A premiação do filme “O Agente Secreto” no Globo de Ouro merece ampla celebração, pois consagra a obra nas categorias de melhor ator em filme de drama e melhor filme de língua não inglesa, e reafirma a relevância do cinema brasileiro no cenário internacional. Não se trata de pouco: trata-se do reconhecimento de um cinema feito com talento, coragem e conteúdo, capaz de ocupar novamente o centro da cena cultural mundial.
No ano passado, o filme “Ainda estou Aqui” já havia sinalizado esse mesmo caminho ao conquistar importantes premiações no Globo de Ouro e no Oscar, recolocando o Brasil no mapa das grandes produções comprometidas com a reflexão crítica sobre a própria história.
Entre esses dois filmes há um fio consistente que os une, um vínculo não apenas estético, mas também político e civilizatório. Ambos se voltam para a história do Brasil e para aquilo que muitos preferem esquecer ou deliberadamente apagar. Trazem à tona a importância dos arquivos, dos registros e da preservação da memória como fundamentos essenciais de qualquer sociedade democrática. Revisitar o passado, nesse contexto, não é exercício de revanchismo, mas expressão de responsabilidade histórica.
A ditadura, infelizmente, ainda ronda o cotidiano brasileiro. Manifesta-se nos discursos autoritários, na naturalização da violência e na intolerância que insiste em reaparecer sob novas roupagens. Por isso mesmo, esse período precisa ser mostrado, sem filtros e sem concessões, para que os anos de trevas não retornem e para que a sociedade compreenda o preço pago quando a democracia é suprimida.
Nesse sentido, foi especialmente emblemática a fala do diretor Kleber Mendonça Filho ao afirmar sua crença de que o cinema pode ser uma forma de expressar o luto do tempo em que vivemos, um luto que é social e coletivo. Os filmes, muitas vezes, dizem aquilo que a sociedade sente, mas não consegue formular plenamente. Funcionam como espaço de elaboração simbólica das dores, das perdas e das rupturas deixadas por períodos de exceção.
Também merece destaque a reflexão do ator Wagner Moura ao associar a transmissão de traumas entre gerações à possibilidade de, com eles, se transmitirem valores. Não herdamos apenas feridas do passado, mas podemos herdar consciência histórica, compromisso democrático e a recusa firme de qualquer forma de autoritarismo. Afinal, sociedades que ignoram seu passado perdem identidade e correm o risco de reviver seus momentos mais sombrios.
“O Agente Secreto” já vem sendo descrito pela imprensa internacional como um filme que articula memória, trauma geracional e resistência, temas que dialogam com a experiência brasileira e debates contemporâneos travados em diversas partes do mundo.
O período histórico enfocado pela obra fala diretamente à minha geração, que viveu, e não apenas ouviu falar, de um tempo que muitos tentaram apagar da memória nacional. O fato de esse passado ressurgir na tela, com força artística e reconhecimento internacional, demonstra o quanto devemos permanecer atentos e vigilantes.
Celebrar essas premiações é celebrar a cultura nacional, o cinema brasileiro e a democracia. Que a arte continue a iluminar as zonas de sombra de nossa história e a nos lembrar, sempre: ditadura nunca mais!
