25 de Junho de 2024

Dólar

Euro

Cidades

Jornal Primeira Página > Notícias > Cidades > Greve docente na UFSCar completa um mês

Greve docente na UFSCar completa um mês

Docentes da UFSCar deliberaram por aderir à greve nacional das/dos servidoras/es da educação federal em 06 de maio

06/06/2024 15h38 - Atualizado há 3 semanas Publicado por: Redação
Greve docente na UFSCar completa um mês

Em 29 de abril, a categoria docente da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) deliberou por paralisar os trabalhos e aderir à Greve Nacional das/dos Servidoras/es da Educação Federal a partir do dia 06 de maio. Na mesma semana, estudantes de graduação e pós-graduação também deliberaram pela paralisação de suas atividades, somando-se ao movimento grevista, que já contava com as/os servidoras/es técnico-administrativas/os desde 11 de março.

Conforme deliberação da Assembleia Geral da ADUFSCar, as/os docentes reivindicam, dentre outras pautas, o reajuste salarial — que não ocorre desde 2014 — para este e os próximos anos, a recomposição das carreiras e maior investimento orçamentário no ensino, ciência e tecnologia, bem como nas políticas de permanência estudantil — todos ameaçados com as iniciativas de contingenciamento aplicadas desde 2016 e mantidas pelo atual governo.

A partir do início da greve, diversas atividades foram realizadas nos quatro campi para dialogar sobre as pautas das categorias e os processos de negociação junto ao Governo Federal. Agora, que o Ministério de Gestão e Inovação nos Serviços Públicos (MGI), responsável por negociar com as entidades representativas, assume uma postura vacilante com relação ao processo de negociação, e que a greve nacional atinge um outro patamar, com 63 universidades e 528 unidades dos Institutos Federais (IFs) com docentes e servidoras/es técnico-administrativas/os (TAEs) com trabalhos paralisados, os desafios se tornam outros: intensificar a mobilização para que não haja rebaixamento nas condições e pautas da negociação, e dialogar com a sociedade civil sobre o papel das instituições de ensino público no funcionamento e na transformação social.

Início da mobilização

A Assembleia convocada pela ADUFSCar, que debateu e deliberou pelo início da greve docente na UFSCar reuniu 405 professoras/es dos quatro campi da universidade. O encontro foi realizado de forma presencial e conjunta, uma prática diferente daquela que vinha sendo adotada pelo movimento sindical docente da UFSCar nos últimos anos. No momento de votação, com 216 votos favoráveis, 147 votos contrários e apenas nove abstenções, a proposta aprovada foi aquela encaminhada pela diretoria do Sindicato das/dos Docentes da UFSCar (ADUFSCar), que previa a adesão à greve nacional a partir da próxima semana, em 06 de maio.

No dia seguinte, em 30 de abril, a diretoria do sindicato comunicou a reitoria da UFSCar sobre a deliberação de greve, indicando que as atividades que fossem consideradas essenciais poderiam ser negociadas com o Comando Local de Greve e a gestão da instituição. É o que foi feito, por exemplo, com relação às atividades de estágio em licenciaturas e saúde e ao funcionamento da Unidade de Atendimento à Criança (UAC).

No primeiro dia de greve, segunda-feira, 06 de maio, foi realizada uma Assembleia Geral para tratar do calendário de mobilização. No dia seguinte, 07, ocorreram as primeiras reuniões dos Comandos Locais de Greve, compostos por docentes em cada um dos campi, e a primeira reunião com a reitoria da UFSCar.

Naquele mesmo dia, no período da noite, a ADUFSCar, junto às demais entidades representativas da UFSCar — isto é, o Diretório Central dos Estudantes (DCE Livre), a Associação das/dos Pós-Graduandas/os (APG) e o Sindicato das/dos TAEs (SINTUFSCar) — e ao Movimento Pró-Palestina – São Carlos, realizaram, como primeira atividade conjunta de greve, uma mesa com o jornalista Breno Altman para tratar da conjuntura internacional, especialmente com relação à guerra promovida pelo Estado de Israel contra o povo palestino.

Na quinta-feira, 09 de maio, a UFSCar se somou no histórico ato construído em unidade pelas entidades representativas das universidades federais paulistas em defesa da educação. Se somaram docentes, TAEs e estudantes da UFSCar, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), da Universidade Federal do ABC (UFABC) e do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) na capital paulista. No dia seguinte, 10, ocorreu uma atividade de greve no campus São Carlos com um curso de primeiros socorros em saúde mental. No mesmo dia foi realizada uma reunião conjunta dos Comandos Locais de Greve, formados por todas as categorias da Universidade, para elaborar as atividades do calendário de mobilização e debater acerca do funcionamento de algumas das atividades acadêmicas.

Fortalecer a mobilização, para ter força na negociação

A segunda semana da greve das/dos docentes da UFScar coincidiu com duas reuniões convocadas pelo Governo Federal junto ao comando nacional de greve, composto por representações do Sindicato Nacional das/dos Docentes do Ensino Superior (ANDES-SN) e do Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (SINASEFE), para tratar das pautas do movimento. Enquanto a primeira reunião, na segunda-feira, 13 de maio, discutiu acerca das pautas que não envolviam questões orçamentárias, a segunda reunião, na quarta-feira, 15, tratou das pautas que envolviam questões orçamentárias. Importante destacar que o vice-presidente da ADUFSCar, professor Marcos Soares, participou das reuniões do Comando Nacional de Greve e acompanhou as articulações e reuniões de negociação junto ao Governo Federal em Brasília (DF).

Em 13 de maio, o Comando Local de Greve e a diretoria da ADUFSCar apresentaram à Reitoria da UFSCar e demais categorias um plano de atividades que poderiam ser mantidas no contexto da greve. No dia seguinte, na terça-feira, 14, ocorreram assembleias setoriais para tratar dos rumos da mobilização e debater o calendário e o fundo de greve. Naquele mesmo dia, membros da diretoria da ADUFSCar estiveram presentes no ato público contra a violência política de gênero, em solidariedade aos ataques machistas e misóginos sofridos pela vereadora Raquel Auxiliadora (PT), na Câmara Municipal de São Carlos. A atividade contou com a participação de movimentos sociais e entidades sindicais de diversas categorias de São Carlos e região.

Na quarta-feira, 15 de maio, foram realizadas plenárias multicategoria em todos os campi para debater as demandas específicas de cada localidade. No dia seguinte, 16, ocorreu uma live sobre a carreira do magistério superior, com a participação da professora Clarissa Rodrigues, 2ª vice-presidenta da Regional Leste do ANDES-SN e integrante da coordenação do GT-Carreira.

A terceira semana da greve das/dos docentes da UFSCar se iniciou com atividades formativas e culturais nos campi. Naquela semana, a professora Fernanda Castelano, presidenta da ADUFSCar, participou das atividades promovidas pelas entidades da educação federal e pelo comando nacional de greve do ANDES-SN.

Na terça-feira, 21, em Brasília, ocorreu a Marcha em Defesa da Educação, que contou com docentes, TAEs e estudantes que marcharam pela Esplanada dos Ministérios até o MGI. Naquele mesmo dia, no campus São Carlos, foi realizada uma aula pública sobre a prática do samba, dialogando sobre música, memória e sociabilidade, e uma feira junto aos produtores vinculados à economia solidária.

Na quarta-feira, 22, em Brasília, ocorreu a Marcha da Classe Trabalhadora, organizada por sindicatos, centrais sindicais e movimentos populares, tendo como objetivo pressionar o Governo Federal e o Congresso Nacional em defesa dos direitos sociais e trabalhistas. Nesta mesma data, no campus São Carlos, ocorreu uma aula pública com o tema “Se é grave, é greve: reflexões sobre o atual momento das universidades federais brasileiras”.

No dia seguinte, 23, em Assembleia Geral da ADUFSCar realizada nos quatro campi da Universidade, as/os docentes rejeitaram a proposta de negociação do governo federal, apresentada na reunião ocorrida em 15 de maio, durante a 5ª rodada de negociação, e discutiu os termos de uma nova contraproposta específica sobre carreira. Naquela oportunidade foi elaborado um documento com contribuições à contraproposta do comando nacional de greve do ANDES-SN.

Continuidade da greve e das negociações

A quarta semana da greve docente ocorreu em meio a novas movimentações do Governo Federal no sentido de rebaixar as condições e as pautas da negociação. Na segunda-feira, 27 de maio, o comando nacional de greve do ANDES-SN apresentou ao Governo Federal uma nova contraproposta, elaborada a partir das contribuições das assembleias de suas seções sindicais. Foram realizadas 60 assembleias, sendo que 58 rejeitaram a proposta do Governo Federal.

Ainda no dia 27, o Governo Federal, por meio do secretário das Relações de Trabalho do MGI, José Lopez Feijóo, rejeitou a contraproposta apresentada pelo Andes-SN e SINASEFE, indicou que estava encerrado o processo de negociação e firmou acordo, duas horas depois, junto à Federação dos Sindicatos de Professores e Professoras de Instituições Federais de Ensino Superior e de Ensino Básico Técnico e Tecnológico (Proifes-Federação).

Essa ação foi considerada um golpe na categoria docente, uma vez que a assinatura do acordo foi feita em uma reunião sem divulgação de horário e local e sem a presença das entidades representativas que têm construído, efetivamente, a luta em defesa da categoria. Para se ter uma ideia, a Proifes-Federação representa apenas 10% da categoria, e mesmo na base de representação da Proifes-Federação, houve discordância dos termos da negociação, indicando que essa postura foi movida sem diálogo e construção coletiva, por simples adesão e política rebaixada. Isto porque durante todo o processo de negociação, essa entidade não apenas vinha sinalizando aceitação, quanto defendia as propostas que eram apresentadas pelos representantes do Governo Federal.

Em paralelo às negociações em Brasília, as atividades de greve continuaram acontecendo localmente, promovendo cultura e formação política. Na terça-feira, 28 de maio, ocorreu uma roda de choro no campus São Carlos; uma atividade de discussão e avaliação da conjuntura do movimento grevista no campus Lagoa do Sino; e uma oficina de libras no campus Araras. No dia seguinte, 29, foi realizada uma reunião conjunta entre as categorias para definir um novo calendário de atividades no campus Sorocaba.

Esta é a quinta semana de greve. Ela se iniciou com diversas universidades federais e IFs realizando manifestações dentro e fora dos campi para pressionar o Governo Federal para reabrir o processo de negociação. Em Brasília, representantes dos comandos nacionais de greve e das diretorias do ANDES-SN e SINASEFE ocuparam a sala do prédio do MGI para que fosse aberta uma agenda de continuidade das negociações.

Na terça-feira, 04 de junho, em Assembleia Geral da ADUFSCar, as/os docentes aprovaram propostas para intensificar a comunicação dentro e fora dos campi e dialogar com a sociedade. É esperado que a partir da próxima semana sejam realizadas manifestações de rua nos municípios de Araras, Sorocaba, Campina do Monte Alegre (campus Lagoa do Sino) e São Carlos. A avaliação é que a greve nacional da educação federal está crescendo e se intensificando, conseguindo pressionar o Governo Federal com relação às pautas da categoria. Isso se reflete, por exemplo, na urgência dos representantes do governo em se reunir com as/os reitoras/es das instituições federais de ensino, e do agendamento de uma nova mesa de negociação para a sexta-feira da semana que vem, 14 de junho, após a decisão judicial que suspende o acordo firmado com a Proifes-Federação.

O professor Marco Farias, representante da ADUFScar no campus Araras, comenta que neste primeiro mês de greve ocorreram episódios marcantes para a cultura de participação e engajamento político local: “Teve dois momentos muito marcantes em nosso campus. O primeiro foi a assembleia geral que determinou a  greve, com uma grande participação da nossa categoria, e o segundo foi a assembleia que ocorreu após a negociação com o Governo Federal, do dia 27, quando deliberamos pela rejeição à proposta do governo”; e complementa: “Nós pudemos observar que as/os professoras/es estão mobilizadas/os em torno das pautas da greve. Em Araras, e na UFSCar de forma geral, nós vimos um aumento do engajamento nas discussões pelos corredores e nos espaços de deliberação. Essa é a maior greve deflagrada pela nossa categoria no último período. E localmente vemos que nos últimos trinta dias o movimento tem crescido”.

Nesta mesma direção, a professora Fabiana Cotrim, representante da ADUFSCar no campus Lagoa do Sino, comenta que a categoria tem participado dos espaços de debate e se engajado nas atividades locais. “Para grande parte da categoria docente em nosso campus, essa é a primeira experiência de greve enquanto docentes em uma instituição de ensino superior federal. Muitas/os ainda estão se apropriando do que é esse contexto. Das cinco assembleias, tivemos uma boa participação, algo por volta de 35% das/dos associadas/os”; e acrescenta: “Na assembleia que deflagrou a greve, chegamos a quase 50% das/dos associadas/os. Grande parte da categoria é a favor da greve; foi favorável à continuidade das mobilizações; e teve unanimidade na rejeição à proposta do Governo Federal. Aqui realizamos reuniões semanais para análise da conjuntura da greve e para elaboração de atividades de mobilização”.

O professor Marco Farias comenta que, após um mês de greve, chegou a hora de levar as discussões para fora da universidade. “Estamos construindo grupos para debater e elaborar formas de dialogar com a sociedade”. As preocupações e as experiências do campus Lagoa do Sino, conforme salienta a professora Fabiana Cotrim, vão nessa mesma direção: “Nós circulamos informações pela mídia local e pelos canais institucionais acerca da greve na universidade, e explicamos o papel da UFSCar para o funcionamento e para a transformação da sociedade”.

Recomendamos para você

Comentários

Assinar
Notificar de
guest
0 Comentários
Comentários em linha
Exibir todos os comentários
0
Queremos sua opinião! Deixe um comentário.x