Após 30 anos, principal evento latino-americano da área voltou a São Carlos com quatro dias de programação sobre bancos de dados, inteligência artificial e os desafios que aproximam universidades e empresas
Trinta anos depois de sua última passagem por São Carlos, o Simpósio Brasileiro de Banco de Dados (SBBD) voltou ao Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP. Entre os dias 8 e 11 de setembro, mais de 300 participantes estiveram no campus para a 41ª edição de um dos mais tradicionais encontros da Computação brasileira e principal evento latino-americano dedicado à área de bancos de dados.
Ao longo dos quatro dias do evento promovido pela Comissão Especial de Bancos de Dados (CEBD) da Sociedade Brasileira de Computação (SBC), pesquisadores, estudantes e profissionais do mercado circularam por uma programação que reuniu palestras nacionais e internacionais, sessões de apresentação de trabalhos científicos, workshops, minicursos, tutoriais, painéis e atividades de integração. Houve ainda espaço para competições, como a Maratona de SQL, e para encontros voltados à aproximação entre estudantes, pesquisadores e empresas.
Para Mirela Teixeira Cazzolato, professora do ICMC e uma das organizadoras, o retorno do simpósio a São Carlos teve um significado especial. “Nós temos uma representatividade grande dentro da comunidade de banco de dados do Brasil. Então receber todos os nossos colegas e os estudantes aqui é um prazer e uma honra”, afirma.
Dos bancos de dados aos modelos de inteligência artificial
A própria programação mostrou o quanto a área se transformou desde que o SBBD começou a ser realizado, em 1986. Se os primeiros desafios estavam concentrados principalmente na organização, armazenamento e recuperação de informações, hoje os bancos de dados fazem parte de discussões que envolvem ciência de dados, aprendizado de máquina e inteligência artificial.
Um exemplo veio da palestra da pesquisadora Renée Miller, da Universidade de Waterloo, no Canadá. Com o tema “Model Lakes”, ela apresentou os desafios relacionados à organização de grandes conjuntos de modelos de inteligência artificial pré-treinados. A ideia é aplicar princípios tradicionalmente utilizados no gerenciamento de dados para facilitar tarefas como localizar, comparar e compreender a origem de diferentes modelos de IA.
Outro convidado internacional, Mohamed Mokbel, da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, levou ao SBBD a palestra “On building spatially-aware systems”. A apresentação abordou a importância de considerar informações espaciais — como localização e deslocamento — desde a concepção de sistemas computacionais, em vez de tratá-las apenas como uma característica complementar.
A conexão cada vez maior entre dados e inteligência artificial também apareceu nas sessões técnicas, workshops e apresentações de estudantes e profissionais ao longo da semana. Para Caetano Traina Jr., professor do ICMC que acompanha o SBBD desde os anos 1980, essa capacidade de dialogar com outras áreas acompanha toda a trajetória do simpósio. Inicialmente, lembra o docente, bancos de dados estiveram muito ligados ao hardware; depois, aproximaram-se da engenharia de software e interação humano-computador. Agora, a IA ocupa posição central nessa relação.
“Hoje, com essa explosão de IA, é difícil achar algum trabalho que não mencione IA. É um banco de dados dando apoio à IA ou a IA dando apoio a um banco de dados”, resume.
Três décadas de pesquisa em dados
A programação reservou ainda um momento para olhar não apenas para as próximas tecnologias, mas também para a trajetória de quem acompanhou parte importante dessas transformações.
O pesquisador homenageado desta edição foi Marcos André Gonçalves, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na palestra “Relevância científica em espiral: Como permanecer cientificamente relevante por 30 anos em dados e IA”, ele combinou aspectos técnicos com reflexões sobre sua trajetória acadêmica e sobre as mudanças ocorridas na área.
A relação de Gonçalves com o próprio SBBD começou ainda na graduação: sua primeira participação aconteceu em 1993, quando viajou de Fortaleza a Campina Grande para acompanhar o simpósio. Mais de três décadas depois, retornou como homenageado da 41ª edição. Para explicar essa trajetória, utilizou a imagem de uma espiral — um caminho em que experiências anteriores não desaparecem, mas ganham novas dimensões à medida que crescem a escala tecnológica e a responsabilidade científica.
A homenagem também ajudou a colocar em perspectiva um dos temas mais presentes na programação de 2026. Na avaliação do pesquisador, o atual avanço da inteligência artificial reforça, em vez de diminuir, a importância da área de dados: modelos dependem da qualidade, do gerenciamento e do processamento das informações que recebem.
Da universidade para problemas reais das empresas
Se parte da programação apresentou o estado da arte da pesquisa científica, outra colocou em discussão como esses conhecimentos aparecem no cotidiano de grandes organizações.
Representantes de empresas como Petrobras, iFood e Nubank participaram do encontro trazendo problemas e experiências relacionados à engenharia de dados, inteligência artificial e ao desenvolvimento de novas tecnologias. O movimento ajudou a aproximar pesquisas realizadas nas universidades de desafios encontrados em setores como energia, finanças, logística e plataformas digitais.
Na Petrobras, por exemplo, dados são fundamentais para compreender reservatórios e subsidiar decisões sobre exploração e produção de petróleo. Cientista de dados da companhia, Sâmia de Lara Pinheiro explicou que o desafio atualmente vai além de armazenar informações: envolve conectar dados provenientes de diferentes áreas para extrair novos conhecimentos e encontrar oportunidades de inovação.
A participação em um encontro científico permite justamente acompanhar caminhos que ainda estão sendo investigados nas universidades. “Quando a gente vê um trabalho acadêmico, às vezes acende uma luz diferente: isso talvez converse com o nosso processo”, afirma Sâmia.
No caso do iFood, a inteligência artificial esteve no centro da apresentação do engenheiro de dados Mateus Henrique Lopes de Souza Raesk. Ele abordou o ciclo de desenvolvimento de agentes de IA, tecnologia que vem ganhando espaço nas empresas a partir da popularização dos grandes modelos de linguagem. O profissional também mostrou como a tomada de decisões na empresa depende de dados em diferentes frentes, da logística às áreas financeira e de pessoas.
Já Caique Lima, engenheiro sênior do Nubank, apresentou um projeto ainda em desenvolvimento sobre agentes de inteligência artificial capazes de navegar por bancos de dados. Além dos resultados iniciais, a apresentação discutiu como essas ferramentas podem modificar a maneira como empresas realizam análises de dados nos próximos anos.
A presença desses profissionais ilustrou um dos objetivos da programação do SBBD: criar espaços em que pesquisa científica e aplicações tecnológicas possam se alimentar mutuamente. Para as empresas, o simpósio permite acompanhar novas linhas de investigação; para pesquisadores e estudantes, oferece contato com problemas que surgem em sistemas utilizados em grande escala.
Conhecimento colocado à prova
Além das palestras e apresentações científicas, o SBBD contou com atividades práticas. Uma delas foi a Maratona de SQL, competição aberta a estudantes e profissionais de tecnologia que desafiou as equipes a resolver problemas utilizando uma das principais linguagens empregadas para consulta e manipulação de bancos de dados.
A equipe Cadeiras de Dados, formada por estudantes do ICMC, terminou a disputa na primeira colocação. Entre seus integrantes estava o aluno de graduação Rafael Mendonça Duarte. Durante mais de duas horas, os competidores enfrentaram questões envolvendo estruturação, consulta e otimização de bancos de dados.
A equipe começou atrás de alguns adversários, mas conseguiu ganhar ritmo após solucionar três desafios em sequência e chegou ao final da competição na liderança. Para Rafael, a experiência foi uma oportunidade de colocar em prática conhecimentos desenvolvidos ao longo da formação.
A participação estudantil também apareceu nas sessões de pôsteres e apresentações de trabalhos. Alunos de diferentes partes do país tiveram a oportunidade de discutir suas pesquisas com uma comunidade que reúne desde estudantes de graduação até pesquisadores com décadas de experiência.
Foi o caso de Rafael Cabral Campos Pinheiro, estudante de Ciência de Dados da PUC Minas, que viajou de Belo Horizonte-MG para apresentar seu trabalho sobre análise de dados relacionados ao perfil de pessoas com maior incidência de acidente vascular cerebral (AVC). Para ele, estar no simpósio significou ter contato com trabalhos e pesquisadores que dificilmente encontraria reunidos em um mesmo espaço.
Uma comunidade construída ao longo de 41 edições
A presença de jovens pesquisadores tem relação direta com uma preocupação que acompanha o SBBD desde seus primeiros anos. Um dos participantes das edições iniciais, José Palazzo Moreira de Oliveira, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), lembra que a Sociedade Brasileira de Computação buscou historicamente incluir estudantes de graduação nos encontros científicos — característica que diferencia o modelo brasileiro de muitas conferências internacionais concentradas em pesquisadores mais experientes.
Palazzo acompanhou de perto o surgimento do simpósio, quando os primeiros grupos de pesquisa em bancos de dados no país ainda estavam ligados a um número reduzido de programas de pós-graduação. Naquele período, artigos eram enviados pelo correio, cópias precisavam ser distribuídas fisicamente aos avaliadores e os anais impressos constituíam uma das principais formas de circulação dos resultados científicos.
Quatro décadas depois, trabalhos apresentados no evento podem estar indexados e disponíveis online praticamente no mesmo período em que o simpósio acontece. Para Palazzo, essa transformação no modo de produzir e compartilhar conhecimento é uma das mudanças mais profundas observadas desde as primeiras edições.
Mas algumas características permaneceram. Sessões técnicas continuam permitindo que pesquisadores conheçam resultados recentes; workshops e tutoriais criam espaços para aprofundar temas específicos; atividades sociais ampliam as oportunidades de interação; e estudantes encontram um ambiente para começar a construir suas próprias redes de colaboração. A programação de 2026 incluiu ainda encontros de integração entre participantes e patrocinadores e atividades destinadas à comunidade feminina da área.
Conexões que seguem depois do evento
Ao final dos quatro dias, o retorno do SBBD a São Carlos deixou um retrato de uma área que se tornou ainda mais central para a Computação. Bancos de dados continuam lidando com questões como armazenamento, organização, indexação, eficiência e qualidade das informações, mas agora também sustentam tecnologias que estão no centro das discussões contemporâneas — entre elas, os grandes modelos de inteligência artificial.
Para Mirela Cazzolato, encontros como o SBBD têm como legado as relações que se formam entre seus participantes. Elas podem dar origem a novas colaborações acadêmicas, projetos científicos e aproximações entre universidades e empresas.
Essas conexões já apontam para a continuidade do encontro. A próxima edição será realizada em Porto Alegre e, segundo a professora Karin Becker, da UFRGS, deverá ampliar o diálogo entre dados e inteligência artificial com a realização conjunta do SBBD e da BRACIS, Conferência Brasileira de Sistemas Inteligentes, além de outros eventos relacionados às duas áreas.
Depois de três décadas longe de São Carlos, o SBBD encerrou sua 41ª edição mostrando que muita coisa mudou desde sua última passagem pelo ICMC. O volume de dados cresceu, novas tecnologias surgiram e a inteligência artificial ganhou protagonismo. O desafio que une a comunidade, porém, permanece: transformar dados em conhecimento e criar formas cada vez mais eficientes de utilizá-los para enfrentar problemas científicos, tecnológicos e sociais. (Henrique Fontes e Yves Vieira, da Fontes Comunicação Científica)








