(*) Rui Sintra
Tenho acompanhado com preocupação crescente as notícias sobre a presença, ou pelo menos sobre as tentativas de implantação, em Portugal, de organizações criminosas internacionais, entre elas aquelas que são originárias do Brasil – Primeiro Comando da Capital – (PCC) e o Comando Vermelho (CV), que há muito deixaram de ser um problema exclusivamente brasileiro e passaram a integrar o complexo universo do crime organizado transnacional. É um assunto que não podemos esconder. Mas, é também um assunto sobre o qual precisamos falar com enorme responsabilidade. E começo exatamente por aqui: não aceito que se confundam os criminosos brasileiros com os imigrantes brasileiros. São coisas completamente diferentes. A esmagadora maioria dos brasileiros que escolheu Portugal para viver não atravessou o Atlântico para traficar drogas, lavar dinheiro ou integrar organizações criminosas. Foi trabalhar. Foi estudar. Foi procurar segurança. Foi criar os filhos. Foi abrir pequenos negócios. Foi tentar reconstruir uma vida que, por diferentes razões, considerou possível construir do outro lado do oceano. Esses brasileiros não podem carregar sobre os ombros a culpa pelos crimes cometidos por uma minoria. Mas, também considero que esconder o problema, com receio de alimentar preconceitos, seria um erro igualmente grave. O crime organizado moderno não respeita fronteiras. Segue o dinheiro, procura mercados, explora fragilidades e utiliza as facilidades proporcionadas pela circulação internacional de pessoas, mercadorias e capitais. Portugal possui uma posição particularmente sensível nesse tabuleiro. As históricas ligações com o Brasil, as inúmeras conexões aéreas e marítimas com a América do Sul e, principalmente, a sua inserção no espaço europeu tornam o país muito interessante e disputado para redes criminosas internacionais. Não significa que Portugal seja necessariamente o destino final. Muitas vezes é a porta de entrada, ponto de apoio, local de passagem ou parte de uma estrutura muito maior. Investigações internacionais já demonstraram a existência de grandes organizações utilizando portos europeus para receber cocaína proveniente da América Latina. Também em Portugal foram descobertas operações envolvendo contentores, aeroportos, malas de viagem e estruturas logísticas utilizadas no tráfico internacional. É justamente aqui que precisamos abandonar aquela imagem antiga do criminoso facilmente reconhecível. O crime organizado de hoje pode esconder-se atrás de empresas aparentemente normais, negócios legítimos, movimentações financeiras, transportadoras, intermediários e pessoas que, vistas de fora, parecem absolutamente integradas na sociedade.ja visto seus colarinhos brancos e ternos “Boss”. O traficante internacional não precisa estar numa esquina vendendo droga. Pode usar terno. Pode apresentar-se como empresário. Pode frequentar restaurantes. Pode possuir uma ou mais empresas. Pode movimentar dinheiro. Pode apresentar uma vida aparentemente respeitável. E é justamente por isso que descobri-lo não é tarefa para aventureiros, justiceiros ou investigadores improvisados. É trabalho para a Polícia Judiciária, para o Ministério Público, para os serviços de informações e para a cooperação policial internacional. Mas como entraram? Esta é uma pergunta que certamente muitos portugueses e brasileiros fazem. Não acredito que a resposta esteja simplesmente “na imigração”. Seria simplista imaginar integrantes de organizações criminosas atravessando todos juntos a fronteira, como se carregassem uma identificação dizendo a que grupo pertencem. As organizações criminosas modernas funcionam através de redes. Um indivíduo pode cuidar da logística. Outro, do dinheiro. Outro pode estabelecer contatos. Há quem recrute pessoas. Há quem crie empresas. Há quem organize transportes. Há quem receba mercadorias. E, existem ainda pessoas aparentemente distantes do núcleo criminoso, mas que prestam serviços indispensáveis ao funcionamento da estrutura. Alguns integrantes podem entrar legalmente num país. Outros podem possuir antecedentes que somente aparecem quando existe cooperação eficiente entre as autoridades. Outros, ainda, podem nem sequer ter condenações anteriores. O grande desafio não está, portanto, simplesmente em controlar quem entra. Está em descobrir o que determinadas pessoas fazem depois que entram. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas. Como encontrá-los no meio de uma comunidade honesta? Aqui entramos numa questão extremamente delicada. Portugal possui uma enorme comunidade brasileira. Colocar todos sob suspeita seria absurdo, injusto e perigoso. Não existe “cara de criminoso”. Não existe sotaque de criminoso. Não existe Estado brasileiro de origem que transforme alguém automaticamente em suspeito. Uma tatuagem, uma determinada maneira de vestir ou o bairro onde alguém mora também não constituem prova de absolutamente nada. Se começarmos por esse caminho, estaremos construindo preconceito, não segurança. O que precisa despertar a atenção são comportamentos concretos. Movimentações financeiras inexplicáveis. Empresas aparentemente sem atividade compatível com os valores movimentados. Pessoas oferecendo dinheiro para utilizar contas bancárias de terceiros. Propostas para transportar malas ou encomendas sem que se saiba exatamente o conteúdo. Utilização de documentos ou endereços emprestados. Investimentos cuja origem não consegue ser explicada. Tentativas de recrutamento para atividades obscuras. Cobranças acompanhadas de ameaças. Extorsões. Intimidação de comerciantes. Movimentações patrimoniais incompatíveis com a atividade profissional declarada. Mesmo assim, faço questão de ressaltar: suspeita não é prova. Cabe às autoridades investigar. O brasileiro honesto pode ser a primeira vítima. Existe outro lado dessa história sobre o qual pouco se fala. Se organizações criminosas brasileiras procuram estabelecer estruturas em Portugal, quem garante que os próprios brasileiros não serão algumas das primeiras vítimas? É precisamente isso que me preocupa. Um recém-chegado encontra-se muitas vezes vulnerável. Precisa de emprego. Precisa de casa. Precisa regularizar documentos. Precisa abrir uma conta bancária. Precisa ganhar dinheiro rapidamente para sustentar a família. É exatamente nesse terreno que criminosos podem atuar. “Empreste sua conta e ganhe uma comissão.” “Receba este dinheiro para mim.” “Leve esta mala para outra cidade.” “Abra uma empresa no seu nome.” “Guarde esta mercadoria por alguns dias.” “Não precisa perguntar o que tem dentro.” É assim que uma pessoa honesta pode acabar envolvida numa estrutura criminosa que inicialmente desconhecia. E, quando perceber a dimensão do problema, talvez já esteja presa pelo medo, pela dívida ou pela ameaça. Por isso considero que as associações brasileiras, instituições luso-brasileiras, consulados, autoridades portuguesas e órgãos de comunicação precisam falar mais sobre prevenção. Informar também significa proteger. Há outra coisa que Portugal não pode permitir: que juntamente com criminosos sejam importadas determinadas práticas de intimidação que infelizmente conhecemos muito bem no Brasil. Comerciantes não podem começar a pagar para trabalhar em segurança. Moradores não podem ter medo de denunciar. Empresários não podem ser coagidos. Jovens não podem ser recrutados. Imigrantes vulneráveis não podem ser utilizados como “mulas”, testas de ferro ou instrumentos para movimentar dinheiro. Se os primeiros sinais dessas práticas aparecerem, precisam ser combatidos imediatamente. Porque organizações criminosas crescem principalmente quando descobrem duas coisas: silêncio e medo. Também não podemos importar o preconceito. Mas faço aqui o alerta contrário com a mesma intensidade. Seria extremamente injusto que a preocupação com o PCC ou com o CV – ou com qualquer outra organização criminosa – produzisse uma suspeita generalizada contra brasileiros. Não podemos permitir que um trabalhador seja observado de maneira diferente porque fala português com sotaque brasileiro. Não podemos permitir que o proprietário de um negócio seja considerado suspeito simplesmente porque nasceu no Brasil. Não podemos permitir que milhares de pessoas honestas paguem socialmente pelos crimes praticados por algumas dezenas ou centenas. Seria uma enorme vitória para os próprios criminosos. Eles passariam despercebidos no meio de uma comunidade que, por medo de ser discriminada, poderia começar a afastar-se das autoridades. Precisamos exatamente do contrário. Eu acredito profundamente que a comunidade brasileira pode ser uma das grandes aliadas de Portugal no combate às organizações criminosas provenientes do Brasil. Quem conhece a própria comunidade percebe quando determinadas situações fogem completamente à normalidade. Mas, colaborar não significa investigar. Não significa fotografar pessoas escondido. Não significa seguir suspeitos. Não significa publicar nomes nas redes sociais. Muito menos significa confrontar alguém que possa pertencer a uma organização criminosa. Isso seria extremamente perigoso. Colaborar significa comunicar às autoridades situações concretas que apresentem indícios razoáveis de crime e permitir que profissionais preparados façam aquilo que lhes compete: investigar. Portugal precisa manter aberta a porta para quem chega para trabalhar, estudar, investir honestamente, produzir, criar os filhos e participar da sociedade. Mas, precisa fechar, com absoluta firmeza, a porta daqueles que pretendem utilizar o país para tráfico de drogas, branqueamento de capitais, extorsão, violência e expansão de organizações criminosas. Uma coisa não contradiz a outra. Pelo contrário. Defender a imigração honesta também significa combater aqueles que utilizam a imigração como esconderijo para o crime. É exatamente por respeito aos brasileiros que trabalham honestamente em Portugal que considero necessário falar abertamente sobre PCC e CV, crime organizado e redes criminosas. Não devemos esconder criminosos atrás da palavra “imigrante”. Mas também jamais devemos esconder preconceitos atrás da palavra “segurança”. Entre essas duas tentações existe um caminho muito mais difícil, mas também muito mais justo: investigação, inteligência, cooperação internacional, prevenção e confiança entre comunidade e autoridades. Portugal e Brasil construíram durante séculos uma relação humana que nenhuma organização criminosa tem o direito de contaminar. Quem atravessa o Atlântico para trabalhar merece respeito. Quem atravessa o Atlântico para estudar merece oportunidades. Quem atravessa o Atlântico para construir uma família merece segurança. Quem atravessa o Atlântico para fugir da violência merece encontrar paz. E quem atravessa o Atlântico para transportar droga, lavar dinheiro, extorquir pessoas ou construir estruturas criminosas deve encontrar pela frente a polícia, a Justiça e toda a força do Estado de Direito. Essa diferença precisa ficar absolutamente clara. Porque combater o crime organizado e defender a comunidade brasileira honesta em Portugal não são objetivos opostos. São, na verdade, duas partes da mesma luta.
(*) O autor é jornalista profissional/correspondente para a Europa pela GNS Press Association / EUCJ – European Chamber of Journalists/European News Agency). Presidente do “Fórum Brasil / Portugal – São Carlos (SP) – MTB 66181/SP.
Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Jornal Primeira Página sobre o assunto.
