Escola não é quartel

(*) Azuaite Martins de França

A implantação do modelo de escola cívico-militar pelo governo do Estado de São Paulo, que em São Carlos passará a atingir a Escola Estadual Arlindo Bittencourt já no próximo mês, revela uma concepção distorcida sobre o papel da educação pública. Trata-se de uma inversão de prioridades que beira a aberração institucional.

Em vez de investir na valorização dos professores, na melhoria da infraestrutura escolar e em políticas educacionais consistentes em toda a rede pública, o Estado opta por inserir policiais militares aposentados no cotidiano das escolas. Em pleno ano eleitoral, atende-se à sanha autoritária de setores da extrema direita, subvertendo princípios elementares de uma educação pública que deveria ser libertária, crítica e emancipadora.

Nesse contexto, a escola deixa de ser espaço de acolhimento, diálogo e construção do conhecimento para se aproximar perigosamente de uma lógica de controle. A educação passa a ser tratada como questão de segurança, como se estudantes fossem uma ameaça a ser contida. Militarizar o ensino é trocar escola por quartel, diálogo por monólogo, livros por farda, consciência por alienação e liberdade por repressão.

A pergunta é inevitável: se a Polícia Militar não conseguiu resolver os graves problemas da segurança pública, como pretende enfrentar os desafios históricos da educação? O próprio governo estadual não conseguiu preencher adequadamente os quadros da segurança e tampouco os da educação. Por que, então, não utilizar policiais aposentados para suprir carências reais da segurança pública, em vez de submetê-los à rotina escolar? Criança não é bandido. O que se busca, claramente, é o controle das mentes.

Educar exige compreensão, escuta e afeto, valores ausentes na lógica militar. Vale lembrar que, em 1969, no período mais sombrio da ditadura, foi implantada a disciplina de Educação Moral e Cívica, que, na prática, serviu para transformar a escola pública em instrumento de difusão do ideário autoritário.

O modelo atual apresenta ainda um agravante simbólico e material: monitores militares são remunerados com salários superiores aos de professores que estudaram por anos, enfrentam salas superlotadas, escassez de materiais e condições precárias de trabalho. A mensagem transmitida é inequívoca: a farda vale mais do que o educador.

A militarização não resolve os problemas da escola pública. Apenas os oculta, reduz a liberdade pedagógica e aprofunda a desvalorização docente. Quando o Estado remunera mais a disciplina imposta do que o ato de ensinar, não fortalece a educação; ao contrário, compromete o futuro.

São Carlos, aliás, dispõe de exemplos bem-sucedidos, caso o objetivo fosse realmente melhorar o ensino. A Escola Estadual Professor Sebastião de Oliveira Rocha, reconhecida internacionalmente e única das Américas a participar da COP28 da ONU, demonstra que educação de qualidade se constrói com investimento, projeto pedagógico consistente e valorização humana, jamais com autoritarismo.

Compartilhe:

Recomendamos para você

Educação
Na manhã desta quarta-feira (28), o vereador Gustavo Pozzi participou da 4º Vivência Pré-Iniciação Científica, […]
Há 10 horas
Trama golpista
Vanessa Araujo/AE O comandante do Exército, general Tomás Paiva, autorizou a passagem do tenente-coronel Mauro […]
Há 11 horas
Eleições
Victor Ohana/AE Em reunião do colégio de líderes da Câmara dos Deputados, nesta quarta-feira, 28, […]
Há 12 horas