Após assassinato de Edith

Presidente de entidade cobra mais segurança para motoristas de aplicativo

Marcelo: “motoristas enfrentam uma combinação de dificuldades financeiras e riscos relacionados à segurança”/Divulgação

Marcos Escrivani

O assassinato da motorista de aplicativo Edith Bonfim, de 50 anos, durante uma corrida, voltou a colocar em discussão a segurança dos profissionais que trabalham diariamente pelas ruas de São Carlos. Para Marcelo Clayton dos Santos, 55 anos, presidente e fundador da CoopMov e vice-presidente e diretor de tecnologia da LigaCoop, o episódio expõe uma vulnerabilidade que há anos é discutida pelo setor, mas que ainda não encontrou uma solução considerada suficiente.

Com mais de uma década de experiência no transporte, Marcelo afirma que atualmente os motoristas enfrentam uma combinação de dificuldades financeiras e riscos relacionados à segurança. Segundo ele, profissionais precisam permanecer mais horas nas ruas para alcançar uma renda que antes poderia ser obtida com jornadas menores.

“Hoje o motorista trabalha para conseguir ter alguma renda bem trabalhada entre 12 e 14 horas”, afirmou. Segundo Marcelo, a redução dos ganhos e o aumento dos custos fizeram com que muitos profissionais ampliassem o tempo de trabalho.

Em relação aos horários, ele explica que a rotina varia de acordo com cada motorista, mas destaca que o serviço funciona durante todo o dia e a noite. É justamente nos períodos de menor movimento que, segundo ele, os riscos podem aumentar.

Identificação de passageiros

Na avaliação do dirigente, um dos principais pontos que precisam ser aprimorados é a identificação dos passageiros. Marcelo defende que as plataformas adotem mecanismos mais rigorosos, como confirmação de CPF e reconhecimento facial.

Ele cita como exemplo o sistema utilizado pela cooperativa que preside, no qual o usuário precisa realizar uma selfie e passar por uma verificação de CPF antes de utilizar o serviço.

“Para você ter nos aplicativos, dispositivos de segurança para checagem de CPFs, selfie do rosto das pessoas”, afirmou. Para Marcelo, ferramentas desse tipo podem ajudar o motorista a saber quem está solicitando a corrida e dificultar o uso de identidades falsas.

Ele também defende o uso de recursos tecnológicos capazes de identificar comportamentos considerados suspeitos. Segundo o dirigente, a plataforma nacional que está sendo desenvolvida pela LigaCoop deverá incorporar mecanismos de inteligência artificial para auxiliar nesse processo.

Botão de emergência não seria suficiente, diz dirigente

Marcelo lembra que discussões sobre a segurança dos motoristas já ocorreram antes mesmo da pandemia, inclusive em audiências públicas com representantes de plataformas, associações e parlamentares.

Segundo ele, algumas medidas foram implementadas, mas os recursos disponíveis nos aplicativos não seriam suficientes para todas as situações.

“Na hora que a pessoa coloca uma faca no seu pescoço ou uma arma, você não vai ter como apertar nada no aplicativo”, afirmou.

Para o dirigente, a prevenção precisa acontecer antes do início da corrida, principalmente com mecanismos capazes de verificar a identidade de quem entra no veículo.

Ele também defende uma aproximação maior entre motoristas, forças de segurança e poder público. Segundo Marcelo, já houve períodos em que representantes da categoria mantinham diálogo mais frequente com vereadores, Prefeitura, Polícia Militar e Guarda Municipal para discutir abordagens e estratégias de segurança.

Mulheres estão entre as mais vulneráveis

Marcelo considera que as mulheres que trabalham com transporte por aplicativo enfrentam uma vulnerabilidade ainda maior. A morte de Edith, segundo ele, aumentou a preocupação entre os profissionais da categoria.

“Uma tragédia dessa mexe com a gente”, afirmou. O dirigente disse que conhecia Edith apenas de vista, mas ficou abalado com o crime e participou, ainda que não presencialmente, do movimento organizado por motoristas após a morte da colega.

Para ele, o caso reforça a necessidade de medidas preventivas para quem permanece horas dentro de veículos transportando passageiros que, na maioria das vezes, são desconhecidos.

Orientação para motoristas que trabalham à noite

Entre as recomendações que Marcelo costuma dar aos profissionais, especialmente às mulheres e àqueles que trabalham durante a noite ou madrugada, está a preferência por corridas com pagamento exclusivamente por cartão.

A orientação, segundo ele, busca reduzir a circulação de dinheiro dentro do veículo e, consequentemente, diminuir um dos possíveis motivos de abordagem criminosa.

“Eu acho que a vida da gente vale muito mais do que, às vezes, fazer umas corridas a mais por causa do dinheiro”, afirmou.

Marcelo também defende que motoristas adotem, quando possível, recursos adicionais de segurança, como câmeras e sistemas de gravação.

Discussão em Brasília

Além da atuação em São Carlos, Marcelo afirma participar de discussões nacionais relacionadas ao trabalho por plataformas. Segundo ele, esteve recentemente em Brasília, em reunião articulada com representantes do Governo Federal e de diferentes setores ligados à chamada plataformização do trabalho.

De acordo com o dirigente, a discussão não deveria se limitar à remuneração dos motoristas, mas também incluir a segurança dos profissionais.

“Não é só questão de ganho. Nós também temos hoje a questão de segurança, que acho que às vezes é até mais importante do que a do ganho”, declarou.

Marcelo afirma ainda que defende o fortalecimento do cooperativismo como alternativa para dar maior autonomia aos trabalhadores, permitindo que motoristas tenham participação na gestão dos próprios aplicativos e nas decisões relacionadas ao serviço.

Caso Edith reacende debate

O assassinato de Edith Bonfim, ocorrido na quarta-feira, 16, durante uma corrida, trouxe novamente para o centro das discussões a rotina de milhares de motoristas que passam horas transportando passageiros em São Carlos e em outras cidades.

Para Marcelo, a morte da colega representa mais do que uma tragédia individual e serve como alerta para a necessidade de aprimorar os mecanismos de segurança utilizados por motoristas e passageiros.

“Não tem por que fazer isso com uma outra pessoa. Não existe o porquê disso”, afirmou, ao comentar a morte de Edith.

Enquanto as investigações sobre o crime prosseguem, o setor cobra medidas que possam reduzir a exposição dos profissionais à violência e aumentar a capacidade de identificação e prevenção de situações de risco durante as corridas.

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