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O impacto dos dispositivos eletrônicos no sono e desenvolvimento infantil

Da insônia à saúde emocional: entendendo as consequências do uso excessivo de telas

23/04/2024 21h23 - Atualizado há 1 mês Publicado por: Redação
O impacto dos dispositivos eletrônicos no sono e desenvolvimento infantil Divulgação

Silvia Rezende*

 

A incidência de insônia e distúrbios do sono em crianças e adolescentes tem aumentado, sendo uma preocupação frequente para profissionais da saúde. Essa tendência pode ser atribuída principalmente às mudanças no ambiente em que esses jovens estão inseridos, especialmente o uso excessivo de dispositivos eletrônicos. A luz intensa desses aparelhos pode reduzir a produção de melatonina, levando a quadros de insônia.

Quando o sono de uma criança se torna irregular, seja pelo excesso de uso de telas ou pela falta de uma rotina adequada de sono, os distúrbios do sono tornam-se mais evidentes. Isso inclui a insônia e as parassonias associadas ao sono REM e não REM, como a paralisia do sono e o sonambulismo.

Um sono de qualidade é fundamental para o desenvolvimento neurológico infantil. Durante as fases mais profundas do sono, ocorre a produção do hormônio do crescimento. Alterações na produção desse hormônio podem levar a problemas como nanismo e redução do crescimento. Além disso, durante o sono profundo, ocorre a liberação de substâncias importantes, como a leptina, o hormônio da saciedade. Quando o sono é insatisfatório, a produção de leptina diminui, levando a um aumento do apetite e, consequentemente, ao risco de obesidade infantil.

A privação do sono também pode levar a problemas emocionais. Uma criança que dorme menos do que o necessário pode apresentar irritabilidade, prejuízos sociais, baixa autoestima e redução de energia no dia seguinte, afetando seu desempenho cognitivo. Portanto, um sono adequado é crucial para o desenvolvimento cerebral, o aprendizado e a vida social completos da criança. É essencial a adoção de práticas de higiene do sono, como a diminuição da luminosidade, prejudicada pelo brilho dos aparelhos.

Atualmente, o uso excessivo de dispositivos eletrônicos é uma questão de saúde pública, sendo até mesmo referido como “chupeta digital”. Muitos pais perceberam que esses dispositivos, que atraem as crianças pela interatividade e cores vibrantes das telas, podem manter as crianças ocupadas, trazendo uma certa tranquilidade ao ambiente doméstico. No entanto, o uso abusivo desses dispositivos pode limitar significativamente o contexto social das crianças, levando a um aumento na incidência de síndromes associadas ao autismo devido à restrição social intensa.

A falta de interação social, resultante do tempo excessivo gasto com dispositivos eletrônicos, pode levar a surtos de irritabilidade e ansiedade excessiva nas crianças. Quando esses estímulos constantes não estão disponíveis, a criança pode se tornar irritada. Além dos problemas cognitivos, existem também problemas emocionais e comportamentais associados a essa questão.

O combate ao uso excessivo de mídias sociais e dispositivos eletrônicos deve ser uma responsabilidade compartilhada pelos pais, sociedade, escolas e todos os ambientes em que a criança está inserida. É importante que as crianças entendam o que é um smartphone e como as mídias sociais estão evoluindo, mas o uso excessivo deve ser controlado. Os pais podem limitar o tempo de uso dos smartphones e garantir que esses dispositivos sejam retirados antes de dormir.

Nas escolas, o uso de dispositivos eletrônicos deve ser limitado ao essencial para o aprendizado. A facilidade de acesso às telas pode desviar a atenção dos alunos dos professores e colegas. A escola é um importante campo de aprendizado social, onde as crianças têm suas primeiras interações com outras crianças e aprendem a conviver em sociedade. Portanto, as práticas de uso de dispositivos eletrônicos nas salas de aula devem ser cuidadosamente revisadas, e a interação social direta entre as crianças deve ser incentivada.

Silvia Rezende:

Graduada em Pedagogia e Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Silvia possui especialização em Terapia Comportamental Cognitiva em saúde mental pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Ela é a coordenadora técnica da Clínica de Psicologia LARES e professora do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Silvia atua também como psicóloga colaboradora no IPQ HC FMUSP e no Programa de Psiquiatria Social e Cultural (PROSOL), um grupo do Instituto de Psiquiatria da FMUSP. Ela é filiada à Federação Brasileira de Terapias Cognitivas.

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