobre o lugar-gênero e sobre o que a mulher pode ou não escolher. Porque, o fim não foi direcionado a quem quebrou o acordo de relacionamento. Foi direcionado a quem deixou de amar o marido, apenas ela está sendo culpada.
Uma vez que a esposa não escolheu unicamente o marido, o narcisismo dele não suportou não ser o único destino de amor. E, se não pôde controlar pelo amor, decidiu-se controlar com a dor, com a morte. Como se isso fosse um direito dele.
O sentimento de que “tinha um direito de posse” sobre a esposa era tão perverso, que se criou um mecanismo de exercê-lo mesmo do túmulo. Pois ele não decidiu só encerrar a relação ou apenas recorreu ao suicídio. Ele optou por extinguir o que ela amava e fugir das consequências. Foi um ato deliberado de causar sofrimento máximo.
O amor, para a Psicanálise, é uma das forças que movimenta a vida, que humaniza. Funciona como uma sustentação da mente e do psiquismo pela qual se reconhece o outro e se forma a consciência de si.
Já o controle é um mecanismo de defesa contra as angústias, frustrações e ansiedades. Pelo qual, ao controlar excessivamente, se tem um prazer na dominação do outro. Presente inclusive em relações desiguais entre homens e mulheres. Mas, se esse outro foge da dinâmica, o que surge é a agressividade (o desejo pela morte do outro).
Tendo tudo isto em mente, é importante se considerar o papel da Psicologia e da psicoterapia. Para que seja possível ser capaz de lidar com as próprias questões; com os amores; entender que o outro não deve ser posse; para que as relações sejam mais igualitárias; entender que não se pode culpar os outros por ações próprias; e para que pessoas com questões não tratadas, não cometam tragédias anunciadas.
Psicólogo Matheus Wada Santos (CRP 06/168009)
Psicanalista especializado em gênero e sexualidade
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