Da paixão pela Física ao compromisso com a pesquisa e ensino
“Depois de sete anos de experiência em pesquisa nos Estados Unidos, físico retornou ao Brasil para integrar o Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), onde encontrou na sala de aula e na formação dos estudantes novos desafios, complementando aspectos de sua carreira”
A trajetória do Prof. Victor Luiz Quito, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), poderia ser contada a partir de sua formação acadêmica, das pesquisas que desenvolve ou dos sete anos que passou nos Estados Unidos. Mas, há outro aspecto que ajuda a compreender sua história: a convicção de que o conhecimento adquirido ao longo de uma carreira científica ganha um significado especial quando é compartilhado com os estudantes.
Aos 38 anos, nascido e criado em Valinhos, interior de São Paulo, Quito descobriu ainda no ensino médio que a Física poderia definir seu futuro. O primeiro contato mais sistemático com mecânica, eletricidade, eletromagnetismo e termodinâmica despertou uma curiosidade que não desapareceria. Mesmo diante de um ensino predominantemente teórico e com pouco acesso a laboratórios, percebeu que gostava não apenas dos conteúdos, mas principalmente da maneira de pensar proporcionada pela Física e pela Matemática.
A certeza começou a ganhar forma quando, no terceiro ano do ensino médio, participou durante cerca de duas semanas de uma escola avançada de física na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A experiência permitiu que conhecesse de perto o ambiente universitário e tivesse contato com uma Física mais avançada, embora ainda num contexto inserido no ensino médio. Foi também nesse período que conheceu o Prof. Eduardo Miranda, que anos depois se tornaria seu orientador.
Aprovado no vestibular, ingressou no curso de Física da Unicamp. A adaptação ao ensino superior exigiu uma mudança importante. Já não bastava estudar para uma prova: era necessário adquirir disciplina, continuidade e uma nova forma de enfrentar conteúdos de maior complexidade. Para Quito, aprender a estudar física naquele nível foi um dos primeiros grandes desafios de sua formação.
Depois da graduação, seguiu diretamente para o doutorado na própria UNICAMP. Foi nessa etapa que São Carlos começou a aparecer em sua trajetória. Coorientado pelo Prof. José Abel Hoyos Neto, Victor Quito passou a visitar a cidade e participou também de uma Escola São Paulo de Ciência Avançada. A impressão deixada pelo ambiente científico local seria decisiva anos mais tarde: para o jovem pesquisador, São Carlos era um lugar vivo, onde havia entusiasmo para discutir e fazer física.
Sete anos nos Estados Unidos e a decisão de voltar
A carreira ganhou dimensão internacional durante o doutorado, quando Quito passou um ano no California Institute of Technology (Caltech). Depois de concluir o doutorado, em 2016, seguiu para os Estados Unidos para realizar pós-doutorado. O que inicialmente seria uma etapa temporária acabou se transformando em sete anos vivendo no exterior.
“Essa permanência prolongada não estava planejada. Entre as razões estavam a continuidade da minha atividade profissional, a escassez de oportunidades para retornar ao Brasil em determinados períodos e, posteriormente, as dificuldades provocadas pela pandemia. Quando novas vagas começaram a surgir, entretanto, precisei fazer uma escolha: permanecer nos Estados Unidos ou regressar ao país. Foi aí que São Carlos voltou à minha memória”, recorda o jovem docente.
A experiência que tivera anteriormente na cidade, somada ao prestígio da Universidade de São Paulo, ao ambiente do IFSC/USP e à percepção de que ali encontraria condições para desenvolver sua carreira, pesou na decisão. Mesmo depois de tantos anos fora do Brasil, a possibilidade de ser professor em uma instituição como a USP continuava a atraí-lo.
Em 2023, retornou ao Brasil e iniciou uma nova fase de sua trajetória profissional no IFSC/USP.
Quando o pesquisador se torna professor
Foi na universidade que Quito passou a conhecer uma dimensão da profissão que a experiência exclusivamente voltada à pesquisa não revelava por completo. “Tornar-me professor significou assumir responsabilidades novas: preparar disciplinas, conduzir turmas numerosas, orientar estudantes de graduação e pós-graduação, desenvolver projetos científicos e participar também das atividades acadêmicas e administrativas da instituição”, sublinha Victor Quito.
Depois de anos dedicados à pesquisa, o docente descobriu que ensinar exige um aprendizado próprio. “Quando a gente olha de fora, não temos a noção exata do trabalho que é ser professor”, reconhece. Ainda assim, a experiência confirmou a escolha feita ao retornar ao Brasil. O ambiente encontrado no IFSC/USP permitiu que colocasse em prática ideias e construísse sua própria maneira de atuar como docente e pesquisador.
Entre todas as responsabilidades, uma das mais complexas está justamente na essência da educação “Compreender que os estudantes não são iguais”.
Para Quito, uma sala de aula reúne pessoas com experiências, dificuldades, habilidades e formas de compreensão diferentes. Em uma de suas disciplinas – Termodinâmica e Física Estatística – por exemplo, há aproximadamente 90 estudantes. Uma mesma explicação pode ser simples para alguns, difícil para outros e pouco adequada à maneira como determinados alunos compreendem o assunto.
É nesse ponto que aparece uma característica importante de sua concepção de professor: ensinar não termina quando a aula acaba.
Diante da impossibilidade de atender individualmente as necessidades de dezenas de estudantes durante uma única aula, Quito procura manter canais abertos para que os alunos possam procurá-lo posteriormente, pessoalmente ou por e-mail. A disposição para conversar, explicar novamente e compreender dificuldades individuais transforma-se, assim, numa parte importante do trabalho docente.
Formar pessoas para além da física
Sua preocupação não se limita a formar futuros pesquisadores. Ao pensar no impacto que pretende deixar no Instituto ao longo da carreira, Quito coloca os estudantes no centro dessa missão. “O objetivo é contribuir para que aqueles que passam pela universidade possam prosperar nas decisões que tomarão ao longo da vida, independentemente do caminho profissional escolhido. A física, nesse sentido, não representa apenas um conjunto de fórmulas, teorias e conhecimentos especializados. Ela proporciona uma maneira de raciocinar e de enfrentar problemas que pode ser utilizada em diferentes áreas”, pontua o docente.
Essa perspectiva ajuda também a compreender por que o professor deseja que seus alunos avancem cada vez mais. O papel da universidade, em sua visão, é oferecer uma formação sólida e proporcionar condições para que cada estudante tenha liberdade e capacidade para escolher o próprio futuro.
Ao mesmo tempo, existe a responsabilidade de preservar e ampliar a excelência científica de uma instituição reconhecida nacional e internacionalmente pela pesquisa de ponta. Para Quito, ensino e pesquisa não aparecem como atividades separadas: “Formar bons estudantes significa também contribuir para a continuidade da qualidade científica construída pelo Instituto ao longo de sua história”, destaca o docente.
“Continuem a estudar – Não desistam”
Quando convidado a deixar uma mensagem aos estudantes, Quito retorna a uma palavra que atravessou sua própria trajetória desde os tempos de graduação – persistência.
As dificuldades, afirma, inevitavelmente aparecerão. O importante é continuar estudando e se esforçando para superá-las. E, nesse percurso, lembra, os estudantes não estão sozinhos: professores e colegas estão na universidade também para ajudá-los. “Não desperdicem esta oportunidade. Vai dar trabalho, mas você vai ser recompensado”, aconselha.
A recompensa à qual se refere não está apenas na obtenção de um diploma. Está na beleza das teorias que serão conhecidas, na compreensão da física e, principalmente, na formação intelectual proporcionada pelo estudo. A mensagem parece resumir também sua própria história.
Da curiosidade de um estudante de ensino médio, em Valinhos, à graduação e ao doutorado na UNICAMP; da experiência no Caltech aos sete anos de atividade acadêmica nos Estados Unidos; do retorno ao Brasil à responsabilidade de ensinar dezenas de estudantes em uma sala de aula, existe uma linha que atravessa a trajetória de Victor Luiz Quito: a educação como processo contínuo de aprendizado, esforço e transformação.
Hoje, como pesquisador da área de Física da Matéria Condensada, ele continua investigando fenômenos fundamentais da matéria e trabalhando com questões científicas que desafiam o conhecimento atual.
Mas, diante dos alunos, sua missão assume outra dimensão. O conhecimento acumulado ao longo de anos de formação e pesquisa passa a servir também para abrir caminhos para quem está começando.
É talvez aí que se encontre uma das dimensões mais significativas da profissão que escolheu: o cientista procura compreender o desconhecido; o professor trabalha para que outros tenham condições de ir ainda mais longe.
(RS)
