(*) Rui Sintra
Diante do avanço acelerado da resistência bacteriana, cientistas ao redor do mundo buscam alternativas que dispensem altas doses de medicamentos e que, a partir daí, terapias baseadas em luz despontem como uma das estratégias mais promissoras. De fato, o mundo vive uma corrida contra o tempo no combate às chamadas superbactérias — microrganismos que evoluíram a ponto de resistirem aos antibióticos disponíveis. Desde a popularização desses medicamentos no século passado, as bactérias vêm desenvolvendo mecanismos cada vez mais sofisticados para neutralizar os efeitos dos antibióticos. O resultado é um cenário preocupante: infecções que antes eram simples de tratar, são agora um verdadeiro quebra-cabeça e milhares de vidas são perdidas todos os anos. James Cavin, em artigo publicado no portal da “Texas A&M University” (Departamento de Engenharia), dá-nos uma visão ampla sobre esse tema e o trabalho que o cientista são-carlense Prof. Vanderlei Salvador Bagnato desenvolve em seu laboratório naquela universidade norte-americana. Segundo estimativas citadas por pesquisadores da área, só a pneumonia resistente a antibióticos já causa cerca de quatro milhões de mortes por ano e, caso não se encontrem novas soluções a médio e curto prazo, o futuro pode ser ainda mais sombrio. “Se não fizermos algo agora, as pessoas vão morrer de infecções que hoje são facilmente tratáveis”, alerta o pesquisador são-carlense. As bactérias utilizam diferentes estratégias para escapar da ação dos antibióticos. Algumas produzem enzimas capazes de destruir a molécula do medicamento antes mesmo que ele faça efeito. Esses mecanismos evoluem mais rapidamente do que a indústria farmacêutica consegue desenvolver novos medicamentos. Para compensar, os médicos são obrigados a prescrever doses cada vez maiores de antibióticos, o que aumenta os riscos de efeitos colaterais graves. “Um antibiótico é, essencialmente, um veneno”, explica Bagnato na matéria publicada pela “Texas A&M University”. “Ele pode danificar fígado, rins e outros órgãos. Por isso, os médicos tentam sempre usar a menor quantidade possível.” Essa quantidade mínima necessária para impedir o crescimento bacteriano é chamada de Concentração Inibitória Mínima (CIM). O problema é que, com o aumento da resistência, essa concentração está crescendo continuamente. Em determinados casos, a dose capaz de eliminar a bactéria também se torna perigosa — ou até letal — para o paciente, tornando a doença praticamente intratável. É nesse ponto que entram as terapias baseadas em luz, estudadas e desenvolvida pelo Prof. Bagnato, sendo que em vez de substituir completamente os antibióticos, a estratégia busca enfraquecer as bactérias antes, eliminando suas defesas e permitindo que os medicamentos voltem a funcionar em doses seguras. O método funciona em duas etapas. Primeiro, o paciente recebe um composto fotoreativo, considerado seguro, que se acumula na região infectada. A forma de administração varia conforme o tipo de infecção. Em tratamentos já realizados no Brasil para infecções de garganta resistentes, por exemplo, o composto é ingerido por meio de um pirulito medicinal. Já no caso da pneumonia resistente, o paciente inala a substância em forma de aerossol, permitindo que ela alcance os pulmões. Na segunda etapa, a área afetada é exposta a um tipo específico de luz, geralmente infravermelha, capaz de penetrar profundamente no corpo humano sem causar queimaduras ou danos nos tecidos. No tratamento da pneumonia, isso é feito com uma matriz de cerca de 400 diodos emissores de luz, posicionados externamente ao tórax. “A luz infravermelha consegue atravessar o corpo e alcançar os pulmões sem prejudicar o caminho”, explica o pesquisador. Quando a luz entra em contato com o composto fotoreativo previamente administrado, ocorre uma reação química instantânea. É nesse momento que a bactéria perde suas principais defesas. Com base em décadas de estudo sobre a interação entre luz, átomos e moléculas, o Prof. Vanderlei Bagnato ajusta cuidadosamente o processo para atingir alvos específicos dentro do microrganismo. “Consigo destruir bombas de fluxo que expulsam antibióticos, abrir buracos na membrana celular e neutralizar mecanismos de defesa”, afirma. Enfraquecidas, as bactérias tornam-se novamente vulneráveis. Logo após essa etapa, o antibiótico é administrado. Como as defesas bacterianas foram removidas, a Concentração Inibitória Mínima retorna a níveis normais, permitindo que o medicamento volte a ser eficaz sem colocar o paciente em risco. “A luz faz o trabalho pesado. O antibiótico apenas finaliza”, resume o cientista. A luta contra doenças resistentes a antibióticos é apenas uma das frentes de atuação do Prof. Vanderlei Bagnato. Ao longo da carreira, o pesquisador desenvolveu e desenvolve ainda estudos também nas áreas de câncer, diabetes e outras doenças crônicas. Ao ajudar a fundar mais de quarenta empresas e criando, neste momento, um laboratório na “Texas A&M University” igual ao que possui no Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), com o intuito de que ambos funcionem em paralelo e aumentem os trabalhos de pesquisa, não é por acaso que o pesquisador são-carlense tenha sido eleito para a Academia Nacional de Ciências e a Academia Nacional de Engenharia dos Estados Unidos, cujos reconhecimentos são reservados a cientistas de destaque internacional. Aos 67 anos, Bagnato afirma que o medo de um futuro marcado por doenças hoje evitáveis é um dos principais motores de seu trabalho. “Tenho medo pelos meus netos, que vão enfrentar um mundo diferente”, diz. Ainda assim, ele mantém o entusiasmo com cada nova descoberta e encara o risco científico como parte do processo. “Nem sempre funciona como imaginei, mas de alguma forma acaba funcionando.” Se as pesquisas avançarem como esperado, milhões de pessoas poderão, nas próximas décadas, dever suas vidas a terapias que usam algo tão simples — e ao mesmo tempo tão complexo — quanto a luz. Em um cenário em que os antibióticos perdem força, a ciência aposta em novas armas para uma guerra invisível, mas decisiva, contra as bactérias. E, dessa vez, o brilho pode estar do lado da humanidade. (Rui Sintra in: Texas A&M University)
(*) O autor é jornalista profissional/correspondente para a Europa pela GNS Press Association / EUCJ – European Chamber of Journalists/European News Agency) – MTB 66181/SP.
Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Jornal Primeira Página sobre o assunto.

