(*) Rui Sintra
Uma antiga prece portuguesa atravessa o tempo como um ensinamento sereno, quase um conselho deixado de geração em geração para lembrar o que realmente importa. Em meio a tantos desejos feitos às pressas, listas de metas e promessas para o futuro, ela propõe uma pausa. Ao perguntar o que se espera de um novo ano que acaba de nascer, a resposta rompe com a lógica do excesso: não se deseja que ele traga conquistas grandiosas, bens materiais ou mudanças espetaculares. O pedido é mais profundo e humano — que o novo ano não leve aquilo que já foi conquistado com esforço, afeto e esperança. Que não leve o teto que nos protege, esse espaço que vai além das paredes e do telhado, onde se constrói a sensação de lar, de segurança e de refúgio. Que não falte o prato que nos alimenta, símbolo de sustento, partilha e cuidado, fruto do trabalho diário e da solidariedade que mantém famílias unidas. Que permaneça a manta que nos aquece nas noites frias e difíceis, lembrando que o conforto pode ser simples, mas é essencial. E que a luz continue a iluminar os ambientes e os nossos caminhos, clareando escolhas, afastando medos e alimentando a confiança no amanhã. Que o tempo seja generoso e não leve os sorrisos daqueles que amamos, pois são eles que suavizam as dores e transformam dias comuns em momentos especiais. Que a saúde siga presente em cada um de nós como um tesouro silencioso, muitas vezes esquecido na correria da rotina, mas indispensável para viver com plenitude, autonomia e alegria. Que o trabalho não se perca, não apenas como fonte de renda, mas como expressão de dignidade, propósito e reconhecimento do próprio valor. A prece também suplica pela permanência dos vínculos que sustentam a vida. Que as amizades continuem firmes, oferecendo apoio nas quedas e celebrando cada pequena vitória. Que a companhia esteja presente, especialmente nos momentos de silêncio e fragilidade, quando a presença do outro faz toda a diferença. Que não nos faltem os abraços sinceros, os beijos cheios de afeto e os gestos simples que reafirmam o amor e o cuidado mútuo. Há, ainda, um pedido que toca profundamente o coração: que o novo ano não leve os sonhos. Nem os grandes, nem os pequenos, nem aqueles que parecem distantes demais. São eles que mantêm viva a esperança e dão sentido à caminhada. Que não sejam arrancados os pedaços do coração formados pelas pessoas que encontramos ao longo da vida — familiares, amigos, amores, ausências — e que carregamos dentro de nós como parte da nossa própria história. Essa antiga prece não fala de ambição desmedida, mas de gratidão. Não busca acumular, mas preservar. Ela nos convida a reconhecer que, muitas vezes, a maior conquista é simplesmente continuar inteiro, com o essencial intacto e o coração em paz. Em um mundo marcado por incertezas e mudanças constantes, esse pedido simples se transforma em um gesto de sabedoria e humildade. Que esse sentimento acompanhe as celebrações deste ano novo, renovando a fé na vida, no cuidado e na convivência. Desejo aos meus leitores, aos meus colegas deste portal e às suas famílias um ano de saúde, alegrias e sucesso, no qual permaneçam tudo aquilo que realmente importa e faz a vida valer a pena.
(*) O autor é jornalista profissional/correspondente para a Europa pela GNS Press Association / EUCJ – European Chamber of Journalists/European News Agency) – MTB 66181/SP.
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