SOLIDARIEDADE

Sopa solidária leva alimento e acolhimento a pessoas em situação de rua em São Carlos

Foto: Paulo Mello/São Carlos FM

PAULO MELLO

Uma iniciativa voluntária desenvolvida em São Carlos distribui, durante o inverno, cerca de 50 porções de sopa por semana para pessoas em situação de rua e famílias em condição de vulnerabilidade. O trabalho é coordenado pelo assistente social Benedito Elson da Silva, conhecido como Benê, ao lado da esposa, Vilma, e de outros colaboradores. A preparação começa por volta das 16h e as entregas são realizadas nas noites de quarta-feira, em diferentes pontos da cidade.

No Primeira Página no Ar, da São Carlos FM, Benê contou que a ação começou no ano passado, durante uma conversa do casal em uma noite de baixas temperaturas. Sem experiência específica nesse tipo de distribuição, os dois prepararam a primeira sopa e saíram pelas ruas para atender quem precisava. Desde então, passaram a conhecer melhor os locais onde as pessoas costumam permanecer durante a noite e ampliaram a rede de colaboradores. “Estávamos em casa, eu e minha esposa, conversando em uma noite fria. Ela sugeriu que fizéssemos uma sopa. Fizemos a primeira vez sem conhecimento e sem experiência, mas fomos aprendendo com o tempo e conhecendo essa realidade mais de perto”, relatou Benê. Segundo ele, a atividade integra uma trajetória mais ampla de assistência social e atendimento a pessoas em vulnerabilidade.

As porções são preparadas com legumes e recebem carne vermelha ou frango, em sistema de alternância semanal. A sopa é colocada em recipientes descartáveis com tampa, o que também gera custos para os responsáveis pela iniciativa. O grupo depende de doações de alimentos, embalagens e recursos financeiros para manter o atendimento durante o período de frio.

A distribuição ocorre em locais como a região da Estação Ferroviária, a Avenida Getúlio Vargas, as proximidades da Rodoviária e outros pontos onde grupos costumam permanecer. Antes de entregar a refeição, os voluntários perguntam se a pessoa já foi atendida por outra entidade, igreja ou grupo solidário, evitando desperdícios e procurando alcançar quem ainda não recebeu alimentação. “Existem vários trabalhos feitos dessa forma. Nós somos apenas mais um. Há locais em que as pessoas dizem que já receberam uma marmita, e então continuamos procurando quem realmente precisa e deseja receber”, explicou. Também há pessoas que retiram as porções diretamente na casa da família, sem necessidade de cadastro.

Além da entrega da sopa, o contato com as pessoas atendidas permite identificar outras necessidades. Em uma das noites de distribuição, durante um período de chuva, Benê e a esposa encontraram um casal de idosos abrigado sob uma marquise na região da Estação Ferroviária. Os dois estavam com os cobertores molhados e pediram ajuda.

Sensibilizados com a situação, os voluntários retornaram para casa, buscaram um cobertor arrecadado anteriormente e o entregaram ao casal. “Foi um caso que nos chamou muito a atenção. Eles estavam debaixo da marquise, mas a chuva respingava e o cobertor estava molhado. Felizmente, conseguimos outro cobertor para levar”, contou.

A residência do casal também se tornou um ponto de recebimento de roupas, agasalhos, móveis, brinquedos e outros objetos em condições de uso. Os materiais são separados e encaminhados às famílias ou instituições responsáveis pelo atendimento social. Em uma das arrecadações, aproximadamente dois meses antes da campanha do agasalho, foram entregues 19 caixas de roupas ao Fundo Social.

Benê destacou que as peças recebidas são organizadas, higienizadas e repassadas com cuidado. “O que as pessoas mais precisam, ao meu ver, é de respeito. Estou fazendo a minha parte e fico muito feliz por poder realizar esse trabalho. Isso me dá um prazer imenso”, afirmou.

O voluntário também integra atividades sociais desenvolvidas pela comunidade da Igreja Santa Edwiges, no Jardim Monique, e participa do Terço dos Homens. Segundo ele, o trabalho comunitário é realizado durante todo o ano, embora a distribuição da sopa seja concentrada nos meses de inverno, quando as baixas temperaturas aumentam os riscos para quem permanece nas ruas.

Durante as entregas, além da alimentação, os voluntários oferecem atenção e escuta. Benê observa que muitas pessoas querem conversar sobre suas dificuldades, histórias familiares e os motivos que as levaram à situação de rua. O diálogo, segundo ele, é uma parte importante do trabalho, embora seja necessário manter um horário adequado para encontrar as pessoas antes que durmam ou deixem os pontos habituais.

Para o assistente social, o crescimento do número de pessoas nas ruas exige ações permanentes do poder público. Ele considera necessário ampliar as estratégias de prevenção, abordagem, orientação e encaminhamento aos serviços de acolhimento, respeitando as particularidades de cada caso. “É uma questão muito complexa, porque existem inúmeros motivos que podem levar uma pessoa a essa situação. Mas, se não houver uma política pública voltada para isso, o problema tende a piorar. É preciso pensar no que pode ser feito para prevenir o aumento dos casos e, se possível, reduzir esse número”, declarou.

As pessoas interessadas em colaborar podem doar legumes, arroz, carne, frango, embalagens descartáveis, roupas, cobertores, brinquedos e outros itens em condições de uso. As contribuições podem ser combinadas pelo telefone informado durante a entrevista, (16) 99111-6627.

A iniciativa demonstra como a mobilização comunitária pode complementar o atendimento social, especialmente nos períodos de frio intenso. Além de oferecer uma refeição quente, o trabalho proporciona acolhimento, atenção e respeito a pessoas que enfrentam algumas das formas mais graves de vulnerabilidade social em São Carlos.

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