Fim da escala 6×1 preocupa comércio de São Carlos

Elton Casagrande alerta para dificuldades na contratação de trabalhadores, reorganização das equipes e possíveis mudanças no funcionamento das lojas diante da redução da jornada de trabalho

O fim da escala de trabalho 6×1 poderá provocar mudanças significativas na estrutura operacional e nos custos das empresas do comércio e do setor de serviços de São Carlos. A avaliação é do economista Elton Casagrande, do Núcleo Econômico da Associação Comercial e Industrial de São Carlos (ACISC), que analisou os impactos da mudança na jornada de trabalho, especialmente sobre os estabelecimentos que precisam manter atendimento durante seis ou mais dias da semana.

A proposta de emenda à Constituição que substitui a escala de seis dias trabalhados por um de descanso pelo modelo de cinco dias de trabalho e dois de folga foi aprovada pelo Senado na quarta-feira (14). O texto prevê a redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial, e aguardava promulgação nesta sexta-feira (16).

Segundo Casagrande, a discussão não se limita à quantidade de dias trabalhados, mas envolve uma reformulação mais ampla da organização das empresas. Enquanto parte expressiva da indústria já opera com jornadas de cinco dias, o comércio e os serviços dependem de escalas diferenciadas, estabelecidas por contratos e convenções coletivas. Em São Carlos, essas relações também envolvem negociações entre as entidades sindicais patronais e dos trabalhadores. O economista explica que a substituição da escala 6×1 pela 5×2 exigirá uma revisão do dimensionamento das equipes. Empresas que precisam manter suas atividades durante seis dias poderão ter de contratar funcionários adicionais para cobrir os períodos de descanso, principalmente quando não houver possibilidade de redistribuir tarefas ou reorganizar os horários de atendimento. Ele observa que os dois dias de folga não precisam necessariamente ser consecutivos, conforme as condições previstas nas negociações trabalhistas.

Contratação de funcionários preocupa o comércio

Outro desafio apontado por Casagrande é a disponibilidade de mão de obra. Na avaliação do economista, o mercado de trabalho aquecido e as dificuldades para preencher determinadas vagas podem tornar a adaptação mais complexa. Ele também considera que fatores relacionados à qualificação profissional, à informalidade e à composição da renda dos trabalhadores influenciam as decisões de contratação e permanência no emprego.

Além do número de funcionários, Casagrande destaca a importância da experiência profissional e da integração dos trabalhadores à cultura organizacional das empresas. Segundo ele, a contratação de novos empregados não garante, de forma imediata, a manutenção do mesmo padrão de atendimento e produtividade. O aprendizado das rotinas, o relacionamento com clientes e fornecedores e o conhecimento dos procedimentos internos exigem treinamento e tempo de adaptação.

O economista também manifesta preocupação com a coincidência entre as mudanças trabalhistas e a implementação da reforma tributária. Para ele, os empresários enfrentam um cenário de incertezas ao precisar reorganizar simultaneamente os custos com pessoal, o planejamento fiscal e a estrutura de funcionamento dos negócios. Casagrande critica a velocidade dessas transformações e defende maior atenção às particularidades de cada atividade econômica. O principal contexto da incerteza corresponde a combinação da redução da jornada de trabalho — cuja votação segue para o Senado — com a nova sistemática da Reforma Tributária que pode causar um choque de custos insustentável para Micro e Pequenas Empresas (MPEs), justamente no momento em que a defasagem da tabela do Simples já eleva artificialmente a carga tributária.

Comércio eletrônico pode ganhar espaço

Na análise do integrante do Núcleo Econômico da ACISC, o aumento dos custos operacionais poderá acelerar a migração de determinadas atividades para o comércio eletrônico. Empresas que não conseguirem sustentar a estrutura de atendimento presencial poderão optar por reduzir horários, reorganizar equipes ou ampliar as vendas por plataformas digitais e marketplaces. O economista considera que pequenos negócios poderão enfrentar dificuldades maiores para absorver essas mudanças.

Casagrande também alerta para o risco de concentração de mercado, caso empresas de menor porte tenham dificuldades para manter suas operações diante das novas exigências. Na avaliação dele, negócios com maior capacidade financeira e operacional poderão encontrar condições mais favoráveis de adaptação. O economista defende a valorização das negociações coletivas e questiona a adoção de regras uniformes para setores com realidades distintas.

Apesar das preocupações apresentadas, a redução da jornada também é defendida por entidades de trabalhadores e especialistas como uma medida capaz de melhorar a qualidade de vida, diminuir o desgaste profissional e favorecer a produtividade.

Em São Carlos, a adaptação à nova escala deverá exigir planejamento das empresas e diálogo entre empregadores e empregados, de modo a conciliar os direitos trabalhistas, a sustentabilidade dos negócios e a continuidade dos serviços prestados à população.

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