(*) Rui Sintra
O crescimento da presença brasileira numa das mais prestigiadas universidades portuguesas demonstra a força dos laços históricos, culturais e acadêmicos entre Portugal e Brasil, mas também levanta questões sobre os custos do ensino, a igualdade de oportunidades e o futuro da cooperação entre os dois países. Há notícias que, pela sua dimensão e significado, merecem muito mais do que uma simples leitura. A informação de que a Universidade de Coimbra acolhe atualmente mais de três mil estudantes brasileiros é, para mim, uma dessas notícias. Não apenas pelos números, que são expressivos, mas principalmente por aquilo que representam na relação entre Portugal e Brasil, dois países unidos por uma história comum, pela língua portuguesa e por uma herança cultural que continua a atravessar gerações. Vejo neste crescimento uma demonstração inequívoca de que Portugal continua a exercer uma forte atração sobre os jovens brasileiros que procuram formação acadêmica, novas experiências e oportunidades de construir um futuro profissional mais sólido. Mas, vejo também algo que considero ainda mais importante: a confirmação de que o conhecimento e a educação constituem instrumentos fundamentais para aproximar povos e fortalecer relações que não podem ficar limitadas aos discursos diplomáticos. A Universidade de Coimbra não é uma instituição qualquer. Com mais de sete séculos de história, representa uma das mais importantes referências do ensino superior português e ocupa um lugar muito particular na memória acadêmica e cultural do Brasil. Durante séculos, foi ali que muitos brasileiros procuraram formação, especialmente nas áreas do Direito, da Medicina e das Humanidades, contribuindo posteriormente para a construção das instituições brasileiras. Essa ligação histórica ajuda a compreender por que razão tantos estudantes brasileiros continuam a escolher Coimbra. Segundo o vice-reitor daquele estabelecimento de ensino superior, João Nuno Calvão da Silva, a instituição atravessa um período de crescimento histórico da sua população estudantil internacional, reunindo alunos de cerca de 120 nacionalidades. Trata-se de um dado que merece ser valorizado, porque demonstra a capacidade de uma universidade histórica se afirmar num mundo cada vez mais globalizado e competitivo. Entre os brasileiros, a Faculdade de Direito continua a exercer uma atração muito particular. E isso não acontece por acaso. O Direito brasileiro possui profundas raízes na tradição jurídica portuguesa, sendo impossível compreender plenamente a sua formação sem reconhecer a influência exercida, ao longo dos séculos, pelos juristas e professores de Coimbra. Contudo, considero que esta relação acadêmica deve ser analisada numa perspectiva muito mais abrangente.
Estudar em Portugal não pode ser um privilégio de poucos
Se, por um lado, os números revelam uma realidade animadora, por outro, obrigam-nos a refletir sobre os obstáculos que muitos estudantes enfrentam para concretizar o sonho de estudar em Portugal. Um dos problemas mais preocupantes continua a ser o custo do ensino superior para estudantes internacionais. Segundo as informações divulgadas, estes alunos podem chegar a pagar propinas (termo utilizado em Portugal para mensalidades) três vezes superiores às cobradas a outros estudantes. Reconheço que as universidades necessitam de recursos financeiros para manter a qualidade do ensino, desenvolver investigação científica e assegurar o seu funcionamento. Mas, também considero que a educação não deve transformar-se num privilégio reservado exclusivamente àqueles que possuem melhores condições económicas. Quando falamos de estudantes brasileiros, angolanos, cabo-verdianos ou de outros países de língua portuguesa, estamos a falar de jovens que partilham com Portugal uma herança linguística e cultural que deveria justificar uma atenção especial nas políticas de cooperação académica. Não defendo privilégios injustificados nem tratamentos que contrariem os princípios da igualdade. Defendo, isso sim, a criação de mecanismos de apoio, bolsas de estudo e políticas de cooperação capazes de permitir que o talento e o mérito acadêmico tenham maior peso do que a capacidade financeira das famílias. É particularmente preocupante verificar que muitos jovens dos países africanos de língua portuguesa encontram dificuldades econômicas para estudar em Coimbra, mesmo quando beneficiam de condições mais favoráveis nas propinas. A igualdade de oportunidades não pode limitar-se à possibilidade formal de concorrer a uma vaga. Deve também traduzir-se em condições reais para que os estudantes possam frequentar e concluir os seus cursos. Neste contexto, considero significativo o exemplo da mobilização de estudantes brasileiros em Lisboa, que conseguiu uma redução de 50% no valor das propinas do curso de Direito. É uma demonstração de que o diálogo, a organização estudantil e a defesa legítima de direitos podem produzir resultados concretos.
A integração também faz parte da formação
Outro aspeto que merece destaque é a importância das estruturas de acolhimento e integração dos estudantes brasileiros. A existência da Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros (APEB), em Coimbra, demonstra que a comunidade acadêmica brasileira procura organizar-se, apoiar os recém-chegados e criar condições para uma integração mais harmoniosa na sociedade portuguesa. Considero este trabalho particularmente importante. Estudar no estrangeiro não significa apenas frequentar aulas, realizar exames e obter um diploma. Significa também adaptar-se a uma nova realidade, enfrentar diferenças culturais, construir relações humanas e, muitas vezes, superar dificuldades relacionadas com a habitação, os custos de vida e a distância da família. Embora Portugal e Brasil partilhem a mesma língua, existem diferenças de hábitos, comportamentos e realidades sociais que exigem compreensão e respeito de ambas as partes. Por isso, entendo que as universidades portuguesas devem continuar a investir não apenas na internacionalização do ensino, mas também em políticas de acolhimento que permitam aos estudantes estrangeiros sentirem-se verdadeiramente integrados. Uma universidade internacional não se mede exclusivamente pelo número de nacionalidades representadas nos seus corredores. Mede-se também pela qualidade do ambiente acadêmico, pelo respeito pela diversidade e pela capacidade de transformar diferenças culturais em oportunidades de aprendizagem.
Portugal e Brasil precisam de transformar esta aproximação em resultados
Há ainda uma questão que considero essencial: o aproveitamento estratégico desta crescente presença brasileira nas universidades portuguesas. Portugal e Brasil dispõem de condições privilegiadas para desenvolver projetos conjuntos nas áreas da ciência, tecnologia, inovação, cultura e formação profissional. As universidades dos dois países deveriam aprofundar os programas de mobilidade acadêmica, os acordos de investigação e as parcerias institucionais, criando oportunidades que beneficiem não apenas os estudantes, mas também as sociedades portuguesa e brasileira. Neste domínio, penso particularmente no papel que instituições brasileiras de reconhecida qualidade, como a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), podem desempenhar no fortalecimento das relações científicas e acadêmicas com Portugal, incluindo o “Fórum Brasil/Portugal – São Carlos – SP”, a Prefeitura e a Câmara Municipal como complementos indispensáveis para interações e colaborações de diversos níveis, como, por exemplo, empreendedorismo, turismo, políticas públicas, etc.. A cooperação universitária não deve ser encarada como uma simples troca de estudantes. Deve constituir um investimento no futuro, na circulação do conhecimento e na formação de profissionais capazes de responder aos desafios de um mundo em permanente transformação. Também considero importante que esta relação seja construída numa lógica de reciprocidade. Se milhares de brasileiros escolhem Portugal para estudar, devemos igualmente estimular a presença de estudantes e investigadores portugueses nas cidades e nas universidades brasileiras. O Brasil – e particularmente São Carlos – possui centros de investigação e instituições de ensino superior de excelência, cujo potencial científico merece ser mais conhecido e valorizado em Portugal.
Uma oportunidade que não podemos desperdiçar
Olho para os mais de três mil estudantes brasileiros da Universidade de Coimbra com satisfação, mas também com sentido de responsabilidade. Satisfação porque representam uma nova geração que mantém viva a ligação entre Portugal e Brasil, renovando uma relação construída ao longo de séculos. Responsabilidade porque considero que os governos, as universidades e as organizações representativas das comunidades luso-brasileiras devem contribuir para que esta aproximação produza resultados duradouros. Não basta celebrar números recordes de estudantes estrangeiros. É necessário garantir condições de acesso, qualidade de ensino, integração social e oportunidades de desenvolvimento acadêmico e profissional. Defendo que a língua portuguesa deve continuar a ser um instrumento privilegiado de aproximação entre os países que a partilham. Mas, essa proximidade precisa de traduzir-se em políticas concretas, capazes de ultrapassar dificuldades econômicas e criar novas perspectivas para os jovens. A Universidade de Coimbra, pela sua história, prestígio e ligação secular ao Brasil, possui todas as condições para continuar a desempenhar um papel central neste processo. E é precisamente por isso que considero tão importante esta notícia. Porque, para além das estatísticas, cada estudante brasileiro que chega a Coimbra transporta consigo expectativas, sonhos, ambições e a vontade de construir um futuro melhor. No fundo, acredito que o verdadeiro valor desta presença brasileira não está apenas nos mais de três mil estudantes que hoje frequentam a Universidade de Coimbra, mas nas pontes humanas, culturais e científicas que estão a ser construídas entre Portugal e Brasil. São essas pontes que devemos preservar, fortalecer e, sobretudo, transformar em oportunidades para as próximas gerações. Porque a relação entre Portugal e Brasil não pode viver apenas da memória de um passado comum. Tem de ser construída diariamente, através da educação, da cultura, da ciência e, acima de tudo, do respeito e da valorização das pessoas.
(*) O autor é jornalista profissional/correspondente para a Europa pela GNS Press Association / EUCJ – European Chamber of Journalists/European News Agency). Presidente do “Fórum Brasil / Portugal – São Carlos (SP) – MTB 66181/SP.
Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Jornal Primeira Página sobre o assunto.
