O ataque ao diploma e a ameaça ao futuro do Brasil

Azuaite Martins de França

A recente declaração do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, de que o mercado de trabalho estaria “cada vez mais desapegado dos diplomas” e de que a formação superior teria “cada vez menos relevância”, é não apenas lastimável, mas profundamente indigna de um dirigente do mais importante estado brasileiro. A fala, proferida na última quinta-feira, às vésperas da segunda fase do Enem, revela um projeto político que afronta a educação como instrumento de emancipação social.

É triste constatar que o governador tem se convertido em arauto do atraso, porta-voz de uma elite retrógrada que não admite a mobilidade social dos filhos dos trabalhadores. Nitidamente aposta no aprofundamento da desigualdade.

Tarcísio desqualifica a formação acadêmica justamente ele, um engenheiro civil formado. A contradição não é mero detalhe: é sinal de oportunismo político. Porque não se trata de desconhecimento. Ele sabe que o Brasil está muito distante dos países desenvolvidos no acesso ao ensino superior. Apenas 24% dos brasileiros entre 25 e 64 anos têm diploma universitário, contra a média de 49% nos países da OCDE. Também sabe que, segundo o relatório de 2025 da Organização, quem conclui o ensino superior tem maior empregabilidade e salários que podem mais que dobrar em relação aos que possuem apenas o ensino médio.

Ainda assim, opta por atacar a universidade. Faz isso para agradar à extrema direita, inimiga histórica da ciência e da educação, e para legitimar políticas que restringem o acesso dos mais pobres ao conhecimento. A declaração revela uma visão tacanha e alinha seu governo ao desmonte da formação científica. Não por acaso, é o mesmo governador que patrocinou o PLC 9, que enfraquece a carreira de pesquisador e ameaça institutos públicos de pesquisa com modelos de privatização.

Ao afirmar que “a competência vale mais que o diploma”, tenta naturalizar o abandono da educação pública, como se a precarização das escolas, a falta de investimentos e o corte de recursos fossem fenômenos inevitáveis e não responsabilidade dele próprio. Ignora que, quando o Estado abdica de seu papel, quem paga é o jovem da periferia, para quem a universidade se torna um horizonte mais distante.

Fácil é dizer que o diploma “vale menos”. Difícil e raro em sua gestão é investir para que todos tenham formação sólida e oportunidades reais. A escalada de ataques de Tarcísio à educação exige vigilância permanente. Um governante que despreza o conhecimento sabota o futuro do Brasil.

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