Educação

São Carlos mostra a força da troca de ideias na Matemática

Organizado por estudantes da Pós-Graduação, evento reúne apresentações de pesquisas em andamento

Apresentar uma pesquisa ainda em andamento significa muito mais do que mostrar resultados. É também uma oportunidade de organizar ideias, explicar por que determinado problema merece ser estudado, ouvir perguntas e descobrir novas maneiras de olhar para o próprio trabalho. É a partir dessa dinâmica que estudantes da Pós-Graduação em Matemática do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), da USP, em São Carlos, se reunirão para a 16ª edição do Workshop de Teses e Dissertações em Matemática.

Realizado de 14 a 16 de setembro, no Auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano, o Workshop busca dar visibilidade às pesquisas desenvolvidas pelos pós-graduandos e, ao mesmo tempo, criar um ambiente de formação e integração científica. Organizada pelos próprios estudantes do programa, a iniciativa coloca os trabalhos em desenvolvimento no centro das discussões e estimula o contato entre pós-graduandos que, embora compartilhem o mesmo ambiente acadêmico, nem sempre atuam em temas próximos. “Nossa expectativa é que o Workshop seja um espaço de troca entre os estudantes e a comunidade acadêmica da região. Ao apresentar o andamento de suas pesquisas, os pós-graduandos têm a oportunidade de compartilhar os problemas em que estão trabalhando, discutir perspectivas e conhecer melhor o que vem sendo desenvolvido pelos colegas do programa”, explica a comissão organizadora.

Ao longo dos três dias, estudantes de mestrado poderão apresentar pôsteres ou exposição oral sobre suas dissertações, enquanto doutorandos e alunos de doutorado direto apresentarão palestras sobre seus projetos. A participação integra o processo de acompanhamento acadêmico do Programa de Pós-Graduação em Matemática e é obrigatória, dentro dos prazos estabelecidos pelo programa, para parte dos estudantes.

Mais do que uma etapa formal da pós-graduação, porém, a proposta é fazer desse acompanhamento uma oportunidade de diálogo. “Fazer pesquisa não se resume ao trabalho individual. Uma parte significativa da atividade científica acontece por meio de conversas, perguntas, discussões científicas, muitas vezes em ambientes bastante informais, como os corredores e os cafés dos departamentos”, destaca a comissão.

Aprender a falar — e a ouvir — sobre pesquisa – Essa dimensão coletiva da ciência também transforma a apresentação de um trabalho em um exercício de formação. Para explicar uma pesquisa a colegas que não necessariamente atuam no mesmo tema, é preciso encontrar maneiras claras de apresentar o problema, contextualizar sua importância e mostrar os caminhos que estão sendo investigados.

Por outro lado, perguntas e sugestões podem revelar conexões que ainda não haviam sido consideradas. Segundo a comissão organizadora, aprender a receber diferentes pontos de vista sobre a própria pesquisa faz parte do desenvolvimento de um pesquisador.

O mesmo vale para quem está na plateia. Acompanhar os trabalhos dos colegas permite conhecer uma parcela maior do que é produzido dentro do programa e pode aproximar temas e pessoas que, em outras circunstâncias, teriam pouco contato. “O Workshop também funciona como um momento de reflexão sobre o próprio percurso da pesquisa. Preparar uma apresentação sobre o trabalho em andamento leva o discente a organizar o que já foi feito, identificar com mais clareza os resultados obtidos, as dificuldades encontradas e os próximos passos do projeto”, afirma a comissão. “Conhecer o trabalho das pessoas ao nosso redor contribui para o surgimento de novas referências, conexões entre diferentes temas e oportunidades de colaboração.”

A própria organização por estudantes reforça esse caráter de protagonismo dos pós-graduandos, que não participam apenas como autores dos trabalhos apresentados, mas também ajudam a construir o espaço em que essas discussões acontecem.

Um mapa das possibilidades de pesquisa no ICMC – A edição de 2026 terá ainda uma novidade voltada a ampliar esse contato entre diferentes áreas. Pesquisadores do Instituto apresentarão suas linhas de atuação e algumas das questões que orientam seus trabalhos, oferecendo a estudantes de graduação e pós-graduação uma visão mais ampla das possibilidades de pesquisa existentes no ICMC.

A proposta é particularmente relevante para quem ainda está definindo os rumos da própria formação. Em vez de conhecer uma área apenas pelo nome ou pelas disciplinas oferecidas, os estudantes poderão ter contato com perguntas concretas que mobilizam os pesquisadores e compreender melhor que tipos de problemas são investigados em diferentes campos da Matemática.

Ao inserir essa atividade na programação, o Workshop amplia seu alcance para além do acompanhamento dos projetos já em curso. O encontro passa também a funcionar como uma porta de entrada para novas perguntas, temas e possíveis trajetórias acadêmicas.

Prêmio Gutierrez encerra programação O último dia do Workshop terá ainda um momento dedicado a uma tese que já foi defendida. Em 16 de setembro, às 14 horas, o Auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano receberá a cerimônia de entrega do Prêmio Professor Carlos Teobaldo Gutierrez Vidalon.

Promovido conjuntamente pelo ICMC-USP e pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), o prêmio reconhece anualmente a melhor tese de doutorado em Matemática defendida no Brasil em programas reconhecidos pelo Ministério da Educação. Entre os critérios considerados na seleção estão a originalidade e a qualidade científica dos trabalhos.

Criada em homenagem ao matemático Carlos Teobaldo Gutierrez Vidalon, que atuou como professor titular do ICMC e contribuiu para a formação de pesquisadores e para a consolidação de um grupo de pesquisa no Instituto, a premiação prevê, em 2026, o valor de R$ 3,2 mil para o autor da tese vencedora.

Ao reunir, na mesma programação, pesquisas que estão dando seus primeiros passos, projetos em diferentes etapas de desenvolvimento e o reconhecimento a uma tese já concluída, o Workshop oferece um retrato de diferentes momentos da formação científica — todos ligados por uma característica comum: a pesquisa avança também quando ideias são apresentadas, questionadas e compartilhadas. (Yves Vieira, da Fontes Comunicação Científica)

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