Fórum Brasil/Portugal – São Carlos

Portugal deixou de ser um país seguro?

(*) Rui Sintra

Há perguntas que me incomodam precisamente porque não admitem respostas fáceis. Uma delas tem-me acompanhado nos últimos tempos: Portugal deixou de ser um país seguro? Faço esta pergunta não para alimentar alarmismos, nem para transformar casos isolados numa descrição de todo o país. Faço-a porque segurança não é apenas aquilo que aparece nas estatísticas. Segurança é também aquilo que sentimos quando caminhamos numa rua à noite, quando entramos numa estação de metrô, quando deixamos os nossos filhos sair de casa ou quando nos sentamos tranquilamente numa esplanada sem pensar constantemente no que pode acontecer. E é justamente aqui que começa o problema: os números e a percepção das pessoas nem sempre caminham na mesma direção. Os dados mais recentes recomendam prudência antes de afirmarmos que Portugal se tornou um país inseguro. Segundo o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2025, a criminalidade violenta e grave registou 14.149 participações das forças de segurança, menos 1,6% do que em 2024. No entanto, o mesmo relatório indica que a criminalidade geral participada aumentou 3,1% em 2025, crescimento que as autoridades relacionam sobretudo com crimes associados ao reforço da fiscalização e à maior proatividade policial, incluindo criminalidade rodoviária, detenção de armas proibidas e desobediência. Se recuarmos um ano, encontramos outro retrato aparentemente contraditório. Em 2024, a criminalidade geral tinha diminuído 4,6%, para 354.878 participações, enquanto a criminalidade violenta e grave aumentara 2,6%, atingindo 14.385 casos. Então, afinal, Portugal está mais ou menos seguro? A minha resposta é: depende daquilo que estamos a medir. Se olharmos exclusivamente para os números globais, não encontro fundamento para afirmar que Portugal se transformou subitamente num país inseguro. Mas, também considero um erro utilizar os bons indicadores gerais como argumento para desvalorizar aquilo que os cidadãos veem e sentem no seu quotidiano. Porque há uma diferença importante entre segurança estatística e sentimento de segurança. Uma pessoa que nunca foi assaltada pode começar a sentir medo depois de assistir repetidamente a episódios de violência na sua cidade. Um comerciante que presencia furtos sucessivos no seu bairro não fica mais tranquilo porque uma estatística nacional lhe diz que determinado tipo de crime diminuiu. Uma mulher que evita caminhar sozinha à noite não recupera automaticamente a sensação de segurança ao saber que Portugal continua, em termos gerais, a apresentar indicadores favoráveis. E não podemos simplesmente responder a essas pessoas: “os números dizem que está tudo bem”. Não está tudo bem sempre que alguém modifica a sua rotina por medo. Mas também não devemos cair no extremo oposto. As redes sociais mudaram profundamente a nossa percepção da criminalidade. Hoje, uma agressão ocorrida numa rua de Lisboa, Porto, Braga ou Faro pode estar, poucos minutos depois, no celular de milhões de pessoas. O mesmo vídeo é repetido, comentado, partilhado e reproduzido durante dias. Um acontecimento local transforma-se rapidamente numa experiência nacional. Isso cria uma questão que considero essencial: estamos perante mais violência ou estamos simplesmente a ver muito mais a violência que sempre existiu? Provavelmente existem elementos dessas duas situações. Há fenómenos que merecem atenção. Em 2024, por exemplo, registraram-se aumentos em algumas categorias particularmente sensíveis: as violações cresceram 9,9%, os roubos de viaturas 106,3% e os roubos em edifícios comerciais ou industriais 21,7%. São números que não devem ser utilizados para provocar medo, mas também não podem ser ignorados. Por outro lado, é importante observar tendências mais longas. Os 14.385 crimes violentos e graves registados em 2024 estavam ainda muito abaixo dos 18.964 registados em 2015. E, como referi, em 2025 esse total voltou a cair para 14.149. Portanto, não me parece correto dizer simplesmente que “Portugal deixou de ser seguro”. Mas há outra pergunta que talvez seja ainda mais importante: Portugal está a fazer o suficiente para continuar seguro? Ahhh!! Aqui tenho mais dúvidas. Um país seguro não permanece seguro por decreto, tradição ou reputação internacional. A segurança é uma conquista diária. Exige forças policiais com recursos humanos e materiais adequados, investigação criminal eficiente, justiça capaz de responder em tempo razoável, prevenção, policiamento de proximidade e atenção aos locais onde começam a surgir novos focos de criminalidade. Exige igualmente que as autoridades escutem a população. Quando moradores de determinadas áreas dizem que já não se sentem seguros, essa preocupação não deve ser imediatamente classificada como exagero. É preciso perceber o que mudou. Aumentaram os furtos? As agressões? O tráfico de droga? Os comportamentos antissociais? Falta iluminação? Diminuiu a presença policial? O sentimento de insegurança também é um problema público. Ao mesmo tempo, considero indispensável separar segurança de preconceito. O debate sobre criminalidade não pode transformar-se numa desculpa para culpar comunidades inteiras, estrangeiros, imigrantes ou grupos sociais por crimes cometidos por indivíduos. Crime tem autores e não tem nacionalidades coletivamente culpadas. Esta distinção tornou-se particularmente importante num Portugal que mudou muito nas últimas décadas. O país tornou-se mais turístico, mais internacional, mais diversificado e mais urbano. Lisboa e Porto recebem milhões de visitantes, novas populações chegaram, bairros transformaram-se e as cidades vivem hoje pressões muito diferentes das que existiam há vinte ou trinta anos. Naturalmente, as políticas de segurança também precisam de acompanhar essa transformação. Por isso, quando me perguntam se Portugal deixou de ser um país seguro, respondo que não. Pelo menos, os dados disponíveis não permitem sustentar uma afirmação tão absoluta. Mas, acrescento imediatamente: isso não significa que possamos ficar descansados. A segurança deteriora-se muitas vezes de forma gradual. Primeiro normalizamos pequenos delitos. Depois habituamo-nos a evitar determinadas ruas. Em seguida aceitamos que comerciantes fechem mais cedo, que idosos tenham medo, que turistas sejam constantemente alertados para furtos ou que determinados comportamentos violentos façam parte inevitável da vida urbana. É precisamente essa normalização que devemos evitar. Quero continuar a reconhecer Portugal como o país onde se pode caminhar tranquilamente pelas ruas, conversar numa praça até tarde, utilizar transportes públicos sem medo e deixar que crianças e idosos usufruam do espaço público com liberdade. Mas, essa tranquilidade não pode ser tratada como uma herança garantida. Segurança não é apenas ausência de crime. É liberdade para viver sem medo. Talvez, portanto, a pergunta inicial deva ser reformulada. Em vez de perguntarmos apenas “Portugal deixou de ser um país seguro?”, talvez devamos perguntar: o que precisamos fazer hoje para que Portugal continue a ser seguro amanhã? Precisamos de mais policiamento de proximidade? Precisamos de penas mais eficazes ou de uma justiça mais rápida? Precisamos de investir mais na prevenção e menos apenas na reação? Precisamos de melhorar a integração social? Precisamos de distinguir melhor factos de percepções amplificadas pelas redes sociais? E, sobretudo, estamos dispostos a discutir segurança sem transformar o debate numa guerra ideológica? São perguntas às quais não tenho a pretensão de responder sozinho. Mas, tenho uma convicção: negar os problemas é tão perigoso quanto exagerá-los. Portugal continua a ser um país onde a segurança é uma das grandes qualidades da vida cotidiana. Preservá-la exige reconhecer aquilo que funciona, corrigir aquilo que começa a falhar e agir antes que o medo se transforme em rotina. Porque um país não deixa de ser seguro apenas quando as estatísticas pioram. Começa também a deixar de o ser quando os seus cidadãos deixam de acreditar que podem ocupar as ruas, as praças e as cidades com tranquilidade. E essa confiança, depois de perdida, é muito mais difícil de recuperar.

(*) O autor é jornalista profissional/correspondente para a Europa pela GNS Press Association / EUCJ – European Chamber of Journalists/European News Agency). Presidente do “Fórum Brasil / Portugal – São Carlos (SP) – MTB 66181/SP.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Jornal Primeira Página sobre o assunto.

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