(*) Azuaite Martins de França
As manifestações de alunos do ensino médio que ocorrem na França, em protesto contra a falta de professores nas escolas e reivindicando mais recursos para a Educação, lançam um alerta para o que poderá acontecer no Brasil, mais precisamente no Estado de São Paulo, caso não haja uma correção de rota em relação à rede pública de ensino.
Não se trata de comparar realidades diferentes – a de um país desenvolvido com a de um país de terceiro mundo. Mas sim de observar e compreender o que pode acontecer quando problemas graves se acumulam e são negligenciados; deixam de receber respostas à altura.
Senão vejamos: o Estado de São Paulo não pode aceitar que seus professores estejam entre os menos valorizados do País. Levantamento do Movimento Profissão Docente, com dados de 2025, colocou São Paulo na 21ª posição entre as 27 unidades da Federação na remuneração inicial de professores, considerando uma jornada de 40 horas. É uma posição incompatível com a dimensão econômica de São Paulo.
O que dizer da opção de utilizar abonos complementares para alcançar o piso nacional? O abono não se incorpora ao vencimento-base nem produz os mesmos efeitos das parcelas permanentes da remuneração. Na prática, contribui para o achatamento da carreira.
O professor que ingressa no serviço público precisa enxergar diante de si uma trajetória profissional digna, com remuneração compatível, progressão e reconhecimento. Se essa perspectiva desaparece, desaparece também um dos principais incentivos para que os jovens escolham o magistério. E os números já estão mostrando isso.
A pesquisa nacional “Apagão dos Professores”, divulgada pelo Instituto Semesp, revelou uma queda de 31,1% no contingente de docentes do ensino médio com até 24 anos na última década. Na rede pública, há hoje apenas um professor jovem para cada três professores com 60 anos ou mais. Eis o sinal de uma crise anunciada.
Enquanto o número de professores efetivos diminui, os contratos temporários se expandem. No Estado de São Paulo, os professores da chamada Categoria O convivem com insegurança profissional, incertezas na atribuição de aulas e menor previsibilidade de sua vida funcional.
Não podemos construir uma Educação pública de qualidade sobre a precarização do trabalho docente.
Sem professores suficientes, haverá classes sem aulas, disciplinas sem profissionais habilitados, mais rotatividade e danos aos projetos pedagógicos. As escolas de regiões mais vulneráveis serão as primeiras a sentir os efeitos. E a desigualdade educacional poderá se aprofundar ainda mais.
Diante disso, o “apagão de professores” não deve ser tratado como uma hipótese distante. Ele é uma possibilidade concreta se não houver uma mudança de rumo.
São Paulo tem recursos para enfrentar esse desafio. O que falta é colocar a valorização do magistério no centro das prioridades de governo. É preciso discutir vencimento-base, carreira, concursos públicos, estabilidade, formação continuada, condições de trabalho e respeito profissional. Enfim, estabelecer políticas capazes de convencer novos professores a entrar e permanecer na profissão.
Administrar a Educação pela lógica do menor custo possível é ir na contramão do investimento no futuro. Há economias que custam caro à sociedade.
A França mostra o que pode acontecer quando a insatisfação das escolas encontra uma sociedade que já não aceita esperar.
Se não mudarmos essa realidade, corremos o risco de ter o ensino fundamental e médio com escolas funcionando, prédios abertos e alunos presentes, mas sem professores suficientes para lhes garantir o direito de aprender.
Esse seria o verdadeiro apagão da Educação. E, quando ele chegar, não será possível dizer que ninguém havia avisado.
(*) O autor é Professor e 1º vice-presidente do Centro do Professorado Paulista (CPP)








