Dez alunos de escolas públicas de São Carlos e Ibaté apresentaram pesquisas em evento da USP; em 2025, foram dois
Dez estudantes do ensino médio de escolas públicas de São Carlos e Ibaté apresentaram seus projetos de pesquisa no 34º Simpósio Internacional de Iniciação Científica e Tecnológica da USP (SIICUSP). Realizado no dia 7 de outubro no Instituto de Química de São Carlos (IQSC-USP), o evento reuniu estudantes do ensino médio e da graduação da instituição para apresentar resultados de pesquisas científicas e tecnológicas.
A participação passou de dois participantes do Programa de Pré-Iniciação Científica (Pré-IC), em 2025, para 10 nesta edição. Desses, três são da Escola Estadual Professor Aduar Kemell Dibo, de São Carlos, e sete da Escola Estadual André Donatoni, de Ibaté. Nesta última, os próprios estudantes decidiram compartilhar as quatro bolsas de Pré-Iniciação Científica disponíveis com outros três colegas, ampliando a participação nas pesquisas. A iniciativa permitiu que os sete jovens se envolvessem igualmente nas atividades científicas.
Para Ana Cláudia Kasseboehmer, coordenadora do Programa de Pré-Iniciação Científica do IQSC-USP, o crescimento da participação no SIICUSP reflete o interesse dos próprios estudantes. “Quando um estudante vê o outro estudando, ele se estimula a estudar também”, afirma. Segundo a coordenadora, esse movimento contribui para transformar o ambiente escolar, alcançando inclusive jovens que não integram diretamente o programa.
Para o professor Fábio Henrique Barros de Lima, do IQSC, apresentar uma pesquisa em um simpósio científico proporciona experiências que vão além da exposição dos resultados. “A atividade favorece o contato com pesquisadores de diferentes áreas, o intercâmbio de conhecimentos e o desenvolvimento de habilidades de comunicação científica”, destaca Fábio, que ajudou a organizar o evento.
Pesquisas que ultrapassam os muros da escola
O estudante Arthur Henrique Soares Esteves, da escola estadual de São Carlos, desenvolveu um modelo matemático baseado em equações diferenciais para estimar o consumo de água e energia em diferentes situações, como vazamentos em torneiras e uso de equipamentos domésticos.
O estudo foi realizado a partir de simulações, com dados de referência, para avaliar a aplicação do modelo em diferentes cenários. A proposta é contribuir para a conscientização sobre o desperdício e demonstrar como conceitos matemáticos podem ser utilizados para analisar situações reais. “A matemática é uma linguagem que expressa o mundo que a gente vive”, afirma Arthur, que pretende continuar os estudos na área de exatas e considera seguir carreira acadêmica.
Outro estudante da mesma escola, Marcos Augusto do Nascimento, escolheu investigar a homofobia no ambiente escolar. Sua pesquisa, desenvolvida ao longo de dois anos, passou pela análise da percepção de gestores e professores e, mais recentemente, pelo levantamento de informações em quatro escolas públicas.
O trabalho identificou desafios no enfrentamento da homofobia recreativa, especialmente relacionados à formação dos profissionais da educação. Marcos pretende utilizar os resultados para contribuir com ações de conscientização nas instituições pesquisadas.
O estudante conta que, inicialmente, teve receio de ingressar no programa, mas a experiência mudou sua relação com os estudos. Entre os aprendizados, destaca a realização de levantamentos bibliográficos e a necessidade de analisar cuidadosamente os dados.
Apresentar o projeto em um evento científico da USP também foi uma experiência marcante. “É algo que eu não imaginaria que faria”, conta. Para ele, a participação reuniu o nervosismo de expor o trabalho e a satisfação de perceber até onde sua pesquisa havia chegado.
A aluna Stefany Vieira Andrade de Oliveira, da escola de Ibaté, desenvolveu uma pesquisa sobre racismo recreativo no ambiente escolar, investigando manifestações de discriminação em forma de brincadeiras.
O estudo envolveu estudantes do sexto ano do ensino fundamental e buscou compreender situações de preconceito e contribuir para a construção de um ambiente mais inclusivo. A iniciativa também despertou o interesse de representantes da área de educação do município, abrindo a possibilidade de ampliar as ações de conscientização para outras escolas. “A experiência de desenvolver a pesquisa me levou a estudar melhor, aprendi muitas coisas e ampliei o contato com as pessoas”, relata.
Além de Stefany, a escola de Ibaté teve a participação de Priscila Reis da Silva, Nycolly Aparecida Canavez, Hiury Rafael Peccinin, Mayssa Neves dos Santos Faccio, Alan Gustavo Pigatto e Ruan de Jesús Oliveira. Entre os participantes, foram formadas três duplas de pesquisa.
A professora de química Patrícia Regina da Silva, da escola André Donatoni, acompanha desde 2023 o desenvolvimento da Pré-IC. Segundo ela, um dos principais desafios foi adaptar as atividades de pesquisa à rotina dos estudantes do Programa Ensino Integral, que permanecem na instituição durante todo o dia. “A solução foi incorporar a formação científica à grade escolar por meio de duas disciplinas eletivas. Na primeira, os alunos tiveram contato com conceitos como metodologia científica, elaboração de hipóteses e identificação de problemas de pesquisa. Na segunda, aprofundaram os conhecimentos e desenvolveram seus próprios projetos”, explica.
Além dos bolsistas, a escola conta com estudantes voluntários que participam das atividades, reuniões e estudos, ampliando o alcance da iniciativa. Patrícia observa que os resultados não se restringem à aprendizagem dos conteúdos. “Eles começam a acreditar mais que é possível sonhar e entrar numa universidade pública”, destaca a professora.
Para ela, é imprescindível mostrar aos estudantes que a universidade pública também lhes pertence.
O professor Bruno Figueiredo Soares, que atua nas áreas de matemática e química na escola Professor Aduar Kemell Dibo, conta que são os alunos que escolhem os temas que desejam investigar. A partir dessa escolha, recebem orientação para desenvolver as diferentes etapas da pesquisa, desde a formulação do problema até a análise dos resultados. De acordo com o docente, também houve mudanças no comportamento e nas expectativas dos participantes. “Se antes era necessário incentivar os estudantes a participar da Pré-IC, hoje são os próprios alunos que divulgam a experiência entre os colegas. O projeto de vida deles mudou radicalmente”, afirma Bruno.
Da escola pública à universidade
A Pré-Iniciação Científica do IQSC é desenvolvida em parceria com quatro escolas públicas da região de São Carlos e conta com a participação de professores da educação básica e orientadores vinculados ao Instituto. Os projetos são acompanhados semanalmente nas escolas, enquanto os pesquisadores da USP realizam reuniões e visitas ao longo do ano para contribuir com o desenvolvimento das investigações.
Os estudantes também participam de atividades no IQSC, incluindo uma programação de vivência científica em janeiro e um simpósio próprio da Pré-IC em julho, quando apresentam o desenvolvimento dos trabalhos.
Esse contato com o universo da pesquisa pode influenciar escolhas futuras, como mostra a trajetória de Maria Alice da Silva, que participou da Pré-IC em 2023 e atualmente cursa Química na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Durante o ensino médio, desenvolveu o projeto “Despertando a Consciência: Redução de Desperdício Alimentar” e, em 2024, recebeu o título de Jovem Cientista de São Carlos.
Antes de ingressar no programa, Maria Alice considerava seguir carreira em farmácia. O contato com a pesquisa, as atividades e as visitas à USP, porém, despertou seu interesse pela química e mostrou que o trabalho científico envolve muito mais do que a realização de experimentos. “Eu descobri várias etapas que um pesquisador realiza antes de chegar ao resultado final, e nem sempre o resultado é bom”, conta.
A experiência também contribuiu para desenvolver habilidades de comunicação, trabalho em equipe e capacidade de lidar com resultados inesperados, aprendizados que ela leva para a graduação.
