Marco César Aga*
“… se romperá o fio de prata, e se despedaçará o copo de ouro, e se quebrará o cântaro junto à fonte…” – Eclesiastes 12:6.
Vivemos hoje em um mundo onde a vida virou uma banalidade. Basta ligar a TV nos programas de noticiários. Com esta dura realidade, um sentimento que permeia muito nossa sociedade hoje, com certeza, é a saudade. Saudade, esta é a palavra. Dizem que só existe no nosso dicionário da língua portuguesa. A dor da morte não é a dor do medo, do vazio, é a dor da saudade. Aprendemos, por herança, que a vida só pode ser vivida sob a proteção do trabalho e da utilidade. E quando tudo estiver pronto? Filhos criados? tarefa cumprida? aposentadoria à vista? Poderemos ser descartados como algo velho que não se usa mais? Será que só merecemos viver enquanto formos úteis? Depois disto nos tornamos apenas saudade. Fomos criados para viver plenamente, não vivemos apenas para sermos úteis. Em certo momento da vida, penso podermos querer viver verdadeiramente. Quando pouco resta a fazer, os desafios vencidos, filhos criados, tudo devidamente superado, o direito a “curtir” chegou. As pessoas que mais amamos, que completaram as tarefas da vida, deixam de viver este melhor momento de ler, viajar, de ter prazer com a criação, de poder contemplar as coisas, tudo por conta do tempo que continuamos a lhes tomar. Sem cerimônia, continuamos a impor-lhes a utilidade como necessidade para sobreviverem. É falta de saber que a saudade nos cobrará cada minuto tomado de suas possíveis alegrias e prazeres. Ninguém nos ensinou a beleza da vida e da criação, o direito de se entregar a ociosidade, de viver sem culpa ou restrições, de andar sem querer chegar a lugar algum, apenas pelo prazer de andar e contemplar o mundo. Fora essa ideia de ferramenta, de utilidade, de pagar para viver, de não poder ser feliz no ócio, no prazer, no churrasco e na cerveja. Não consigo entender aqueles que preferem morrer a viver: “Melhor é estar com Deus…”. A vida é um presente sem descrição, é bela por mais que seja sofrida, é maravilhosa por mais que apresente dificuldades. Não podemos amar a Deus sem amar a vida, a criação, as coisas, as pessoas. Deus se fez homem e nos deixou também imensa saudade. Saudade é o sentimento que amedronta quando pensamos na separação de quem amamos, porque gostamos e amamos a vida. Gostaria de viver eternamente com meus pais, minha família, minhas coisas, minha vida. Esse é o verdadeiro sentido da ressurreição cristã: recompor as coisas, restaurar a ordem, trazer de volta o que foi perdido. Não me seduz a ideia de algo abstrato e incerto para depois da vida. Eternamente sim, mas só se for para matar a saudade. Saudade que já tenho e que ainda vou sentir. Saudade de quem amei, de quem amo e de quem vou amar, saudade de tudo que vejo e conheço. É isto que nos faz e nos fará sofrer. Portanto, viva a vida, a vida é bela! Beba a taça até o fim! A criação é bela! Estimule as pessoas a viverem, sem culpas, sem preconceitos. Cristo foi ao calvário para termos vida. Por isso toda separação é triste, a morte é uma saudade sem remédio. Por isso queremos que todos que amamos fiquem aqui. Isto é o máximo que podemos fazer, adiar a saudade. Quando romper o fio de prata, despedaçar-se o copo de ouro, quebrar-se o cântaro junto à fonte, só nos restará fazer a mais inútil de todas as coisas: chorar… Até lá, celebremos a vida.
*Marco César Aga – ex-prefeito de Casa Branca.
