PAULO MELLO
Da redação
Em entrevista concedida ao programa Primeira Página no Ar, da São Carlos FM, na manhã desta quinta-feira (5), o prefeito de Ribeirão Bonito, Paulo Veiga, apresentou um diagnóstico detalhado do início de sua gestão e expôs os principais desafios administrativos enfrentados pelo município. Ao completar um ano e dois meses à frente do Executivo, Veiga afirmou que assumiu a prefeitura em situação crítica, com problemas estruturais graves, dívidas a renegociar e a necessidade imediata de reordenar a máquina pública.
Segundo o prefeito, a administração começou sem condições mínimas de funcionamento. O prédio da prefeitura apresentava infiltrações e risco estrutural, o que levou à locação emergencial de um imóvel — uma antiga faculdade — para abrigar parte da sede administrativa. Outros setores precisaram ser redistribuídos, com reformas para acomodar áreas essenciais como tributos e o sistema de água. “Foi um começo atribulado, com cortes de cargos, ajuste de contratos e foco em enxugar a folha”, afirmou.
Com orçamento anual na casa dos R$ 70 milhões, Veiga ressaltou que a capacidade de investimento depende de uma gestão austera e da captação de recursos em São Paulo e Brasília. “Se a máquina for enxuta e o dinheiro não for desperdiçado, dá para fazer; mas buscar recursos fora é parte do trabalho”, disse, citando agendas frequentes nos governos estadual e federal.
O prefeito defendeu o chamado “choque de gestão” como premissa. “Onde três ou quatro pessoas dão conta, não faz sentido ter vinte. Não trabalho com a lógica de cargo para garantir voto”, pontuou.
Questionado sobre o limite prudencial, Veiga explicou que Ribeirão Bonito reduziu o percentual da folha, embora parte dos serviços seja terceirizada, como limpeza urbana e coleta de lixo. Na saúde, a gestão ocorre por meio de uma organização social ligada à Santa Casa, o que mantém esses custos fora do limite da folha. Alertou, contudo, que eventual reclassificação pelo Tribunal de Contas poderia elevar o índice para perto de 50%.
No campo previdenciário, o município não possui fundo próprio. Um pequeno grupo de servidores aposentados, vinculados a regras antigas, é custeado diretamente pela prefeitura; os demais são regidos pelo regime celetista.
Saneamento, Sabesp e entraves estruturais
Veiga dedicou parte da entrevista ao debate sobre saneamento. Ribeirão Bonito opera água e esgoto de forma municipalizada, mas o prefeito comentou o programa estadual que estimula a adesão à Sabesp. Embora não seja obrigatório, afirmou que ficar fora pode travar investimentos, como distritos industriais e habitação, por exigências ambientais e de licenciamento. “Sem tratamento adequado, você não consegue liberar novos empreendimentos”, observou.
Ele citou ainda passivos históricos e ações judiciais que pressionam os municípios, defendendo planejamento para evitar multas impagáveis. Em comparação, destacou que a tarifa local é, em média, mais barata que a da Sabesp, embora reconheça políticas tarifárias diferenciadas da companhia estadual.
Relação com a Câmara, decisões por decreto e cortes de árvores
Sobre o Legislativo, Veiga classificou a relação como respeitosa e institucional. Disse evitar enviar matérias polêmicas à Câmara, optando por decretos quando necessário, para não expor vereadores a desgaste político. “Prefiro puxar a responsabilidade para mim”, afirmou, acrescentando que críticas do Legislativo ajudam a “tirar a administração da acomodação”.
O prefeito abordou a polêmica sobre a retirada de árvores em áreas centrais. Segundo ele, decisões técnicas da Defesa Civil e de profissionais envolvidos apontaram riscos, especialmente diante de chuvas e ventos intensos. Em contrapartida, afirmou que há compensação ambiental com o plantio de novas mudas. Citou parceria com a CPFL para a remoção de cerca de 240 árvores que oferecem risco à rede elétrica, com reposição de cinco mudas por árvore retirada e requalificação das calçadas.
Carnaval, educação e prioridades
Veiga confirmou a realização do carnaval, porém em formato mais simples e econômico. O argumento central é a priorização da educação: parte dos recursos foi direcionada à compra de carteiras escolares e melhorias estruturais. “A festa dura poucos dias; a escola atende o aluno o ano inteiro”, justificou.
Sobre o tradicional rodeio, o prefeito disse que a edição deve ocorrer novamente, com entrada gratuita e custos reduzidos em comparação a cidades vizinhas. Destacou o modelo de licitação por lotes, que ampliou a concorrência e reduziu despesas. Também afirmou ter estabelecido limites de preços para bebidas, como forma de proteger o público.
Nas considerações finais, Veiga explicou o reajuste da tarifa do transporte coletivo para R$ 2,50, após mais de uma década sem correção. O município adquiriu um ônibus novo, equipado com ar-condicionado, câmeras, USB e Wi-Fi. “Não dá para manter serviços congelados indefinidamente. Quem entra na política precisa ter couro grosso”, disse, defendendo decisões técnicas mesmo diante de críticas.
Ao encerrar, o prefeito reiterou que recebeu a cidade “acabada” e que o foco é organizar as bases para avançar em infraestrutura, educação, saúde e serviços públicos. “Quem tenta agradar a todos acaba não agradando ninguém. O importante é fazer o que é justo e necessário”, concluiu.
