Erro normalizado, educação desvalorizada

Azuaite Martins de França

O episódio ocorrido em uma escola cívico-militar de Caçapava, no interior paulista, expôs mais do que erros ortográficos cometidos por um militar em sala de aula. Expôs, sobretudo, uma concepção equivocada de educação. As palavras “descançar” e “continêcia”, escritas na lousa, ganharam repercussão nacional após serem exibidas no noticiário e amplamente comentadas nas redes sociais e na imprensa.

Diante da reação negativa, o governador Tarcísio de Freitas optou por minimizar o ocorrido. Em declarações públicas, afirmou que “quem não erra?”, tentando normalizar o episódio e reforçando que os militares não estariam ali para ensinar conteúdos, mas para garantir disciplina e postura. A fala, longe de pacificar o debate, acirrou ainda mais as críticas.

Não se trata de humilhar indivíduos ou demonizar erros humanos. O problema é institucional. Quando um governante relativiza falhas básicas em um ambiente escolar, o que se transmite à sociedade é a ideia de que o conhecimento formal, o domínio da língua e a formação pedagógica são secundários. Educação não se faz com improviso nem com simbolismos vazios.

Erram, na verdade, aqueles que escolhem deputados e governadores que só defendem a educação em época de campanha, mas, depois de eleitos, atacam professores, desvalorizam o magistério e substituem políticas educacionais por soluções de aparência autoritária. A escola pública não precisa de tutela militar, mas de investimento, formação continuada, valorização docente e respeito ao saber.

A reação nas redes sociais e nos veículos de comunicação revelou perplexidade e indignação. Educadores, especialistas e cidadãos comuns perceberam o óbvio: não se melhora a educação relativizando erros, nem se constrói aprendizagem afastando o professor do centro do processo educativo.

Mais preocupante ainda é constatar que há professores que insistem em votar contra a própria profissão, apoiando projetos políticos que fragilizam o magistério e esvaziam o sentido da escola pública. Defender a educação exige coerência, consciência política e compromisso com o futuro. Normalizar o erro é, em última instância, institucionalizar o retrocesso.

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