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Morre o ousado gênio da nouvelle vague

Godard foi extremamente importante, marcou a segunda metade do centenário do cinema

14/09/2022 08h13 - Atualizado há 2 anos Publicado por: Redação
Morre o ousado gênio da nouvelle vague Foto: Reprodução

Cannes o homenageou por duas vezes. O pôster do festival de 2016 ostenta uma imagem de O Desprezo, de 1963. O de 2018, a imagem de outro clássico de Jean-Luc Godard, Pierrot le Fou ou O Demônio das Onze Horas, de 1965. É estranho falar em “clássico” de Jean-Luc Godard. Ele foi, talvez, o maior revolucionário da linguagem – e da política – no cinema. No Dicionário de Cinema, Jean Tulard inicia seu verbete sobre ele com duas interrogações: “Pergunta-se se Godard não foi o coveiro do cinema? Ou um gênio inovador?” A polêmica sempre acompanhou Godard. Resumidamente, o jovem de origem suíça que foi estudar em Paris, na Sorbonne, frequentou mais a Cinemateca do que a universidade, ligou-se a André Bazin e François Truffaut, com o pseudônimo de Hans Luca fez a crítica em Arts e na Cahiers du Cinéma, que foi o grande celeiro do movimento de renovação da cinematografia francesa conhecido como nouvelle vague.

NOVA ONDA

A nova onda veio, na segunda metade dos anos 1950, para sacudir as estruturas de um cinema que se fossilizara. Truffaut, num célebre artigo – Uma Certa Tendência do Cinema Francês -, investiu contra o que chamava de cinema de papai. Godard iniciou-se no curta. Opération Béton, Une Femme Coquette, Tous les Garçons s’Appellent Patrick, Charlotte et Son Jules, Une Histoire d’Eau – este último em parceria com Truffaut. Foi ainda Truffaut quem lhe deu a história para seu primeiro longa, Acossado, de 1959. Unidos no começo, seguiram caminhos diferentes. Compartilharam o mesmo ator – Jean-Pierre Léaud. Truffaut morreu cedo, em 1984, aos 52 anos. Godard o ultrapassou em quase 40 anos. Morreu nesta terça, 13, aos 91 anos. Faria 92 em 3 de dezembro. Segundo o jornal Libération, ele teria optado pela eutanásia por sentir “cansaço”.

Justamente a morte. Com exceção de Truffaut e Jacques Démy, que partiu aos 59 anos, os grandes da nouvelle vague foram quase todos longevos. Agnès Varda morreu a poucos meses de completar 91 anos, Eric Rohmer morreu faltando dois meses para 90 anos, Jacques Rivette, aos 88 anos, Claude Chabrol, aos 80. Por volta de 1960, os jovens futuros autores da nova onda reclamavam que a França era um país de velhos.

Há controvérsia. Alguns mantiveram a juventude na autoralidade, fazendo até o fim obras inovadoras, cheias de vigor. Justamente Truffaut virou o nó górdio. Fez filmes sobre o amor, baseados na observação cotidiana – uma tradição francesa, segundo Jean Tulard -, foi, ele sim, um clássico, para não dizer acadêmico.

DESCONSTRUÇÃO

Godard, não. Desde o começo questionou a linguagem. Acossado não deixa de ser um faroeste urbano; Um Homem, Uma Mulher é um musical sem canto nem dança. Mesmo quando parecia que ia fazer cinema de gênero, Godard, na verdade, desconstruía as formas. Sua obra foi se radicalizando ao longo dos anos 1960.

A radicalidade não estava só na forma. Masculino-Feminino, de 1965, é sobre sua geração, que Jean-Luc definia como ‘filhos de Marx e da Coca-Cola’, A Chinesa, de 1967, antecipa o célebre Maio de 68 ao colocar seus personagens dentro de um apartamento, dizendo palavras de ordem revolucionárias, Week-End à Francesa, de 1968, utiliza um engarrafamento de trânsito para filmar a derrocada do sistema.

Seguiu-se uma fase de militância, na qual o único filme comercial – nos termos de Godard – foi Tudo Vai Bem, com dois ícones da esquerda, Yves Montand e Jane Fonda. Longe de obter a unanimidade, Godard foi espinafrado pelos sindicatos. Em 2017, ele seria biografado por Michel Hazanavicius em O Formidável. Um recorte, apenas – Godard, interpretado por Louis Garrel, tenta ser aceito nos círculos mais radicais de Maio de 68, mas é rechaçado. O filme se baseia no relato da mulher de Godard na época, Anne Wiazemsky, que ele conheceu ao visitar o set de Au Hazard Balthazar/A Grande Testemunha, de Robert Bresson, de 1966.

AS MULHERES DE GODARD

Depois de transformar Jean Seberg em musa, em Acossado, e de subverter o mito de Brigitte Bardot em O Desprezo, Godard teve a sua fase Anna Karina, a fase Wiazemsky, até chegar a Anne-Marie Miéville. No Google, você encontra a definição: “Importante videomaker suíça”. Por influência dela, ou não, Godard se volta ao vídeo e à TV, realiza Histoire(s) du Cinéma. O livro com esse título, História(s) do Cinema, foi editado no Brasil pela Círculo de Poemas.

Em matéria de colaborações, não se pode esquecer dos grandes papéis ofertados a Jean-Paul Belmondo, que morreu no ano passado, e até a Alain Delon. E se inicia a fase final. Carmen, Eu Vos Saúdo, Maria, Nouvelle Vague, Alemanha Nove Zero, Infelizmente para Mim, O Elogio ao Amor, Imagem e Palavra.

Por último, Godard recebeu a Palma de Ouro honorária em Cannes, em 2018, uma homenagem do festival. Ele venceu o Urso de Ouro, o Leão de Ouro, um César especial pelo conjunto da obra, outro prêmio honorário da Academia de Hollywood. A par de todas as homenagens – e a maioria ele nem se dignou a comparecer -, Godard foi extremamente importante. Marcou a segunda metade do centenário do cinema. Desde o fim dos anos 1950 é inimaginável a evolução do cinema sem as provocações desse gênio.

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