Carlos A. Ferreira Martins*
O aniversário da cidade é um excelente momento para lembrar que o caixão exibido em tom de galhofa pelo prefeito, na quinta feira anterior ao segundo turno, terá outros usos que não os que ele esperava ou prometia.
Certamente não será, ao menos por ora, o PT, nem o nacional nem o são-carlense, a usá-lo. De imediato o que podemos dizer é que no dia 25 de outubro foi enterrada a ilusão de que São Carlos seja uma cidade majoritariamente bolsonarista. Ou de que continue a sê-lo por muito tempo.
Antevejo uma objeção imediata: afinal o voto nos dois patinhos venceu o voto em Lula e Alckmin. Sim, mas vamos olhar com atenção.
No primeiro turno, o bolsonarismo teve 69.473 votos contra 57.731 de Lula/Alckmin e 12.140 dos três candidatos da direita não bolsonarista.
O resultado do segundo turno mostra que o bolsonarismo ganhou apenas 5.792 votos do primeiro para o segundo turno e Lula/Alckmin somaram mais 14.897.
Esses quase 15 mil votos a mais são certamente o resultado da extraordinária mobilização de jovens e idosos, mais espontânea do que organicamente organizada, embora não se deva menosprezar o papel que tiveram aqui o PT e seus aliados.
Mas também parece claro pelos números que boa parte dos votos da direita não bolsonarista do primeiro turno migraram… para a candidatura Lula/Alckmin.
E isto não é picuinha, porque a médio e longo prazo o destino do país e da nossa região dependem da reorganização de uma direita não bolsonarista, capaz minimamente de aceitar as regras do jogo democrático.
E os primeiros dias pós-segundo turno já mostraram a rapidez com que o vasto setor fisiologista, mal chamado de Centrão, se apressou a se desmarcar do Junior e de sua rocambolesca fuga. Além dos personagens nascidos do bolsonarismo, mas que anseiam por voo próprio, como Tarcísio e Michelle.
Pena que nosso prefeito ainda faça questão de se mostrar fiel ao bolsonarismo raiz. Porque o bolsonarismo não é simplesmente a expressão de uma posição política. É a defesa do extermínio de todas as outras. É por isso que é associado com tanta frequência ao fascismo ou ao nazismo.
É por isso que acha natural o uso, de brincadeira, de um caixão.
É por isso que assistimos nos últimos dias a listas de boicotes, a ameaças a reputações e carreiras, a ameaças de violência física e a… mortes.
Mortes de fato, não simbólicas. Os serviços de inteligência já decidiram atuar em 45 casos de violência política desde o segundo turno, dos quais 10 resultaram na morte de fato. Dez famílias brasileiras perderam um pai ou uma mãe ou um filho/a por causa de suas convicções políticas.
Listas de boicote não me impressionam. Embora a tentativa de asfixia econômica lembre os infames boicotes estadunidenses, eu também deixei de usar o detergente que uma parte da seita bebeu. É claro que há uma diferença. Afinal os donos da dita marca não irão à falência por minha causa.
Mas nada disso chega perto da violência física e do impulso homicida que temos assistido no Brasil desde que o Bolsonaro pai ensinou que as armas servem para metralhar petralhas. E que petralha é todo aquele que não concordar com eles.
Também por isso é que devemos todos – e isso inclui a imprensa digna desse nome – parar de repetir a falsa ideia de uma “polarização” como marca fundamental da situação política brasileira.
Polarização supõe dois polos equivalentes, de sinal distinto. E quantos homens ou mulheres de direita foram assassinados pelos esquerdistas deste país nos últimos anos? Quantos prefeitos petistas levantaram caixões com a sigla dos 2 patinhos em comícios eleitorais?
Não há polarização no Brasil. Há uma seita miliciana que contou com o apoio do grande capital associado ao crime organizado na Faria Lima; da imprensa corporativa que hoje pertence ou se identifica com o grande capital rentista e dos tentáculos trumpistas para exterminar qualquer possibilidade de vigência democrática no Brasil.
E, ao menos por ora, essa seita foi derrotada por uma mobilização histórica de jovens, mulheres e idosos que se tornou referência e exemplo mundiais.
*Professor Sênior do IAU USP São Carlos e Vice-presidente do PT.
