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Café Dona Júlia fecha novamente

Depois de ressurgir , o principal ponto de encontro dos são-carlenses e cenário de muitas histórias curiosas e engraçadas encerra atividades

30/05/2024 00h21 - Atualizado há 3 semanas Publicado por: Redação
Café Dona Júlia fecha novamente O Café Dona Júlia: depois de ressurgir após a pandemia, tradicional ponto de encontro da cidade vai fechar de novo Foto: Marco Rogério

 

O aviso escrito anunciando o fim das atividades na esquina mais famosa de São Carlos
Foto: Divulgação

 

Marco Rogério

Após quatro décadas de intensas atividades, o Café Dona Júlia, o mais famoso de São Carlos, encerrou as atividades em março de 2021. À época, a notícia foi bastante triste, pois o local não era um comércio comum, mas sim o ponto de encontro de várias gerações.  Se Caetano Veloso fosse são-carlense, talvez escrevesse uma canção como “Sampa” para manifestar as dores do coração quando passasse pela esquina da Rua Sete de Setembro com a Avenida São Carlos, a esquina mais famosa de São Carlos.

Depois de algum tempo fechado, o estabelecimento foi reaberto por Francisco Monte Rossi. Esta semana ele fixou um aviso de que manterá as atividades do comércio até o próximo sábado, 1º de junho e depois, a partir de domingo, dia 2, encerrará as atividades do estabelecimento. Segundo Rossi, a rentabilidade não foi a esperada. Ele afirma que muitos hábitos foram mudados pela sociedade são-carlense, o que inviabiliza certos tipos de comércio.

Algumas cidades possuem a primazia de conseguir sintetizar sua essência em um espaço físico em determinado tempo. Durante mais de quatro décadas, o resumo de São Carlos residiu na esquina da Rua Sete de Setembro com a Avenida São Carlos. Neste endereço, na esquina Marino Pellegrini (a única do município com denominação), surgiu em 17 de agosto de 1980, o Café Dona Júlia.

A saga deste estabelecimento comercial chegou ao fim nesta última semana. De empresários milionários a moradores de rua, o Dona Júlia recebia pessoas de toda a espécie. O local sempre foi famoso por reunir empresários, profissionais liberais, jornalistas, ativistas de toda a espécie e.…principalmente, políticos!!!

Nestas quatro décadas, São Carlos praticamente dobrou de tamanho, saltando de cerca de 125 mil para 250 mil habitantes. Viu marcas famosas como CBT, Clímax, Cholocate Serra Azul, Hero, Nestlé e outras desaparecerem do cenário local para dar lugar a LATAM, Volkswagen, Serasa Experian e etc.

Durante o surgimento do Rela, a fase da URV (Unidade de Referência de Valor) era conferida todos os dias pelos frequentadores para saber o valor do dinheiro até o dia 1 de julho de 1994, quando as notas e moedas do Real começaram a circular, substituindo o cruzeiro.

A URV não era exatamente uma moeda, mas foi um índice balizador para o período de transição do cruzeiro para o real. Ela esteve vigente por 18 meses e, ao longo do período, exigiu exercícios matemáticos dos consumidores, o que deixava as compras no mercado não só difíceis de carregar como de calcular quanto custava cada item.

Criada pelo então ministro da Economia, Fernando Henrique Cardoso, a URV tinha paridade com o dólar – 1 URV = 1 dólar –  e era calculada diariamente — sempre para mais. Em 1º de março de 1993 começou custando CR$ 647,50, e terminou em 30 de junho a CR$ 2.750.

Nos jornais estampados logo de manhã num mural colocado dentro do estabelecimento, os frequentadores tomavam o café de olho nas novidades. Numa época em que não existia internet, o Café dona Júlia era o local das primeiras notícias e onde se espalhavam boatos. A notícia da morte do ex-vereador Lucas Perroni Júnior, foi dada em primeira mão pelos funcionários do café entre a fumaça de um cafezinho e outro. Novidades sobre mortes, acidentes, casamentos e crimes medonhos também nunca faltaram.

Outro momento inusitado foi durante a venda dos lotes dos primeiros condomínios do Parque Damha. A venda foi realizada num sábado e num domingo, sendo que boa parte das negociações foram realizadas ali mesmo, com gosto de café, leite e pão com manteiga…

Se as paredes que sustentam o piso térreo do imóvel que fica na esquina das ruas Sete de Setembro e Avenida São Carlos falassem, com certeza teria que viver protegidas por algum programa de proteção à testemunha. Seria impossível contarmos aqui quantas vendas de imóvel, quantos acordos políticos e quantas brigas já ocorreram no local, centro da efervescência política, até pela sua proximidade com o Edifício Euclides da Cunha, sede da Câmara Municipal.

Por volta das 5h50 da manhã, com o dia ainda escuro, os primeiros frequentadores já estavam estacionando seus carros. Assim que as portas se abriam, os assíduos do Dona Júlia, assim como que personagens de uma novela da vida real surgiam de todo os lados, como se fosse atraídos pelo delicioso odor do Café Ouro Brasileiro.

Os tempos mudaram e agora não são os personagens mas o próprio cenário que “sai de cena”. Até mesmo a vizinhança é outra. No lugar de lojas de discos de vinil e CDs e bancas de revistas, as imediações estão cheias de oficinas de reparos de celulares e de clínicas de tatuagem.

Nem mesmo João da Graxa, que lustrou milhares de sapatos naquela calçada trabalhava mais por lá. Afinal, o pessoal que usava sapato ou já morreu ou agora usa tênis. O Dona Júlia desaparece justamente no momento que São Carlos salta de cidade provinciana para uma Metrópole. Muda de um local de relações pessoais, para os contatos on line, as vias de tráfego rápido e o e-comerce.

 

Foto: O Café Dona Júlia: depois de ressurgir após a pandemia, tradicional ponto de encontro da cidade vai fechar de novo

Foto: Marco Rogério

 

Foto: O aviso escrito anunciando o fim das atividades na esquina mais famosa de São Carlos

Foto: Divulgação

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